Prefácio: Amor de Morte Entre Duas Vidas

“na altura de dez polegadas ou mais
homem, terra : duas metades da talha
mas sairei disso sem conhecer ninguém
nem eles a mim” Ezra Pound

Capa do livro "Amor de Morte Entre Duas Vidas"

Quando da estreia de um poeta, a via mais usual de apresentá-lo é por meio do cotejo, dizendo a quem ele soa, mas não, necessariamente, como e o que ele soa – manifesta, expressa, exalta. Tentemos, diferentemente, pelo menos de início, o caminho pelas próprias faces deste livro de Raphael Vidigal, entre elas: a proposta da rapidez, na simbiose entre o artifício vagaroso e o texto velocíssimo, ou, como dito bem melhor por um outro autor, coisas de balística; o movimento nem sempre fácil, pois também no espaço (gráfico), de ancoragem entre as palavras e os sentidos, o que demanda engenho também por parte do leitor; um certo tom trágico, porém performático – logo, autoconsciente –, de equilibrista entre o biográfico, o sensível e o burlesco de um Lennie Dale, citado em “Iluminação ou Prefácio”. Afinal, cautela, pois como coloca ironicamente outro poema deste livro: “esse sentimento grego,/é a vontade de tomar um iogurte”.

Caderno H2O – 20/05/2016

“O que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.” Clarice Lispector

POEMA1

Bufa
A vida é muito grave mas não é séria.
A vida já existia antes da comédia.
A vida já existia antes da Tragédia.
A vida é Hollywood, Shakespeare e a Grécia.
A vida ergue sua saia e espia a greta.
A vida é pó de aranha e mel de abelha.
A vida é ópera bufa, canto da sereia.
A vida é uma ilusão, como um espelho.
Quem olha pra vida sério ela faz careta
A vida é muito grave, mas não é séria.