Comédia De Três Ratos

“Muitas vezes vi nos teatros de variedades, antes da minha entrada em cena, um ou outro par de artistas às voltas com os trapézios lá do alto junto ao teto. Eles se arrojavam, balançavam, saltavam, voavam um para os braços do outro, um carregava o outro pelos cabelos presos nos dentes. ‘Isso também é liberdade humana’, eu pensava, ‘movimento soberano’. Ó derrisão da sagrada natureza! Nenhuma construção ficaria em pé diante da gargalhada dos macacos à vista disso.” Franz Kafka

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O Senso comum do escritor
Na noite do acontecido uma coisa azul embargou a imagem. Era coisa posta, nunca existente até aquela noite. Ao menos o que vizinhos relataram. Na noite do acontecido uma coisa verde embargou a paisagem. Era coisa velha, muito assimilada em livros de história. Ao menos o que vizinhos relataram. Eu, dono da casa, não tive a coragem de ir revelá-la. O enfrentamento, para a pouca idade, é coisa que excita, mas para um velho, apenas atormenta, asfixia e mata. Na noite do acontecido uma coisa verde espalhou as margens. E então pude ver dentro do vermelho o azul da noite. Mas eu uma criança velha o dono da casa nunca tive coragem de revelar a imagem, a paisagem, ou mesmo o livro de história, ou mesmo o que os vizinhos falaram. Na noite do acontecido. Na noite do acontecido. Uma coisa. Azul. Embargou. Espalhou. Uma. Verde. Margem. Minha vida é um livro aberto, mas algumas páginas estão queimadas.

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Quem Há De Dizer: Os 100 Anos De Lupicínio Rodrigues Por Mauro Zockratto e Luísa Mitre

“Fui pra debaixo da Lua
E pedi uma inspiração:
– Essa Lua que nas poesias dantes fazia papel
principal, não quero nem pra meu cavalo; e até logo, vou gozar da
vida; vocês poetas são uns intersexuais…
E por de japa ajuntou:
– Tenho uma coleguinha que lida com sonetos de dor
de corno; por que não vai nela?” Manoel de Barros

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A expressão “dor de cotovelo” está tão impregnada no alfabeto de ditados brasileiros que mesmo quem nunca ouviu Lupicínio Rodrigues já a sentiu. Embora alocado na tradição e no aspecto mais conservador da cultura do país, tanto na forma quanto nas letras, Mauro Zockratto e Luísa Mitre oferecem à nova geração a oportunidade de conhecer este senhor gaúcho de bigode, paletó e gravata em “roupagem nova”, para usar outra expressão bem batida. Só que a batida desses três artistas não tem nada de “mais do mesmo”. Lupicínio Rodrigues é aquele que anda entre o “grotesco e o sublime”, como já dito por muitos, de uma maneira cuja adjetivação é impossível, restando-nos recorrer a seu nome e sua assinatura, melhor ainda, ao que ele mesmo criou e disse: dor de cotovelo. Enquanto Mauro Zockratto e Luísa Mitre desfilam em 16 músicas vários ritmos: choro, tango, guarânia, valsa e mais, muito mais.

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O amadurecimento da existência

“Mais tarde, talvez, algum intelecto surgirá para reduzir minhas fantasmagorias a lugares-comuns – alguma inteligência mais calma, mais lógica, muito menos excitável que a minha; e esta perceberá, nas circunstâncias que descrevo com espanto, nada mais que uma sucessão ordinária de causas e efeitos muito naturais.” Edgar Allan Poe

Miró

“- Você se lembra quando percebeu que a tua vida acaba? Que a morte vem um dia ao teu encontro? Qual a data exata? Conte-nos em detalhes”.

O homem sem nenhum futuro atravessa a rua. Predestinado à morte, como teus pares, foi diagnosticado, há duas semanas, com uma doença rara. Fato este, por si só, altera a conjunção disposta. Um homem condenado à morte difere do homem destituído de futuro. Pois o primeiro elabora planos, metas, fantasias, sonhos. O segundo, por conseqüência, se irá prostrar à gratuita espera do inevitável. No caso exposto, surpreendentemente, houve o contrário.

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Teatro e Violino

“O escritor é uma das criaturas mais neuróticas que existem: ele não sabe viver ao vivo, ele vive através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o não-palpável.” Caio Fernando Abreu

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O morto não é o assassino. Já aviso desde o princípio. Embora a dúvida vá perpetuar toda narrativa.

Contribuía para o mistério as doações para a caixinha da igreja. Que padre assassina um devoto?

Lêem Rimbaud avidamente, na juventude (depois abandonam). Colecionava pôsteres de James Dean (nus armários).

Outros vestígios, somem ao valor do feno.

Um retrato rápido e reto. Curto e rastro.

O morto não é o assassino.

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O sol indiferente

“quando as serpentes paguem para ser serpentes
e o sol para ganhar seu pão recorra à greve–
quando o espinho olhe a rosa com suspeita
e o arco-íris faça seguro contra a neve” e. e. cummings

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O zumbido em redor da colmeia mesclava-se ao canto agudo dos filhotes de João de Barro à espera de alguns insetos. A arquitetura atingia o ápice na destruição dos dentes do castor. Das patas eram prisioneiros gravetos, mel e terra. Elementos líquidos, sólidos e poeirentos que agravavam a existência. As espécies não se cumprimentavam e nem havia tempo para a cortesia, afinal se é preciso alimentar os rebentos, construir casa, família, se proteger.

O sol indiferente tinha por princípio não discriminar nenhum deles. Pingos espessos como o resultado do néctar das flores abaixavam as asas dos bichos em amarelo e preto. Uma irritação nos olhos atingia o glóbulo e queimava as têmporas do animal dentuço. Fora o mormaço que tornava lento o voo do pardo progenitor: os filhos no isolamento barroco esperavam impunes. A chuva, igualmente justa, molhava todos.

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