Análise: Ana Cristina Cesar esboçava tentativa de vida pelas palavras

“o coração só constrói
decapitado
e mesmo então
os urubus
não comparecem;” Ana Cristina Cesar

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Em Ana Cristina Cesar o impacto precede, muitas das vezes, a compreensão. A força da palavra, seu poder de síntese, a sonoridade que provoca quando colocada ali naquele espaço, o choque. E é possível dizer que é em Ana Cristina Cesar e não exatamente em sua poesia, em sua prosa, nas cartas que transformou em obras de arte. Ana pratica uma espécie de aproximação distante. De se entregar sem se revelar. “Não se confessa os próprios sentimentos”, alude em uma das tantas passagens em que a biografia, o trânsito entre a primeira e a terceira pessoa, o olhar ora matreiro, ora melancólico, esboçam uma tentativa de vida através das palavras, da literatura.

Do ponto de vista estrutural Ana visava a desarticulações de padrões, à impressão de uma estética moderna, solta, sub-reptícia, propositadamente maculada, viva, em constante transformação e longe dos vícios “literários”. Ana Cristina Cesar é o oposto da pompa, da literatice, e consegue conjugar no mesmo movimento rigor e audácia, elegância e despojamento. Essa convivência com a tradição pode ser constatada no uso de expressões populares e ditados nos escritos de Ana, aos quais ela condecora com uma nova roupagem ou as despe insolentemente. A presença da ruptura, da fragmentação, vão ao encontro da palavra mais “sentida” do que “pensada”.