Crítica: Peça “Nosso estranho amor” se permite a delicadeza

“Não, nunca fui moderna. E acontece o seguinte: quando estranho uma pintura é aí que é pintura. E quando estranho a palavra aí é que ela alcança o sentido. E quando estranho a vida aí é que começa a vida.” Clarice Lispector

"Nosso estranho amor" conta com músicas de Caetano Veloso

Parece fora de moda dos palcos de BH a temática do amor e suas imbricações, ainda mais quando se trata de uma relação convencional a dois, neste caso, entre uma mulher e um homem. Se a história parece repetida, a abordagem dispõe de um delicado trabalho. É essa delicadeza a que se permite que ganha maior destaque em “Nosso estranho amor”, com direção de Cláudio Dias que tece um sensível panorama das confissões – através de silêncios – dos desencontros – por meio de toques e gestos – e, sobretudo – das turbulências da paixão, de caráter tanto construtivo quanto de destruição, com uma satisfatória ilação entre dança, sentimento e sensações. A simplicidade dos objetos cênicos não impede que, criativamente, tornem-se elementos que carregam ao teatro a aura da fantasia e, principalmente, da possibilidade. Se este é o campo da imaginação aqui a liberdade tem a premência de se ofertar.

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Crítica: Peça “…Ricochete!” não deixa claro aonde quer chegar

“na líquida tarde azul zanzou, sem lugar, desguiando-se,” Luiz Ruffato

Peça Ricochete tem direção e atuação de Rita Clemente

É inusitado que, embora faça referência ao título logo em sua abertura, o que suporia explicitá-lo, a peça “Ricochete” deixe escapar o seu significado. Com três pessoas em cena, nos papéis de uma mãe, um filho e um entregador de sanduíches com sua moto, além de interferências pontuais que ecoam a voz de uma atendente pelo telefone, ora vividas por um ator, ora por outro, o enredo, que procura girar em círculos como sugere a própria estrutura cenográfica, parece enredar a si próprio e, nesse contínuo movimento, perder-se mais do que encontrar alguma solução para as intenções a que se aludem. De tanto apontar para mais de uma direção nenhuma delas encontra o tempo necessário para cristalizar-se e ganhar consistência. O texto, por sua assertividade, acaba por imprimir uma pretensão que prejudica a construção das personagens, tornada frágil, e que consequentemente acarreta num irregular desempenho do trio de intérpretes. A direção também parece confusa.

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Crítica: “Ensaio para senhora azul” expressa realidade líquida

“E que a chuva no meu rosto
Faça crescer tenro caule
De flor. (Ainda que obscura.)” Hilda Hilst

Ensaio para senhora azul apresenta solo de Kelly Crifer

O teatro requer coragem, e disponibilidade. No caso de “Ensaio para senhora azul” essa característica é preponderante no jogo que se estabelece entre personagem, atriz e público. No solo de Kelly Crifer a atuação se vale de enganos sem os quais seria impossível levar toda a complexidade proposta adiante. A luz é um desses truques, capaz de tornar palpável apenas através de cores as diferenças entre fantasia e realidade, exatamente o que a presença da intérprete procura misturar. No entanto, é justamente ela quem comprova a todo instante certa materialidade, a partir de uma dicção coloquial e de texto que, a despeito da conotação poética e metafórica procura afirmação frente a questões agudas e, nesse sentido, sensitivas, tanto quanto sensíveis. A dramaturgia a que se chegou com Assis Benevenuto, Kelly Crifer e o diretor Robson Vieira, tomou por base palavras dos já citados, além de Grace Passô e Viviane Ferreira, e suas passagens inspiradoras superam aquelas irregulares.

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Crítica: “máquina”, da miúda cia., condensa gêneros para refletir a morte

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

Espetáculo "máquina" é baseado na obra de Valter Hugo Mãe

É difícil enumerar as qualidades de “máquina”, espetáculo da miúda cia. de teatro, não pela raridade, justamente em razão da fartura. Pois é esse um espetáculo raro, a começar pelo cenário, seu maior destaque. Além da inventividade, a estrutura, a despeito de sua rigidez aparente, não bastasse o fator estético ali se coloca com a finalidade de ressaltar as emoções das personagens, devolvendo o teatro ao seu lugar de origem: o espaço lúdico da criação, do deslocamento, do brincar e da transformação – pois se coloca é um equivocado modo de dizer, a estrutura, em verdade, desloca-se e nos leva juntos. É esse movimento constante e nunca óbvio – mas que não se apresenta como mera acrobacia estética, ao contrário, interfere pontualmente na história – que permite à narrativa, também, transitar pelos gêneros que sustentam a complexa natureza humana, como o humor, a tragédia e o romance, ao refletir sobre a morte, e não apenas, abranger questões relativas a maneiras de organização política e como elas afetam diretamente as relações interpessoais. O texto, inspirado em obra de Valter Hugo Mãe, só contribui para o espetáculo.

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Crítica: “Um Interlúdio: A Morte e a Donzela” é realista sem panfletar

“Também eu saio à revelia
e procuro uma síntese nas demoras
cato obsessões com fria têmpera e digo
do coração: não soube e digo
da palavra: não digo (não posso ainda acreditar
na vida) e demito o verso como quem acena
e vivo como quem despede a raiva de ter visto” Ana Cristina Cesar

Espetáculo é protagonizado por Christiane Antuña, Gustavo Werneck e Nivaldo Pedrosa

Não é raro que um espetáculo entregue o protagonismo para seus intérpretes, tanto em cinema quanto no teatro. Em relação à 7ª arte são casos clássicos a adaptação “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” e “Uma Rua Chamada Pecado”, com Marlon Brando e Vivian Leigh. Curiosamente, ambas oriundas do teatro. Ou talvez não seja, tão somente, um motivo curioso; bom frisar que tanto uma quanto a outra possuem textos de altíssima qualidade. Categoria que serve para abranger, certamente, “Um Interlúdio: A Morte e a Donzela” em que, a despeito da nitidez e contundência das palavras são os atores Gustavo Werneck e Nivaldo Pedrosa e a atriz Christiane Antuña quem se destacam em ambiente que oferece várias opções para contemplação: a luz atua diretamente na história, a direção sabe conjugar seus artefatos e a música sublinha toda a narrativa emocional e psicológica. Não é por acaso que se extraiu dela o nome da montagem, em referência à obra de Schubert que certamente serve para designar as duas personagens que travam ali a sua batalha: donzela e a morte.

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