Viver sem pressa, nem urgência de nada

“Em arte, só os preguiçosos são capazes de fazer alguma coisa.” Jagoda Buić

Obra do impressionista francês Renoir

Viver sem pressa, nem urgência de nada. Ouve o cortejo para Tadeu enquanto caminha. Estende a mão a Adílson. Chama-lhe pelo nome do falecido. Hesita, corrige o erro, despista. Manto de velório não serve para o altar. Odete pergunta com medo. Das Neves rejeita com uma expressão séria, em seguida cede. O manto está velho, mas o estado ainda é pleno, portanto da igreja, que cace um feio, furado, amarelo, para o enterro, Odete.

Que traz outro e mostra, à ranzinza Das Neves. De novo faz troça: está bem bonita, enterros são tristes. Então Odete passa um pano na velha, furada, horrorosa, Das Neves com orgulho, diz-lhe em segredo: está perfeita. Tadeu nem na vida, nem Adílson, na morte teria, uma melhor sorte. O homem passou. E passa o concreto. Por sobre os pilares da terra que é bege, gananciosa de tornar-se amálgama do progresso: Das Neves.

O fim da cidade

“É uma hora irreal o cair da tarde. Não estamos vivos nem mortos. É a hora em que nos despedimos, nos arrependemos, ou esquecemos até o espírito de vingança, a grande nostalgia toma conta de nós, devia ser belo, e não é.” Augustina Bessa-Luís

Pintura de Paul Gauguin

Invadem a cidade, esterilizam os pais, abrem as vaginas, expulsam o clitóris de lá. Exilada exala um ocre odor vagabundo. Famintos cachorros devoram ossos. Uma dinâmica inocula a cólica. Bebem catre. A cidade entope: gente, cimento, animal. É-lhe peculiar e cúmplice: o incesto, o estupro. Pedra de néon: a vermelha flor: uma bromélia: o domo: lilases: povo: roxo. Querem parir as barrigas de nove meses querem partir as clandestinas visões de sêmen: creches engolem crianças: asilos internam velhos. Platina o tédio.

Há mais dinheiro. Há mais comida. Há nos canteiros arrotos de fibra. Há um prisioneiro na jaula torcida. Meu desejo é o de te ver o quanto antes, mas o relógio não é exato quando se tem: saudade: o ponteiro anda lento coração bate celerado a expectativa aumenta na medida em que a espera cansa vai chegando ao fim te amo. Saudade: essa palavra larga só comprime e não exprime o tamanho: do que sinto: falta nome apenas: grito: meu pedacinho doce de jabuticaba: geleia de framboesa: amora. Sacrificar o filho pelo bem do pai. A cidade afunda em banzo.

O Estranho Desaparecimento do Procurado

“Alguma coisa dissolveu meu rosto. Coisa que aliás mal aparece em meio à névoa prateada da luz das velas.” Virginia Woolf

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O véu fulgurante e invisível esfola a planície nítida. A promessa de se voltar a isto. A confissão de que Tudo Não Passou Da Verdade. Um negro forte, sorridente, simples, de adjetivos laicos: dispostos um atrás do outro mais confundem, atrasam: a resignação da ignorância. A cabeça ao pender perpendicular revela a calvície histórica. A mão aperta com firmeza. Tensa, suada, o jeito meigo de impressionar com o tamanho dos dentes, a bravura do sorriso: desarma. Lembra o Negrinho do Pastoreio. Abonado com vestes trançadas e traçadas no próprio corpo ele sorri: um sorriso de gosto. Traças passeiam no paletó cinza-escuro. Baixo, torna-se ainda mais baixo, curva-se.

Roxo de susto: da visão da noite: não mais alado: no exato instante em que esta cor muda: não mais amarelo como a terra batida na qual insistem em bater: sem força, mas o tapa arde: nunca verde como os olhos escuros no friso de Ágata: nem roxo que agora mesmo fora de susto, de azedo, sufoco: sonhos incolores: cremos. A água é servida no copo quebrado na ponta. O negro é um búfalo. Os leões o cercam no mato, o capinzal é áspero. Porque nós outros a não sermos donos do terreno se tantos e ledos enganos foram proferidos à boca pequena que engoliu o trema, a lama, o lema, o limbo, o lodo, o Lundu. Ao som do farfalhar de hortaliças romenas, hinos de amor e medo, a revolver coloniais fantasias, o chifre como uma lápide de gesso, os ossos, as carnes, os pelos, afundam junto a todo resto.

Conto do prefeito que virou cavalo

“Ela fitou-o com seus olhos brilhantes, irracionais, exatamente como os olhos de uma criatura não-humana.” D. H. Lawrence

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O cheiro de leite leva ao chafariz. De pestana baixa: como bode espia o sujeito dos olhares fáceis e cavanhaque. Visto na chegada: despercebido, abobalhado. Camuflagem dos fatos não sabe nem enxerga o cargo no rapaz sem modos. Mal acaso torna os homens bobos figuras poderosas. Ou seriam figuras poderosas a elegerem os bobos? Toda forma, anda distraído, despista, no entanto, o trevo de quatro folhas no bolso do paletó xadrez-quadriculado. Hipérbole e pleonasmo mastigam como luta inteira no pasto, como vaca, as vestes, o capim, de lado imita cigarro. O bordel da dor é a saudade. Sanha do animal bisonho e estranhamente lerdo, ao subir ao palco, de improviso um palanque, intenções de inveja cercam as leitosas tetas, a escorrer.