Crítica: “Colóquio Sentimental” analisa degradação das relações afetivas

“uma mesa que é como uma cama diurna
com seu coração de árvore, de floresta
é importante em matéria de amor” Ana Martins Marques

Colóquio Sentimental aborda tema comum a todos

Se o título pomposo implicar numa distância à primeira vista, lembre-se: não se deve julgar pela capa o livro. Aos primeiros passos de “Colóquio Sentimental” o conteúdo se descobrirá conhecido, íntimo. A aparente banalidade do tema diz muito a seu respeito: os movimentos mecânicos, repetitivos, os automatismos das relações que se denominam “afetivas” e a lenta degradação que instalam, revelando, outra vez, que não se deve julgar a capa antes do livro; por trás da palavra “afetiva” se concentrarão sentimentos de angústia, ansiedades reprimidas e a necessidade de controle e domínio presentes na forma estabelecida como a consensual para constituir uma existência plena. Os sentimentos são esgarçados através de linguagem mimética, em que a dança desempenha papel decisivo, não apenas pela concisão dos movimentos, prenhes de sentido, mas por que sublinha com beleza o que se imagina. Precisa, contundente e criativa, direção e dramaturgia partem de um amplo campo analítico; detentoras desse embasamento remodelam as intenções e os discursos guiadas por sede estética, que se sacia. O texto é cabal, vai às veias.

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Crítica: “De Tempo Somos – Um Sarau do Grupo Galpão” celebra vida no teatro

“sou um rio de palavras/peço um minuto de silêncios
pausas valsas calmas penadas/e um pouco de esquecimento
apenas um e eu posso deixar o espaço/e estrelar este teatro
que se chama tempo” Paulo Leminski

De Tempo Somos celebra trajetória do grupo Galpão

Embora pareça em alguns momentos uma banda o Galpão é eminentemente um grupo de teatro, provavelmente o mais bem sucedido do país, referência interna e no exterior. A capacidade de se embrenhar nas raízes – ao partir em turnê, por exemplo, pela região do Vale do Jequitinhonha – e, ao mesmo tempo, aguçar o olhar para o estrangeiro configura uma das riquezas presentes entre os valores da companhia, que aparece com vigor nesta montagem. “De Tempo Somos – Um Sarau do Grupo Galpão”, nada mais é do que uma celebração da trupe à vida no teatro. Pois o teatro é a vida do Galpão. Com uma dramaturgia simples, atores e atrizes, que se revezam como instrumentistas e intérpretes musicais em cena, transmitem com calor as emoções que se estabelecem, criando um vínculo sincero com a plateia e, novamente, afirmando um de seus valores mais caros. Tudo por que, fora a intimidade com os versos e as canções selecionadas, a elaboração é teatral, e ao optar por esse prisma, justamente a essência do grupo, a afetividade que marca as escolhas ressoa de maneira ainda mais pertinente em cena. Principalmente por que o clima de diversão no palco estende-se a todo mundo. Temos aqui um interessante recurso dramatúrgico, em que cada personagem é construída em cima da personalidade do intérprete, e não o contrário.

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Crítica: Espetáculo “A-Corda Que é Real!” delineia limites da intolerância

“Foi de mãe todo o meu tesouro
veio dela todo o meu ganho
mulher sapiência, yabá,
do fogo tirava água
do pranto criava consolo” Conceição Evaristo

Espetáculo é protagonizado por Cyntia Reyder

A arte como exercício político é uma das premissas do espetáculo “A-Corda Que é Real!”, que coloca em cena a dançarina Cyntia Reyder e a instrumentista Gal Duvalle. Não é por acaso que as duas mulheres, negras, exercem tal protagonismo, pois, aqui, opta-se pela narrativa simbólica. E é através de suaves e preciosos simbolismos – qual o corte de uma tesoura – que ambas tecem sua travessia pela origem, para buscar, afinal de contas, esse tesouro da identidade: que se revelará múltipla ainda que reverente à ancestralidade. Inexiste novidade em inferir que é a partir da pergunta “de onde viemos” que começamos a conscientemente nos construir. Mas este movimento se afeta tanto de fora para dentro quanto em seu refluxo, como pondera a apresentação. Nada, logo, está imóvel; o menor gesto realça o todo. A dança se instaura com desenvoltura e sensibilidade pelos climas desejados.

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4 marchinhas para o Carnaval de BH

“Parece que o olho deles
Esticou, ficou maior…
É claro, estão esperando
A volta do carnaval.” Murilo Mendes

Festa na capital mineira reúne vários foliões

Nos últimos anos, além dos bares, BH tornou-se também a capital do Carnaval. Com uma programação ampla e diversificada a cidade passou a receber os tão tradicionais e antigos blocos carnavalescos que, fora remeter à memória, trouxeram suas próprias inovações com misturas inusitadas e, acima de tudo, festeiras. Vale fantasia, vale confete e serpentina, principalmente, vale alegria! Com esse intento selecionamos 4 marchinhas para você pular durante os 4 dias de farra e folia, cada uma delas distintas entre si, para privilegiar, como marca do carnaval de Belo Horizonte, justamente a diversidade. São elas uma marcha-rancho, uma marchinha entre o romance e a ironia, e duas marchinhas políticas, ambas com aquela já habitual pegada de humor. Vamos à festa foliar!

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Mulheres Criando – Vozes no deserto: Quebrando o silêncio da composição feminina

“Ô mãe, me explica, me ensina
Me diz, o que é feminina?
Não é no cabelo ou no dengo ou no olhar
É ser menina por todo lugar
Ô mãe, então me ilumina
Me diz, como é que termina?
Termina na hora de recomeçar
Dobra uma esquina, no mesmo lugar” Joyce

Coletivo Mulheres Criando em BH

A recuperação da identidade feminina na composição musical brasileira foi um caminho árduo: os acessos são sempre muito difíceis devido à documentação histórica concentrar-se nos grandes centros do Brasil, sem contar com a amplitude do assunto.

Portanto, assumo, desde o primeiro instante, que o caminho aqui a ser trilhado é do eixo da afetividade. Contento-me, como amante da música, a fazer uma busca afetiva de algumas compositoras que fizeram história na MPB e abriram caminho para tantas outras.

As dificuldades enfrentadas pelas mulheres nos diversos campos da expressão artística são inúmeras; portanto, faz-se necessário um movimento de resistência e luta como o coletivo Mulheres Criando, que surgiu no ano de 2016, na cidade de Belo Horizonte, idealizado por quatro mulheres do cenário musical da cidade.

Amorina, Bia Nogueira, Deh Mussulini e Flávia Ellen criaram o movimento Mulheres Criando[1] que promove a Mostra Mulheres Criando e o Sonora – Ciclo Internacional de Compositoras[2].  O objetivo da iniciativa é valorizar e promover o espaço da mulher compositora no cenário musical nos níveis local, nacional e internacional.

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