Teatro e Violino

“O escritor é uma das criaturas mais neuróticas que existem: ele não sabe viver ao vivo, ele vive através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o não-palpável.” Caio Fernando Abreu

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O morto não é o assassino. Já aviso desde o princípio. Embora a dúvida vá perpetuar toda narrativa.

Contribuía para o mistério as doações para a caixinha da igreja. Que padre assassina um devoto?

Lêem Rimbaud avidamente, na juventude (depois abandonam). Colecionava pôsteres de James Dean (nus armários).

Outros vestígios, somem ao valor do feno.

Um retrato rápido e reto. Curto e rastro.

O morto não é o assassino.

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O sol indiferente

“quando as serpentes paguem para ser serpentes
e o sol para ganhar seu pão recorra à greve–
quando o espinho olhe a rosa com suspeita
e o arco-íris faça seguro contra a neve” e. e. cummings

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O zumbido em redor da colmeia mesclava-se ao canto agudo dos filhotes de João de Barro à espera de alguns insetos. A arquitetura atingia o ápice na destruição dos dentes do castor. Das patas eram prisioneiros gravetos, mel e terra. Elementos líquidos, sólidos e poeirentos que agravavam a existência. As espécies não se cumprimentavam e nem havia tempo para a cortesia, afinal se é preciso alimentar os rebentos, construir casa, família, se proteger.

O sol indiferente tinha por princípio não discriminar nenhum deles. Pingos espessos como o resultado do néctar das flores abaixavam as asas dos bichos em amarelo e preto. Uma irritação nos olhos atingia o glóbulo e queimava as têmporas do animal dentuço. Fora o mormaço que tornava lento o voo do pardo progenitor: os filhos no isolamento barroco esperavam impunes. A chuva, igualmente justa, molhava todos.

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Válvulas, metais

“Deixe-me cair da janela com confete em meu cabelo” Tom Waits

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Percebo contento. Com o tempo. Convento. Trento. Trema. Corte.

Válvulas. Vagalumes. Lume. Vaga. Cume.

Uma coceira no olho verde-esquerdo. E, no entanto, precisava ler. As letras embaralhavam-se. O sentido evasivo.

– O improviso é uma criação! – bradou. Mas pouco se faz quando o grilo resolve calar-se. Singrou o inefável. Só vem à tona na madrugada.  Congestionado? Estava esvaziando.

As extremidades continham as veias do vírus. Seiva mergulhada em sulcos, agulhas lanosas.

Infâmia perfuração na imanência do genuíno rastro. Metais, Renascença, Barroco, Abstrato. Eriçado, imune massa compacta. Válvulas metálicas. Tonitruante trégua germina a putrefação enverga: Faquir. Estalou o fole.

Estapafúrdia borrifa estrelas marinhas rosas ardis alfinete.

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O Lado B de CAÊ

“pensar que o mundo inteiro não passa do interior da Bahia.” Wally Salomão

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Está certo que o disco não roda mais na vitrola como antigamente. E que muita gente talvez desconheça a expressão “lado b”. Mas para artistas que não respeitam o tempo isto não faz a menor diferença. A fim de reparar o destino e dar-lhe uma bela bordoada com a elegância devida, Mauro Zockratto decidiu que é hora de tirar do obscurantismo obras de um menino que via pela TV nos idos anos 70, berrar a “Alegria, Alegria” sem o menor desconcerto, ainda que atônitos e perplexos ficassem tanto os fãs quanto os críticos. Aí estão no roteiro “Força Estranha”, “Objeto não identificado”, “Muito Romântico”, “Janelas Abertas Número 2”, “Festa Imodesta”, e outros.

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10 Sucessos de Clara Nunes

“Clara como Cousa
Sob um feixe de luz
Num lúcido anteparo.” Hilda Hilst

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Enquanto o coro do samba lhe monta um altar, a sereia do mar de Minas faz evocar a mata, o povo, a prata, o céu do sabiá e as forças da natureza. Clara Nunes acende velas, meche os chocalhos, leva fé para os corações que batucam samba e se banham em manjericão. Espalha alegria da Bahia a Minas, passando pela Portela. Rodando seu vestido longo e branco, Clara segue o ritmo da morena de Angola com sua voz brasileira de profissão esperança. Uma voz que traz o ouro de Minas banhado pelo mar salgado da Bahia e acompanha um sorriso espontâneo coroado por flores e conchas que lhe enfeitam os cabelos. Um brilho mestiço que se encontra nos olhos, no sorriso e no canto místico de Clara Nunes. No folclore da sereia brasileira que iluminou as minas de ouro dos corações marejados.

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