Esse Samba É Batatinha!

“As paredes azuis, cor da roupa dos anjos, desdobram-se nas lajotas vermelhas de cerâmica,” Luiz Ruffato

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Deitado em uma rede branca que se balança entre os cocos da praia e as tiras do Diário de Notícias que ele precisa entregar, Oscar da Penha sente o sol abafado que a vida traz. Quando ele lhe dá um descanso e lhe oferece uma pequena sombra perto do mar, Oscar caminha até o encontro de Antônio Maria e lhe apresenta seu primeiro samba. Desse encontro nasce seu apelido que o tornaria conhecido de bambas da Bahia como Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gilberto Gil e outros um pouco mais distantes como Chico Buarque, Jair Rodrigues, Paulinho da Viola e Jamelão. Ele que tinha começado imitando outro crioulo conhecido como Vassourinha finalmente tinha a chance de mostrar ao mundo as contradições do amor. As contradições da vida. Ele que por muito tempo caminhou sob sol a pino sem chance de nenhuma água, e por isso bebia a que ele próprio produzia e que recebia diretamente de seus olhos salgados e sensíveis. Olhos que eram enxugados por toalhas da saudade e que já eram diplomados em matéria de sofrer. Quando na Bahia se produzia um samba batata, com uma poesia requintada e triste, seu nome logo se ouvia: Batatinha.

“Tenho ainda guardada
Como lembrança do carnaval que passou
Uma toalha bordada, que na escola de samba
Um lindo rosto enxugou”

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rosa azul

“Detesto coisas dignas, impecáveis, engomadas, lavadas com anil: aceito nos outros, levando em conta, inclusive, o tempo em que foram feitas. Mas não é mais tempo de solidez: a literatura tem que ser de transição, como o tempo que nos cerca.” Caio Fernando Abreu

MARC-CHAGALL-O-VIOLONISTA AZUL

Uma rosa num copo d’água. Mesmo que não haja motivo, sombreei cravos presos, botões de rosa já sem vida. Abraça-me na minha carência. Estou me tornando cada noite mais cobra-coral. A gente está incrivelmente sozinho nosso mundo. Tenho os olhos hirtos, pedregulhos massageiam-me a barriga deslizante entre musgos e muros. Na hora do despedaçar da rosa, quando não flui o perfume. Amor já não adianta nada. Ou tudo.

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Francisco Alves ou Chico Viola: O Rei Da Voz

“A voz perdera a primitiva ferocidade e da sua garganta brotavam preces.” Murilo Rubião

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“Ao soar o carrilhão dando as doze badaladas, ao se encontrarem os ponteiros na metade do dia, também os ouvintes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, no programa Luís Vassalo, se encontram com Francisco Alves, o Rei da Voz!” Com essas palavras, Lúcia Helena o anunciava e sua voz grave e pesada logo tomava conta de todas as casas do país. Àquela altura ele já havia sido nomeado por César de Alencar, mas antes de poder desfrutar de toda a sua realeza havia trabalhado como motorista de táxi, engraxate e operário de fábrica de chapéus. Quando lhe foi oferecido pela primeira vez um microfone, a estréia se deu em um circo, cenário que jamais se repetiria depois de gravadas duas músicas do sambista Sinhô. Dali para frente sua vida seria repleta de glórias, dinheiro e muitos discos vendidos, ocupando sempre o lugar mais alto das paradas de sucesso, afinal de contas a coroa já era dele e o microfone há muito reverenciava-lhe. Francisco Alves foi o representante primeiro e mais importante de duas décadas que consagraram um estilo de cantar empostado e com dós de peito. Trajando ternos e smokings elegantes, carregando a voz e o violão, ele se tornou o grande fenômeno de massa da era de ouro do rádio brasileiro e foi peça fundamental na consolidação e no aprimoramento das técnicas elétricas das gravações de música no Brasil. Não houve brasão maior da música brasileira, mesmo que influenciada pelo bel-canto da ópera italiana, do que aquele que reinou absoluto nas décadas de 30 e 40, aclamado pelos radialistas e adorado por seu povo, o Rei da Voz, Francisco Alves.

“Onde o céu azul é mais azul
E uma cruz de estrelas mostra o sul
Aí, se encontra o meu país
O meu Brasil grande e tão feliz”

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100 anos de João Petra de Barros: a voz de 18 quilates

“Não há ancião que esqueça onde escondeu seu tesouro.” Cícero

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Nem todo herói morre de overdose. E nem foi Cazuza o único a deixar a vida aos 32 anos. João Petra de Barros, um carioca da capital, de timbre parecido ao do grandiloquente Francisco Alves, foi apelidado por César Ladeira como “a voz de 18 quilates”. Ícone do rádio de seu tempo, as décadas de 1930 e 1940, o hoje esquecido cantor completaria seu centenário em 2014. Pouco festejado João Petra foi sinônimo de farra e sucesso na época em que atuou. Parceiro de boemia de Noel Rosa teve o privilégio de gravar Mário Lago, Ary Barroso, Ismael Silva, Orestes Barbosa, Custódio Mesquita, Peterpan, um iniciante Vinicius de Moraes, na música “Dor de uma saudade”, e claro, o amigo da Vila.

Uma dessas composições, “Até amanhã”, foi entregue por Noel para João Petra como uma pirraça a Francisco Alves, cansado que estava o poeta da Vila de ver suas músicas sempre associadas ao mesmo nome. “Linda pequena”, a primeira versão da histórica “As Pastorinhas”, mais exitosa parceria de Noel e Braguinha, o João de Barro, foi lançada, e com sucesso, por João Petra, sendo bisada no rádio por cerca de dois anos até a definitiva versão, lançada por Silvio Caldas um ano após a morte de Noel Rosa. Fato este que prenunciou a derrocada da carreira e vida de João Petra. Que em pouco tempo perdeu, para a mesma doença, a tuberculose, dois amigos do samba, Noel e Nílton Bastos.

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Lupicínio Rodrigues: feliz poeta do amor triste

“Eu gostei tanto, tanto,
Quando me contaram
Que lhe encontraram
Bebendo e chorando
Na mesa de um bar” Lupicínio Rodrigues

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Lupicínio Rodrigues nunca tocou nenhum instrumento musical, tocou simplesmente o mais musical de todos os instrumentos: o coração daqueles que choram pelo amor perdido.
Com os cotovelos apoiados no balcão derramou o whisky feito choro na canção e criou a dor-de-cotovelo, o samba-canção.
Cantou o remorso, a vingança, a loucura, o ódio e o amor.
O amor universal.
O amor comum a todos.
Aquele que nos faz sofrer e a gente continua amando.
Cantou a dor.
Uma dor agressiva que nos castiga sem piedade e com rancor.
A dor que bate pra se defender, pra tentar amenizar o sofrimento de apanhar do próprio amor.
“Naquele desespero
De perder o meu amor
Ofereci até um coração
Que não é meu”

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