Teatro: Tio Vânia (Aos Que Vierem Depois De Nós)

“o coração está como que varrido” Tchékhov

Tio-Vania.jpg

A decadência é uma ampola dúbia na visão do dramaturgo russo Anton Tchékhov, cuja peça “Tio Vânia” foi adaptada pela mais famosa companhia teatral de Minas Gerais, o Grupo Galpão. Com direção de Yara de Novaes, o enredo destrincha os êxodos no plano imaterial que levaram os habitantes de um casebre – caindo aos pedaços – ambientado na zona rural do século XIX, a enterrarem-se num espaço de adequação. É essa mesma estagnação prontificada por decadentes vidas que levará os corpos dessas almas a se chocarem.

De início, um silêncio incômodo leva os espectadores a se questionarem sobre a realização. A luz na cara afere a nudeza, auxiliada por uma esquálida árvore negra que serve de cenário, e nos confronta com uma intrigante característica da condição humana. Se o barulho e a escuridão escondem o podre de legumes e frutas, o mesmo se dá aos animais. E as vespas logo se animam ao induzirem a putrefação da carne. Revelar que ali habita um coração cardíaco, veias entupidas e o amolecimento dos ossos, só em raros momentos de silêncio e luz.