Dança: Cancan

“Louca, a tarde de figueiras
e de rumores ardentes
cai desmaiada nas coxas
machucadas dos ginetes.
E negros anjos voavam
através do ar poente.
Anjos de compridas tranças
e de corações de azeite.” García Lorca

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Há um ambiente reservado, no fundo de uma sala escura, destinado a mulheres e homens. Polidos, os cavalheiros passam panos por sobre óculos embaçados. Descontraídas, mulheres em vermelhos vestidos vulgares erguem as pernas à altura de cabelos castanhos. A saia está ali para ser levantada. A brisa, a rigor, uma cócega, em minutos expande-se. O furacão alça coxas, canelas, rumores. No varal, a cinta-liga desprendeu-se.

Apertadas por baixo de seios, barrigas, tremores, as pernas não mais resistem à tentação libidinosa. Gorjeiam a liberdade. A tentativa logo se entrosa a um debochado jogo de copas. Aos corações, atarantados, emulam sonhos, desejos, camas. Mas é no palco que desenrola-se, a carícia de dedos e unhas. Bem costurados, os vestidos das moças. Antes, vulgares. Agora, damas. Homens carregam-nas pelas coxas, que apenas voam para as masmorras.