Análise: Odete Lara, mas beleza é fundamental

“As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental” Vinicius de Moraes

Odete-Lara

Provavelmente foi antes de cantar com Odete Lara que o poeta Vinicius de Moraes pediu desculpas às feias para vaticinar: “mas beleza é fundamental”. O certo é que ao conhecê-la teve ainda mais certeza do ditado, com o qual caminhava ao lado do uísque (melhor amigo do homem), seu “cachorro engarrafado”. A beleza de Odete Lara foge da banalidade do mero adereço. Quando Odete Lara olha para a câmera, quando a luz sobre ela molda o decote, os quadris e o colo, quando o ventilador ou as puxadas de mãos bagunçam aqueles cabelos loiros, temos a chance de compreender mais sobre a paixão, mais sobre os desejos, a agonia, o êxtase, o desespero, o tédio, o medo e o melodrama. Esse processo que não é consciente, mas sensorial, pode acelerar os batimentos cardíacos, pois a partir do enfeite nos são reveladas dimensões, qualidades, mistérios da existência humana. Quando Odete Lara se oferece para a câmera ela está toda nua para este mundo, com os brincos e as suas entranhas.

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Crítica: musical “Madame Satã” aponta o dedo pra plateia

“O mulato é de fato, e sabe fazer frente
A qualquer valente
Mas não quer saber de fita
Nem com mulher bonita
Sei que ele anda agora aborrecido
Por que vive perseguido” Noel Rosa

Madame-Sata

Toda arte é política, diz a máxima. Mas poucas vezes tão vigorosa quanto em “Madame Satã”. Apresentado pelo “Grupo dos Dez”, o musical com direção de João das Neves e codireção de Rodrigo Jerônimo – que também atua no espetáculo e assina a dramaturgia com Marcos Fábio de Faria – usa a história de João Francisco dos Santos, nome de batismo do protagonista, como ponto de partida para abordar uma série de outras questões. A proximidade com a plateia, quando a ação começa ainda na rua, e a destruição do muro que separa a fantasia da verdade, desmontam a possibilidade de qualquer distanciamento, pois o grupo anuncia de cara estar falando do nosso cotidiano, nosso dia a dia, nossa política mais casual e rasteira, nosso quintal, e aponta o dedo. Tudo é política, toda arte é política, mas esse é o teatro da nossa realidade mais próxima, nossa formação social.

O método escolhido para desenvolver a narrativa é o tempo, estratégia que permite refletir como o passado ainda influencia no nosso presente e também sobre preconceitos que, aparentemente, estariam superados. A peça não se equivoca em provar o contrário. Essa conotação temporal ganha forma na linguagem, que varia, como os intérpretes das personagens, entre o chulo, o incisivo, o poético e o rebuscado. Além de fugir do didatismo cronológico e conferir maior poder de intensidade às cenas, tal mecanismo amplia o poder de síntese dos gestos, capazes de desenvolver aquele arrepio na espinha sobre o qual se irá pensar antes de dormir. O cenário e o figurino de Cícero Miranda e Débora Alves, outras duas fontes de deslumbre, acompanham essas mudanças, assim como os objetos cênicos explorados, em sua simplicidade, com a mesma magia que o especialista manipula o cubo mágico e oferece soluções diversas e inesperadas. Vale dar créditos para a maquiagem e os cabelos cuidadosamente arrumados por Xisto Lopes.

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Crítica: espetáculo de dança “Rasante” enfrenta Kafka com o pensamento

“Tente explicar a alguém a arte do jejum! Não se pode explicá-la para quem não a sente.” Franz Kafka

Rasante-espetaculo

Uma arte que não te emociona não te faz pensar. Por essência. Artistas não necessariamente são intelectuais, antes a característica primordial de sua atividade é desafiar a lógica, o raciocínio exato, a ordem natural e a previsibilidade, por isso grande parte de seu arcabouço deve-se não somente à aquisição de conhecimento como por aquelas palavras de encanto: instinto, intuição, criatividade, imaginação. Propor algo novo e experimental não basta, o princípio básico é emocionar. Logo nos primeiros minutos de “Rasante” o espaço vazio e amplo, de uma imensidão escura, é condensado de forma sublime pela iluminação afiada, precisa, de Wladimir Medeiros. O desafio de invadir o abismo literário de Kafka promete. Essa primeira impressão é completa com a presença dos dançarinos, a luz sobre eles tem ainda mais efeito, mas não é a que fica. Infelizmente, quando a iluminação apenas compõe a cena, ela perde o charme.

O escritor tcheco padece, muitas vezes, de leituras equivocadas a seu respeito. Tornou-se consenso definir o seu universo como algo repetitivo, monótono, tenso, absurdo, sim, mas, sobretudo, incômodo. Parte é verdade. O fato de suas personagens apresentarem indiferença e enfado não significa que a linguagem, concisa e elegante do escritor, repita esse tom cinza e bege com que frequentemente é pintado. Pelo contrário, as sensações provocadas diante de tal reação das criaturas pitorescas de Kafka frequentemente são de espanto, dilaceramento, delírio, êxtase, perturbação, tudo por conta do caráter visceral e vivaz dos textos. O estranhamento e a constante temática da incapacidade em pertencer a uma ordem fazem parte de uma dentre as muitas dimensões da obra. “Rasante” apresenta ótimos momentos, mas também cai na armadilha.

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10 músicas para a falta d’água no Brasil

“Vi que as águas têm mais qualidade para a paz do
que os homens.
Vi que as andorinhas sabem mais das chuvas do que
os cientistas.” Manoel de Barros

musica-agua-brasil

O Brasil, um país de dimensões continentais, sempre atravessou situações inusitadas ao longo de sua história. Enquanto nas regiões norte e nordeste do país o problema da seca era uma constante, no sudeste se repetiam relatos de enchente e alagamentos. Enfim, as soluções encontradas por nossos compositores sempre foram mais inteligentes, divertidas e inspiradas que a dos governantes. Não por acaso frequentam essa galeria Caetano Veloso, Tom Jobim, Raul Seixas, Jorge Benjor, Gordurinha, Tito Madi, Jorge Mautner, Paquito, Romeu Gentil, Sebastião Fonseca, Cícero Nunes, Cassiano, Sílvio Rochael, Paulo Coelho e outros ilustres artistas que ao interpretar também contribuíram para criar estas canções. Já na política… Bem, é bom que chova canivete para uns e chuva de prata para os demais!

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Crítica: Peça “Maxilar Viril”, da Maldita Cia., oferece momento único no teatro

“Na primeira noite, o lagarto lançou-se sobre sua esposa e devorou-a. Quando o sol despontou, no leito nupcial havia apenas um viúvo dormindo, rodeado de ossinhos.” Eduardo Galeano

Maxilar-Viril

Uma das maneiras que o ser humano descobriu para mudar o mundo é através do humor. Mas não necessariamente o riso frouxo é o apropriado para a utopia. Antes, aquele de dentes rangentes, nervoso, que raspam e expelem faísca pode tomar conta melhor desse destino. Para se proteger da morte, para sobreviver à violência e a condições inóspitas, para aturar o breu sem saída e nem resposta da vida, lá está o humor, com sua gargantilha quebrada e sua aparência inofensiva. “Maxilar Viril”, da Maldita Cia. de Investigação Teatral, parte do conto “História do lagarto que tinha o costume de jantar suas mulheres”, e do livro onde está inscrito, a antologia sobre as mulheres da terra natal do autor de “As Veias Abertas da América Latina”, para contar essa história que, por ser o teatro uma arte de ação, se faz muito mais através do tato do que dos diálogos. Isso não significa que a companhia siga claramente os dogmas de sua arte, pelo contrário, a proposta, ousada, é a de reverter e oferecer ângulos, catetos e hipotenusas distintos daqueles da moral e dos bons costumes. Afinal, mesmo o teatro tem suas manias e lugares seguros.

A peça não se restringe ao conto do uruguaio Eduardo Galeano, mas acrescenta a este conteúdo elementos que ao interagir contribuem para ampliar o sentido da fábula. Essa estética absurda encontra suas referências no cinema marginal de Rogério Sganzerla – com a inserção de comerciais satíricos através de uma locução caricaturada que captura o modus operandi da indústria cultural do consumo – e na música de vanguarda de Arrigo Barnabé, baseada na mistura de mundos aparentemente opostos pela aceitação em camadas sociais diferentes, como as histórias em quadrinhos e as composições eruditas atonais. Não por acaso esses pontos cingem tanto na trajetória das influências do grupo quanto na apresentação. A direção sensível e bem cuidada é capaz de apresentar um universo de violência, explorações e situações degradantes com uma formulação mordaz, crítica e circense, sob a lente que penetra no inconsciente do espectador com menos pedantismo, agressividade, e por isso é a mais letal: o humor. As canções escolhidas e executadas por Admar Fernandes, Sérgio Andrade e Christiano de Souza, a irrequieta iluminação de Felipe Cosse e Juliano Coelho e a aspereza do cenário proposto por Igor Godinho, Jônatas Campos e Camila Polatscheck embalsamam a atmosfera com o odor e o calor de uma América pulsante e que até hoje só se foi possível descrever com um único adjetivo: latinidade.

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