Crítica: “Grupo Corpo” procura-se em “onqotô” e encontra caminho num “TRIZ”

“o céu é agreste de folhas;que dançam
e dançando arrebatam(e arrebatando rodopiam
sobre um rapaz e uma rapariga que se assustam) ” e. e. cummings

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Companhia de dança de Belo Horizonte com maior prestígio o “Grupo Corpo” volta à capital mineira para apresentar dois espetáculos em uma única noite. No primeiro deles, “onqotô”, a presença de uma dramaturgia bem definida e as canções de Caetano Veloso e José Miguel Wisnik são o ponto de ressalva. Bailarinos, iluminação e cenário conduzem a um mundo de estupefação, encantamento e deboche, dependendo do mote, com habilidade e presença física inquestionável. Porém o pensamento exposto não explora na totalidade a força do discurso que pode debandar para certo pedantismo distante, dependendo de como se encara.

A canção que aborda a teoria do “BIG-BANG”, por exemplo, ganharia em ironia em vozes de tom mais provocativo, que contribuiriam para uma personalidade mais incisiva e menos posada, como a de Zeca Baleiro. Por vezes, da maneira como foi colocado, Caetano corre o risco de soar com certo ar de superioridade. Por essa sintonia atravessada o “Grupo Corpo” procura-se em “onqotô”, na força e na beleza da dança, dos passos, das imagens e do som instável, e encontra o caminho num “TRIZ”. Desta vez, com uma dramaturgia solta e menos definida, com um tema mais subjetivo e nada concreto, o grupo explora a beleza na totalidade, em todos os seus contornos, limites e céus.

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Entrevista: O poder do talento e do temperamento de Claudya

“E é o meu canto o fruto dessa espera.
Canto como quem risca a pedra. Te celebro
Na mais alta metamorfose da minha época.
Não cantarei em vão.” Hilda Hilst

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Claudya agora assina o nome com “Y” e apesar do detalhe e da mudança no lugar do “I”, muitos ainda a reconhecem ao menor assobio. Dona de uma das belas e singulares vozes da música popular brasileira, a cantora contabiliza 19 títulos na discografia, sendo que o mais recente álbum foi lançado em 2011, “Senhor do Tempo – Canções Raras de Caetano Veloso”, parceria da gravadora Joia Moderna com a Tratore. “É sempre relevante gravar Caetano, pelo que representa como autor, e para a música popular”. A entrevistada afiança que a ideia partiu do produtor Thiago Marques Luiz e do DJ Zé Pedro. Por hora os que quiserem conferir mais novidades de Claudya terão que ir a seus shows. “Não pretendo gravar por enquanto. Tenho inúmeras músicas autorais, inéditas, mas estou esperando o momento certo”, adianta.

E o momento, para tristeza dos fãs da cantora, não parece estar próximo. Claudya esclarece seus pontos. “Infelizmente a música brasileira está nivelada por baixo. Não temos mais as grandes referências que tínhamos no passado. Vivemos outros tempos”, lamenta e endossa discurso proferido, há poucas semanas, pela também cantora Mônica Salmaso, rebatida pelo mais recente homenageado de Claudya, Caetano Veloso, que diz celebrar “a invasão do litoral pelo sertanejo, baile funk e axé music”, sendo o último seu “favorito”. Mas Claudya apresenta os seus argumentos. “Tempos esses em que se valoriza o descartável, o abominável, o banal, bem diferente dos nossos tempos de ouro em que o artista e a música eram sagrados, em que era preciso ter talento e conteúdo”, sublinha. Para ela, as épocas são diferentes e antagonizam.

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Comédia De Três Ratos

“Muitas vezes vi nos teatros de variedades, antes da minha entrada em cena, um ou outro par de artistas às voltas com os trapézios lá do alto junto ao teto. Eles se arrojavam, balançavam, saltavam, voavam um para os braços do outro, um carregava o outro pelos cabelos presos nos dentes. ‘Isso também é liberdade humana’, eu pensava, ‘movimento soberano’. Ó derrisão da sagrada natureza! Nenhuma construção ficaria em pé diante da gargalhada dos macacos à vista disso.” Franz Kafka

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O Senso comum do escritor
Na noite do acontecido uma coisa azul embargou a imagem. Era coisa posta, nunca existente até aquela noite. Ao menos o que vizinhos relataram. Na noite do acontecido uma coisa verde embargou a paisagem. Era coisa velha, muito assimilada em livros de história. Ao menos o que vizinhos relataram. Eu, dono da casa, não tive a coragem de ir revelá-la. O enfrentamento, para a pouca idade, é coisa que excita, mas para um velho, apenas atormenta, asfixia e mata. Na noite do acontecido uma coisa verde espalhou as margens. E então pude ver dentro do vermelho o azul da noite. Mas eu uma criança velha o dono da casa nunca tive coragem de revelar a imagem, a paisagem, ou mesmo o livro de história, ou mesmo o que os vizinhos falaram. Na noite do acontecido. Na noite do acontecido. Uma coisa. Azul. Embargou. Espalhou. Uma. Verde. Margem. Minha vida é um livro aberto, mas algumas páginas estão queimadas.

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Quem Há De Dizer: Os 100 Anos De Lupicínio Rodrigues Por Mauro Zockratto e Luísa Mitre

“Fui pra debaixo da Lua
E pedi uma inspiração:
– Essa Lua que nas poesias dantes fazia papel
principal, não quero nem pra meu cavalo; e até logo, vou gozar da
vida; vocês poetas são uns intersexuais…
E por de japa ajuntou:
– Tenho uma coleguinha que lida com sonetos de dor
de corno; por que não vai nela?” Manoel de Barros

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A expressão “dor de cotovelo” está tão impregnada no alfabeto de ditados brasileiros que mesmo quem nunca ouviu Lupicínio Rodrigues já a sentiu. Embora alocado na tradição e no aspecto mais conservador da cultura do país, tanto na forma quanto nas letras, Mauro Zockratto e Luísa Mitre oferecem à nova geração a oportunidade de conhecer este senhor gaúcho de bigode, paletó e gravata em “roupagem nova”, para usar outra expressão bem batida. Só que a batida desses três artistas não tem nada de “mais do mesmo”. Lupicínio Rodrigues é aquele que anda entre o “grotesco e o sublime”, como já dito por muitos, de uma maneira cuja adjetivação é impossível, restando-nos recorrer a seu nome e sua assinatura, melhor ainda, ao que ele mesmo criou e disse: dor de cotovelo. Enquanto Mauro Zockratto e Luísa Mitre desfilam em 16 músicas vários ritmos: choro, tango, guarânia, valsa e mais, muito mais.

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O amadurecimento da existência

“Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, nada mais que uma sucessão ordinária de causas e efeitos muito naturais.” Edgar Allan Poe

Miró

“- Você se lembra quando percebeu que a tua vida acaba? Que a morte vem um dia ao teu encontro? Qual a data exata? Conte-nos em detalhes”.

O homem sem nenhum futuro atravessa a rua. Predestinado à morte, como teus pares, foi diagnosticado, há duas semanas, com uma doença rara. Fato este, por si só, altera a conjunção disposta. Um homem condenado à morte difere do homem destituído de futuro. Pois o primeiro elabora planos, metas, fantasias, sonhos. O segundo, por conseqüência, se irá prostrar à gratuita espera do inevitável. No caso exposto, surpreendentemente, houve o contrário.

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