Valesca Popozuda no Museu de Paris

“A maioria das gentes vive de convicções e não de ideias.” Mario Quintana

Valesca-Popozuda

É daquele célebre desconhecido a frase sobre “o que falamos dos outros revelar mais de nós mesmos”. A recente celeuma provocada pela inclusão de uma pergunta sobre Valesca Popozuda numa prova de filosofia tem muito a esclarecer sobre esta tese. Parece-me mais revelador analisar a reação da sociedade em sua pretensa maioria do que a questão propriamente dita que é, sem dúvida nenhuma, mal formulada.

Em todo caso, lembra-me uma atitude um tanto mais ousada e bem empregada, que data do século passado, quando o artista plástico e poeta francês Marcel Duchamp enviou um urinol para o “Salão dos Artistas Independentes” de Nova York, na tentativa de exposição. À época rejeitada hoje a obra que confunde e prejudica muitos “artistas considerados modernos” figura entre as peças mais cobiçadas de um museu em Paris.

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O escritor dos silêncios

“Tudo aquilo para que temos palavras é porque já ultrapassamos.” Nietzsche

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Nunca sequer disse uma palavra. Seus livros eram páginas em branco. Emanava.

Não alcançara nada porque sempre esteve todo. Chegara ao ponto máximo. Almejado por todos entre todos os escritores, sem nunca ter pronunciado: Não tinha o que dizer.

Não utilizava palavras, conjunções verbais, imagens, sons, metáforas, linguística, gramática: Ultrapassara.

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A Flor & O Espinho De Nelson Cavaquinho

“Quando eu passo
Perto das flores
Quase elas dizem assim:
Vai que amanhã enfeitaremos o seu fim” Nelson Cavaquinho

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O jeito de tocar o violão e o cavaquinho que lhe rendeu o apelido, beliscando as cordas com dois dedos, e a voz sempre embargada de uma profunda tristeza, ajudavam a compreender a essência daquele artista. Mergulhado na boemia, Nelson Cavaquinho fazia da melancolia seu mote para compor sambas sinceros e profundos, como “Folhas Secas”, “A flor e o espinho” e “Quando eu me chamar saudade”, todas com Guilherme de Brito, além de criar a obra-prima “Luz Negra”, na qual mais uma vez se despedia da vida, alçada ao sucesso nas vozes de Nara Leão e Elizeth Cardoso. Sempre ligando o amor à tragédia, Nelson Cavaquinho foi um instrumentista, compositor e poeta que viveu a vida inspirado pela morte, e que soube tirar dela, letras e melodias cheias de luz, mesmo negras, cheias de flores, mesmo que com espinhos e cheias de folhas, até mesmo as secas.

A flor e o espinho (samba, 1957) – Nelson Cavaquinho, Guilherme de Brito e Alcides Caminha
“A flor e o espinho” nasceu do cavaquinho de Nelson com a ajuda de mais um desses parceiros que ele conheceu nas mesas de boteco. Guilherme de Brito pediu a todos que tirassem o “sorriso do caminho”, pois ele ia passar com sua dor. O autor desses versos imponentes e tristonhos realmente conheceu Nelson em seu habitat preferido, mas diferente de outros “compositores de ocasião”, participou com poesia e não com dinheiro da canção gravada pelo cantor Raul Moreno, em 1957. O outro parceiro de Nelson na canção é Alcides Caminha, que só mais tarde teria sua identidade revelada, era o desenhista Carlos Zéfiro, famoso pelos quadrinhos eróticos nas décadas de 50 e 60. Escondido com sua voz nos porões do “Cabaré dos Bandidos”, Nelson só apareceria em disco em 1965, ao tocar seu violão rústico na música que era cantada por Elizeth Cardoso. O álbum chamava-se “Elizeth sobe o morro”. Nelson descia aos poucos para o estrelato.

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5 Músicas Cantadas Por Grande Otelo

“Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir” Hilda Hilst

Grande-Otelo

Nas palavras de Herivelto Martins, Grande Otelo tinha “mania de compositor”. O pequeno Sebastião Prata que nasceu em Uberlândia transformou-se num dos maiores atores cômicos do Brasil, e morreu como o inconfundível Grande Otelo no aeroporto de Paris, quando se preparava para receber uma homenagem. Imortalizado na alma brasileira de Mário de Andrade, ao interpretar Macunaíma no cinema e receber o prêmio de melhor ator, Otelo também se destacou como cantor e compositor de grandes sambas.

Praça Onze (samba de carnaval, 1942) – Herivelto Martins e Grande Otelo
Em 1941, quando ficou sabendo da intenção da prefeitura de demolir a Praça Onze, abrigo dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro, Otelo indignou-se e escreveu versos românticos e tristonhos sobre o fato. Então levou a letra para músicos como Wilson Batista, Max Bulhões e Herivelto Martins, a fim de que a musicassem. Nenhum deles se interessou muito, mas o azar de Herivelto era que esse o via todo dia, pois os dois trocavam-se juntos no Cassino da Urca. Herivelto dizia que não cabia samba naquela letra, pois o que Otelo tinha escrito era um romance, com versos do quilate de “Oh Praça Onze, tu vais desaparecer”. Eis que devido à insistência diária do noviço compositor, Herivelto irritou-se e começou a cantar de improviso versos sambados, dizendo para o humorista: “O que você quer dizer é isso: vão acabar com a Praça Onze, não vai haver mais escola de samba, não vai…”, Otelo empolgou-se e começou a escrever ali mesmo os outros versos da canção, enquanto Herivelto tocava a melodia no violão. Quando ficou pronta, a música foi gravada pelo Trio de Ouro com a companhia de Castro Barbosa, e trouxe na execução uma novidade inventada por Herivelto e que fez grande sucesso entre os foliões, o uso do apito para dar ritmo. Todos que sentiam a perda da Praça cantaram e dançaram na avenida a música que dividiu o prêmio de melhor samba do ano de 1942 ao lado da clássica “Ai que saudades da Amélia”, de Ataulfo Alves e Mário Lago. Grande Otelo ria como fazia rir, apesar da tristeza pela perda da praça, ele conseguiu o que queria.

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As Músicas Na Voz De Jamelão

“nenhuma nuvem, mas o corpo de cristal
a tangente formada na concha da mão
como vento vivo em alamedas de faias
como vigoroso ar entre ciprestes” Ezra Pound

Jamelao

Dormia o fruto na planta, quando um ruído doce o despertou. Veio assim, de repente, sem saber de onde vinha, pra que vinha, com a perfeição que a natureza confere aos pré-destinados. José Bispo só saíra de casa com seu pandeiro na intenção de paquerar as meninas, e divertir-se ao som do ritmo. Não imaginava que o coração guardava a verde e rosa coloração da Mangueira, nem que tua pele negra marotamente lhe daria uma assinatura.

Única e inimitável, como estilo, não como nomes que se repetem. Despertou o fruto, a assinatura, a cor, o ritmo, a voz vigorosa, extrema, suspensa e pesada, puro aço cintilante e admirável. Jamelão cantou o samba de sua escola, e a dor de cotovelo do professor do samba-canção, Lupicínio Rodrigues. Excursionou com a Orquestra Tabajara de Severino Araújo, desfilou em parques europeus o brasileiro autêntico que sempre foi, e é ainda, pois é possível ouvir em discos a deflagração do objeto que amanheceu vida.

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