Elza Soares: Voz Que Toma Corpo

“noviça apaixonada aos vinte anos, puta de salão aos quarenta, rainha da Babilônia aos setenta, santa aos cem. Cantávamos duetos de amor de Puccini, boleros de Agustín Lara, tangos de Carlos Gardel, e comprovávamos uma vez mais que aqueles que não cantam não podem nem imaginar o que é a felicidade de cantar.” Gabriel García Márquez

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Você já ouviu a voz que toma corpo? Da favela vem magra, faminta, intacta e assim permanece. Carrega a cabeça uma lata d’água e nas mãos uma prece, que se estende aos quadris da mulata assanhada, sobe pelas paredes. E alcança no céu um Ary Barroso e um Louis Armstrong. É a mistura sem jeito, sem tato, aos barrancos, mancando ao sapato um tamanco de barro, suor e pilão. Chame de bossa negra, suingue, jazz, funk ou samba na avenida. Ela apenas destila o que chama de corpo é a voz que arrepia: Elza Soares da vida, patrimônio mal resolvido num país de descidas, sucata e música aborígene.

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A Música Maior de Marlene

“… as xícaras de chá chocalhantes se transformariam nos sinos tilintantes das ovelhas, e os gritos agudos da Rainha na voz do menino pastor… e os espirros do bebê, o grito do Grifo e todos os outros barulhos esquisitos se tornariam (ela bem o sabia) o clamor confuso do campo em atividade… ” Lewis Carroll

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O auditório está de pé para apreciar a disputa entre duas vozes agudas que se elevam com categoria. Ao microfone da rádio elas se apresentam com a elegância de quem sabe ser majestade, e as bandeiras flutuantes na platéia alardeiam seus nomes, suspensas por exasperados fã-clubes que não se contentam em elegê-las somente rainhas das canções, promovendo uma histórica rivalidade. No topo mais alto da música, que és o lugar de direito, lá vem Marlene, pinta sob a boca, nariz em riste, lata d’água na cabeça. Lá vem Emilinha com a mesma pinta, bem aprumada, despertando reações escandalosas. Nossas Rainhas Soberanas exibem charme e som de primeiríssima nobreza.

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Linda Batista: Primeira Rainha do Rádio

“E embora meu parco renome,
Minha obra – um dia estival – já teve mecenas:
Primeiro, foi uma rainha;
Depois, uma borboleta.” Emily Dickinson

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Com um boneco encobrindo a luva, sentado sobre caixote de frutas, o ventríloquo dispersa arte para o mundo. As palavras que ele não diz caem no colo do personagem. Muito da fantasia está no gesto engraçado. Mas é que este homem esconde outro segredo, além da voz despistada. No auditório da rádio Cajuti, programa de Francisco Alves, uma das filhas chega atrasada. É a chance para a outra, Linda, estrear em grande estilo e aplausos. Dali por diante, ela, última a entrar em cena, por ironia do destino, contando com a sorte dos astros, será a primeira.

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10 Músicas Do Brasil Sobre Futebol

“é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.” João Cabral de Melo Neto

musica-futebol-brasil

Música e futebol, no Brasil, têm vocabulário próprio. Não por acaso algumas expressões podem ser usadas para se referir tanto a uma quanto ao outro. Por exemplo: ginga, suingue, ritmo, harmonia, direção. Outras ainda mais inusitadas provam o poder de criação e improviso nos dois campos. Só no Brasil cabe dentro de uma partida de futebol a pelada, o drible da vaca, a bicicleta, a folha seca e alguns cachorros que vez em quando invadem. É que o brasileiro joga como se fosse música, e toca como se fosse futebol.

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“Jardim Urgente” é destaque em “Tá no ar: a TV na TV” ao criticar comportamento policialesco

“(…) o ridículo é a tragédia sem grandeza.” Mario Quintana

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Welder Rodrigues é um capítulo à parte na composição do personagem Jorge, o apresentador do programa “Jardim Urgente”, mais um dentre os quadros de “Tá no ar: a TV na TV” que parodiam a mídia brasileira. Merece destaque, não apenas por imitar todos os cacoetes, os exageros e as esquizofrenias, como pela alta crítica que carrega em cada gesto, seja milimétrico ou expansivo. Um dos momentos auge é a transição da pretensa indignação com a “bandidagem” para a hora do merchandising, em que é preciso “falar de coisa boa”.

Ponto que indica o quanto tudo não passa de atuação, não neste humorístico em especial, mas no original. É óbvia e hilária a alusão a José Luís Datena, certamente o principal nome do gênero que incita e estimula o comportamento policialesco, e a seus repórteres. A sacada de ambientar os “crimes” em maternais e creches, onde os “infratores” são “menores”, e alguns até bebês também é de rara inspiração.

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