50 anos do golpe e da ditadura militar: 16 músicas marcantes do período

“Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia…
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria…” Chico Buarque

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No dia 1º de abril de 1964, um golpe militar derrubou o então presidente do Brasil, João Goulart, e instaurou uma tenebrosa e perversa ditadura que durante 21 anos torturou, exilou e matou os seus cidadãos. Sob forte influência da propaganda norte-americana e do plano de expansão do seu domínio nos países da América Latina, o golpe ganhou apoio de parte da população média brasileira que, temendo um regime comunista, participou de passeatas como a “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”.

A mentira do atentado não residia apenas na data em que ocorreu, disfarçada na história oficial para o dia 31 de março na tentativa de legitimar o que jamais seria possível. A liberdade dos marchantes pela família com Deus também só foi possível naquele nome tão fictício quanto os suicídios, desaparecimentos e acidentes de políticos, jornalistas, operários, ativistas e qualquer um que insurgisse a voz contra as barbaridades do regime que, além de tudo, fraudava obituários para esconder os assassinatos que praticava.

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Pode vir quente com Eduardo Araújo & Sylvinha

“Olhai que de asperezas me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes, nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido lenho.” Camões

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A voz rouca e encorpada de Eduardo Araújo já ecoava pelos campos da fazenda de seu pai em Joaíma, no interior de Minas Gerais, desde muito cedo, e logo o fez perceber que a carreira de veterinário talvez não fosse a melhor opção para sua vida. Partiu então em busca de outras terras e resolveu cavalgar pelas notas e acordes dançantes de um ritmo novo que surgia com força e ousadia no cenário musical brasileiro: a Jovem Guarda. Liderada por nomes como Roberto Carlos e Erasmo Carlos e tendo ainda em seu elenco as presenças marcantes de Renato e seus Blue Caps, Ronnie Von, The Fevers, Jerry Adriani, além das musas Wanderléa, Rosemary e Sylvinha Araújo, dentre outros, a Jovem Guarda logo emplacaria nas paradas de sucesso e faria com que um desesperançado Eduardo Araújo deixasse novamente a fazenda de seu pai para trás e voltasse ao Rio de Janeiro, atrás do sonho de cavalgar na crista da onda daquelas canções. O que aconteceu efetivamente no ano de 1967 quando estourou com o seu primeiro sucesso, a canção “O bom”, de Carlos Imperial, que traduzia o comportamento e a postura musical e artística daquela nova geração de músicos.

“Ele é o bom, é o bom, é o bom
“Ele é o bom, é o bom, é o bom
Ah!, Meu carro é vermelho, não uso espelho pra me pentear
botinha sem meia e só na areia eu sei trabalhar”

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Entrevista: Luís Capucho vai tirar você desse lugar

“Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante pode-se ver um brilho azul e intenso!” Jack Kerouac

Luis-Capucho

Quando Cássia Eller o gravou em 1999 pouca gente procurou saber quem era o autor dos versos de “Maluca”. Quando Ney Matogrosso anunciou que o gravaria em 2013, muita gente foi atrás do homem do “Cinema Íris”. Por conta de versos sobre masturbação e mudanças no projeto, Ney não registrou a música de Luís Capucho. “O disco mudou de rumo, ele achou dificuldade no projeto e não sei se irá retomá-lo”, explica o entrevistado.

Natural de Cachoeiro do Itapemirim, no interior do Espírito Santo, Capucho, que é cantor, músico, artista plástico e escritor, não vê ligação da arte que pratica com os outros filhos ilustres do município. “Não sou parte dessa tradição de artistas em Cachoeiro. Não sinto que eu faça parte de um núcleo que a cidade tenha produzido. É uma coincidência”, afirma. Além de Capucho, os músicos Roberto Carlos, Sérgio Sampaio e Raul Sampaio nasceram lá.

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Nu colo

“Esta desmaterializava o compacto.” Clarice Lispector

Jacopo_Tintoretto_A Dama que descobre os seios

Uma mulher negra com um bebê branco no colo. Face coberta, não tem os olhos. Aranha de pelos e braços longos: gérmen gruda nu cólon. A aranha tece a teia rapta o inseto minúsculo. Só sei que ela morre. E o filhote sobrevive.

Porque aconteceu algo durante a noite. E eu estava lá. Mas era dia. Mas os carros não a deixavam passar. E ela nem se sabe se quer atravessar a rua. Ela uma mulher negra. NA RUA. Ele um bebê branco. NO COLO.

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Nora Ney: A tristeza falada

“Que à noite, me vá depor
Na campa em que eu dormitar,
Essa tristeza, essa dor,
Essa amargura, esse amor,
Que eu lia no teu olhar!” Florbela Espanca

Nora-Ney

Nora Ney, a cantora das trágicas paixões que há no mundo, da dor-de-cotovelo, da fossa, dos “fracassados do amor”. Com sua interpretação certeira, cantou a boemia, o preconceito, o amor e a mágoa e atingiu como ninguém o seu alvo: o coração daqueles que sofrem e que amam.

“Todo boêmio é feliz
porque quanto mais triste
mais se ilude.
Esse é o segredo de quem,
como eu, vive na boemia:
colocar no mesmo barco
realidade e poesia.
Rindo da própria agonia”

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