Revelações

“Palavras, quero-as antes como coisas.” Adélia Prado

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Comportava. Sim, a amizade comportava declarações. Revelações, de fato não. Mas a tessitura estabelecida já se encaminhava para o destino trágico. Confissões, essas ocorriam mais raramente. Incrustados e jamais dizíveis no espaço tampouco se clamavam, mas um atendia pelo outro ao menor solfejo.

Juba gasta pinicando as bochechas era a maneira de aproximar-se. Abria-a lentamente as pétalas, como uma lata de leite condensado cortada, e entrava o muxoxo rouco. Sonoro, porém pouco.

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Vicente Celestino: A Voz Orgulho Do Brasil

“Para ninguém abaixa o orgulhoso olhar;
Passa o luxo da alta em luminoso traço;
Parece não ouvir da rua o murmurar
Que o seu olhar altivo é sempre triste e baço.” Florbela Espanca

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Em meio à lona de um circo aos pedaços, o cantor entra, começa a cantar e é sumariamente vaiado. Recebido com apupos e desaforos, uma flor que cai sobre seus pés lhe serve como consolo. Quando então percebe que quem atirou a flor foi sua amada, os dois logo se casam e ele promete trazer-lhe, como prova de seu amor, o coração de sua mãe. No entanto ao regressar, já com o coração na mão, sangrando e com a perna partida, sua amada havia fugido com outro e deixara consigo apenas uma pequenina boneca de carne: sua filha, que passa a ser a única razão da sua vida e o único motivo que lhe resta para cantar, o que se desfaz quando Deus a leva para a eternidade. Ele então se entrega à bebida e os outros que passam em frente ao bar, ao vê-lo chamam-lhe: “Ébrio, Ébrio.” Essas cenas de tragédias repetidas nunca aconteceram na vida de Vicente Celestino, mas ele as adorava, e por muitas vezes as viveu com o coração na mão, dentro das telas do cinema ou em cima dos palcos de teatro, chopes e rádios. Vicente Celestino, aquela voz de tenor atravessando o corpo sofrido daquele pequeno descendente de italianos e a alma passional dos brasileiros que o adoravam: “A Voz Orgulho do Brasil!”

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Rainha do Xaxado: Marinês E Sua Gente

“Mas são capazes de plantar banana,
Se a noite é das que chove canivete.
Porém se há sol ninguém se afana,
A turma não se mexe nem se mete,
Pois se poupa e prepara-se com gana
Que a Lua um Baile Jericó promete.” T. S. Eliot

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Quem disse que acabou-se a monarquia no Brasil é porque nunca ouviu Marinês, autêntica rainha do ritmo e das tradições nordestinas. Nascida em meio à Asa Branca e o pandeiro de ícones do forró, do xaxado e do baião como Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, Marinês deu seus primeiros passos na terra seca e amarelada do sertão pernambucano, mas foi em Campina Grande, no interior da Paraíba, que conheceu seu marido Abdias e formou com ele o “Casal da Alegria”. Logo, os dois se juntaram ao zabumbeiro Cacau, completando o conjunto que começaria excursionando pela região nordeste e em breve ganharia todo o Brasil, toda sua gente. Trazendo a sanfona, a zabumba, o agogô e o triângulo na sacola, Marinês tornou-se a primeira mulher a liderar com coroa de cangaceiro na cabeça um grupo de forró.

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As Cordas Mágicas De Garoto

“Brilhantes deuses etéreos
Tocam-vos levemente,
Qual os dedos do artista
nas cordas santas
Sem destino, como a criança” Hölderlin

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Prodígio já nasceu chorando. Não queria aquele nome. A mãe o chamou Aníbal. Os amigos o batizaram Moleque do Banjo. Seria sempre Garoto, aonde quer que fosse, arrastava suas cordas mágicas. Diziam serem encantadas, aquelas mãos. Saiu de São Paulo foi para o Rio de Janeiro. Depois, Estados Unidos. Voltou à cidade que o acolheu, descansou o coração, nos preparativos de mais uma viagem. Levou consigo as cordas. Deixou delas, uma pequena amostra, suficiente para alentar lembranças e saudades recolhidas.

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Zé Kéti: A Voz Do Morro

“o sábio
deliciava-se na água
o homem humano tem amizade com os morros
enquanto a relva cresce nas represas” Ezra Pound

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Subindo as ruas íngremes de Bento Ribeiro, José Flores de Jesus lembra-se da sua adolescência, quando morava no subúrbio de Piedade, e de sua infância, que passara em Inhaúma, redutos conhecidos da malandragem do Rio de Janeiro. Ao passar pelas ruas do atual bairro, José Flores enxerga velas acesas, máscaras negras e pede licença para cantar o seu amor. Quando ele finalmente chega à roda de samba para a qual caminha, nem precisa se apresentar, todos já sabem que aquele sujeito de chapéu de aba pequena na cabeça, caixinha de fósforos na mão e andar sambado é o Zé Quietinho filho da dona Leonor, ou o Zé Kéti da Portela que hoje todos conhecem: a voz do morro, da opinião, da prece de esperança e do poema de botequim.

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