Crítica: Peça “Sarabanda” mantém texto de Bergman e surpreende

“Se assustar as pessoas elas vão pensar, e ficarão mais assustadas.” Ingmar Bergman

Sarabanda

Para quem já conhece a versão original do cineasta sueco Ingmar Bergman não há surpresas na montagem teatral de “Sarabanda” quanto ao conteúdo. O que é compensado em largas medidas na maneira como os diretores Grace Passô e Ricardo Alves Jr. resolvem contar essa história. A relação de personagens que não se conectam torna-se íntima com a plateia desde o início, logo deslocada para o lugar de origem dos atores, que encontram na solidão do espaço amplo das cadeiras uma guarida indiferente a seus anseios e sonhos. Como um Deus que os observa sem que haja clemência. Essa direção combina todos os elementos que tem a seu dispor para criar uma atmosfera pesada, densa, incômoda e surpreendente. A presença da orquestra e o modo como se ergue é um só deleite. Sempre que conclamada a tomar a cena, a música dá ainda mais relevo a sentimentos que se procuram sufocar.

Os acontecimentos seguem no ritmo da hipnose, quando contaminados pela letargia, o espasmo assombra, tira do lugar e desmente a lógica da matemática, pois à repugnância das personagens retribuímos com afeto, compaixão, piedade. Nisto há o trabalho dos atores. Glaucia Vandeveld e Gustavo Werneck destacam-se, irrepreensíveis, numa laboriosa construção delicada, de gestos contidos e graves, como o local, as lembranças que os destruíram e agora somente rodeiam. Marina Viana compõe bem, e segue o desnível de emoções de sua personagem, mas nessa irregularidade de trajetória por vezes confunde-se e vai junto. Algumas cenas de loucura de Romulo Braga soam ingênuas, e chegam a roçar a pieguice apontada pela personagem de Werneck, talvez por isto haja propósito e falte certa gravidade, permanecendo o tom mais histérico. Há ainda a simples presença inquietante e a voz de Nabila Dandara.

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Crítica: Teatro de bonecos do Giramundo leva “Alice” à magia e ao sonho

“Pois, vejam, tantas coisas estranhas tinham acontecido nas últimas horas que Alice começava a pensar que bem poucas coisas eram realmente impossíveis.” Lewis Carroll

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O texto de Lewis Carrol é o maior trunfo de “Alice no País das Maravilhas”. E é interessante notar que tanto no cinema quanto no teatro essa força se mantém. Preservar essa força não significa diminuir o tamanho das adaptações, mas ao contrário, demonstra habilidade em transpor uma linguagem e extrair do clássico o que ele tem de melhor. Em “Aventuras de Alice no País das Maravilhas”, do grupo Giramundo, os diálogos confusos e irônicos propostos pelo autor, com charadas matemáticas que desafiam a lógica e reflexões existenciais a partir da ótica de uma aparentemente ingênua e curiosa criança, estão bem amarrados. Apresentar esse mundo lúdico e irracional não é fácil, e seria praticamente impossível no teatro não fosse a possibilidade do uso de recursos visuais que fazem parte da mais recente tecnologia. Mas o mérito é saber usá-la em favor da história, do que se quer contar, do sentimento que se deseja transmitir, e estes são muitos, da magia à nostalgia, da tristeza ao sonho. Não há firulas gratuitas ou virtuosismo estéril. A estética surreal da obra encontra ressonância nos movimentos de luz, figurino e cenário, e na direção de elipses e cambalhotas. Nesse contexto o personagem que se destaca é o do narrador vivido por Beto Militani – outra escolha acertada da direção – em tese o próprio Carrol, que encontra o ponto certo entre o maneirismo e a precisão, e encanta ao cantar e interpretar seus números.

Desde sempre, “Alice” é uma história das mais controversas. Primeiro por apresentar uma narrativa com protagonista infantil, mas recheada de alusões que cabem, em sua maioria, ao universo adulto, além das deliciosas incorreções, calcadas no uso de substâncias que alteram a percepção dos sentidos. Se tudo começa com simples garrafinhas e bolinhos, ao final apresentam-se cogumelos e uma lagarta que fuma seu narguilé tranquilamente. Portanto não é novidade dizer que o espetáculo muitas vezes atende mais a adultos do que crianças. Por alguns instantes, no entanto, o conteúdo sai um pouco prejudicado. A escolha por uma abertura com falas em inglês, assim como a utilização de palavras do idioma estrangeiro no cenário, nada acrescenta ao público. Já quando colocadas em português fixam ainda mais o brilhante texto de Carrol e provocam uma reflexão mais efetiva. A trilha sonora, composta por John Ulhoa, do grupo Pato Fu, e cantada por Fernanda Takai e outros atores da montagem, apresenta números irregulares, uns mais, outros menos inspirados, principalmente nas letras, que por vezes se contentam em relatar e descrever os fatos. Algo que depõe contra o conjunto de valores estimulados pela leitura do clássico.

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Palavra Cruzada na Rede Minas

“Eu aprendi as coisas mais importantes com pessoas analfabetas.” Olavo Romano

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Olavo Romano, presidente da Academia Mineira de Letras e famoso contador de ‘causos’ nas Minas Gerais é o convidado do programa “Palavra Cruzada”, da Rede Minas. Participam como entrevistadores os jornalistas Leida Reis, Editora-Executiva do Jornal Hoje em Dia, Raphael Vidigal, produtor e redator do programa “A Hora do Coroa”, na Rádio Itatiaia e Eugênio Ferraz, diretor-geral da Imprensa Oficial de Minas Gerais.

Bloco 1 – A linguagem oral, internet e memória

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Crítica: Espetáculo “Prazer”, da Cia Luna Lunera, dá banho de liberdade

“Tornara-se bem livre… Mas isso não significava estar contente.” Clarice Lispector

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A única e mortal função da arte é propor a liberdade. Ou, ao menos, alguma libertação. Nesse sentido a Cia Luna Lunera mais uma vez cumpre o papel, com o espetáculo “Prazer”, textos próprios norteados pela lente simbólica de Clarice Lispector, cujo livro “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres”, foi o ponto inicial dessa travessia. Travessia interior, é verdade, mas exaltada à superfície pelo cenário ao mesmo tempo morfeico e de uma brutal realidade. Dizer que cumpre o papel é pouco. O que a companhia oferece é uma mudança de calor na alma, aquela temperatura que só a verdadeira arte incorre. Embora não busque verdades e esteja mais interessada nos questionamentos do que nas respostas, os que se entregarem à peça estarão inevitavelmente sentenciados.

O dualismo, ou a dualidade, é o caminho escolhido pela companhia para novamente expressar e conclamar à mera tentativa humana, não importando qual seja o resultado. O melhor exemplo são as personagens que, complexas, almejam a uma alegria que talvez esteja afeita a todas as tristezas – e nisto destaca-se a performance de Odilon Esteves, responsável pelo que há de melhor da peça tanto no drama quanto na comédia, capaz de migrar num segundo do riso para o desespero, acompanhado de muito perto pelos colegas de cena Marcelo Souza e Silva, Cláudio Dias e Cláudia Corrêa. No que outros efeitos dramatúrgicos contribuem muito, como as escolhas de iluminação feitas por Juliano Coelho e Felipe Cosse e especialmente a direção, conduzida pelos atores em cena, Isabela Paes (ausente em função de licença maternidade) e Zé Walter Albinati, com o auxílio luxuoso da vídeo arte de Eder Santos. Singela, extrai de objetos cênicos e efeitos visuais o que de mais sensível eles têm a iluminar na consciência e no coração de mulheres e homens. A música e a dança encantam à parte, com brilhos intensos e fugazes. Eis o desejo que durassem mais. Mas o teatro é mera tentativa humana, não importando qual seja o resultado.

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Sucessos das músicas de duplo sentido no Brasil

“A gente pensa numa coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa…e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.” Mario Quintana

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É de um intelectual a constatação de que o amplo entendimento do duplo sentido no Brasil remonta ao período da escravidão. Em outros países essa cultura não seria tão difundida. De acordo com a tese se vivia naquela época sob uma realidade de mentira, em que a hipocrisia era dominante e as pessoas, escravos preponderantemente, tinham que recorrer a artimanhas para se comunicar e expressar com seus companheiros. Já que não podiam falar abertamente, a exclusão da liberdade lhes foi o mote para criar o “duplo sentido”. Como muitas contribuições da cultura negra no país, o duplo sentido se estendeu para as artes, com especial alcance na música, principalmente a nordestina. Se o nome do intelectual se esqueceu, o sentido duplo permanece.

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