Crítica: Espetáculo “A-Corda Que é Real!” delineia limites da intolerância

“Foi de mãe todo o meu tesouro
veio dela todo o meu ganho
mulher sapiência, yabá,
do fogo tirava água
do pranto criava consolo” Conceição Evaristo

Espetáculo é protagonizado por Cyntia Reyder

A arte como exercício político é uma das premissas do espetáculo “A-Corda Que é Real!”, que coloca em cena a dançarina Cyntia Reyder e a instrumentista Gal Duvalle. Não é por acaso que as duas mulheres, negras, exercem tal protagonismo, pois, aqui, opta-se pela narrativa simbólica. E é através de suaves e preciosos simbolismos – qual o corte de uma tesoura – que ambas tecem sua travessia pela origem, para buscar, afinal de contas, esse tesouro da identidade: que se revelará múltipla ainda que reverente à ancestralidade. Inexiste novidade em inferir que é a partir da pergunta “de onde viemos” que começamos a conscientemente nos construir. Mas este movimento se afeta tanto de fora para dentro quanto em seu refluxo, como pondera a apresentação. Nada, logo, está imóvel; o menor gesto realça o todo. A dança se instaura com desenvoltura e sensibilidade pelos climas desejados.

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4 marchinhas para o Carnaval de BH

“Parece que o olho deles
Esticou, ficou maior…
É claro, estão esperando
A volta do carnaval.” Murilo Mendes

Festa na capital mineira reúne vários foliões

Nos últimos anos, além dos bares, BH tornou-se também a capital do Carnaval. Com uma programação ampla e diversificada a cidade passou a receber os tão tradicionais e antigos blocos carnavalescos que, fora remeter à memória, trouxeram suas próprias inovações com misturas inusitadas e, acima de tudo, festeiras. Vale fantasia, vale confete e serpentina, principalmente, vale alegria! Com esse intento selecionamos 4 marchinhas para você pular durante os 4 dias de farra e folia, cada uma delas distintas entre si, para privilegiar, como marca do carnaval de Belo Horizonte, justamente a diversidade. São elas uma marcha-rancho, uma marchinha entre o romance e a ironia, e duas marchinhas políticas, ambas com aquela já habitual pegada de humor. Vamos à festa foliar!

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Mulheres Criando – Vozes no deserto: Quebrando o silêncio da composição feminina

“Ô mãe, me explica, me ensina
Me diz, o que é feminina?
Não é no cabelo ou no dengo ou no olhar
É ser menina por todo lugar
Ô mãe, então me ilumina
Me diz, como é que termina?
Termina na hora de recomeçar
Dobra uma esquina, no mesmo lugar” Joyce

Coletivo Mulheres Criando em BH

A recuperação da identidade feminina na composição musical brasileira foi um caminho árduo: os acessos são sempre muito difíceis devido à documentação histórica concentrar-se nos grandes centros do Brasil, sem contar com a amplitude do assunto.

Portanto, assumo, desde o primeiro instante, que o caminho aqui a ser trilhado é do eixo da afetividade. Contento-me, como amante da música, a fazer uma busca afetiva de algumas compositoras que fizeram história na MPB e abriram caminho para tantas outras.

As dificuldades enfrentadas pelas mulheres nos diversos campos da expressão artística são inúmeras; portanto, faz-se necessário um movimento de resistência e luta como o coletivo Mulheres Criando, que surgiu no ano de 2016, na cidade de Belo Horizonte, idealizado por quatro mulheres do cenário musical da cidade.

Amorina, Bia Nogueira, Deh Mussulini e Flávia Ellen criaram o movimento Mulheres Criando[1] que promove a Mostra Mulheres Criando e o Sonora – Ciclo Internacional de Compositoras[2].  O objetivo da iniciativa é valorizar e promover o espaço da mulher compositora no cenário musical nos níveis local, nacional e internacional.

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Crítica: “Fauna”, do grupo Quatroloscinco, extingue limites pela força da experiência

“Será um gato um tigre mínimo de salão?” Pablo Neruda

Fauna tem atuação de Assis Benevenuto e Marcos Coletta

Todos os elementos caros à cena contemporânea estão presentes em “Fauna”, peça que comemora os 10 anos de atuação do grupo “Quatroloscinco”. É esse um espetáculo moderno, na acepção da palavra, que busca apreender o instante e se abre para o inevitável momento presente. Com pleno domínio e consciência cênica Assis Benevenuto e Marcos Coletta materializam noções como as de performance, improviso e fragmentação que resultam, primeiramente, na extinção de limites inerentes a um certo tipo de teatro, e que recolocam a atividade frente à sua origem: buscar, questionar, investigar e isto requer mais ouvir as respostas do que apresentá-las. Logo, nesta montagem, ninguém está eximido do risco e do desconhecido, nem personagens, que se confundem com os atores, nem o público, que recebe a oportunidade de atuar. Mas não nos enganemos, toda visão de futuro verga o olhar para o começo, e essa consciência, aqui, se faz presente. É possível dizer que Bertolt Brecht e Luigi Pirandello dão suas bênçãos. É o teatro, teatro; que, por isso, mais vida é. E por ser inventada aqui se concebe a partir de uma almejada horizontalidade. Em alguma medida o ciclo que se repete nunca é o mesmo; o novo logo será velho, o velho para sempre existe: como memória, reminiscência ou atavismo. Parábola em que está contido todo o frescor do rio e o convite à transformação.

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Crítica: “A última vida de um gato” presta importante homenagem a Dedé Santana

“Aprendera no Circo, há idos, que a palavra tem
que chegar ao grau de brinquedo
Para ser séria de rir.” Manoel de Barros

Dedé Santana protagoniza "A última vida de um gato"

Associado eternamente ao humorístico “Os Trapalhões”, Dedé Santana não parece se ressentir disto, pelo contrário, demonstra orgulho e gratidão. Artista de circo, antes do estouro nacional fez pequenas participações em filmes como, por exemplo, “A Espiã Que Entrou Numa Fria”, ao lado do intérprete de Zé Bonitinho. Acostumado a servir de “escada” para os companheiros – ou seja, aquele que prepara terreno para que outro se consagre com a piada – na montagem dirigida por Victor Peralta com texto de Alexandre Ribondi é Felipe Cunha quem faz o “garçom” para Dedé marcar os gols. Fica claro desde o início que, mais do que propor um tema, toda a dramaturgia serve, principalmente, para reverenciar e homenagear o protagonista, tornado recentemente “Embaixador do Circo no Brasil”. Aos 80 anos no palco o ator reflete sobre morte, perdas, saudades. A construção do enredo permite que se explicitem os recursos e a qualidade dramática que, ao longo da carreira, lhe foi tantas vezes subestimada. Acerto que torna ainda mais importante este salve. “A última vida de um gato”, como supõe o título, admite que o artista está no passo final da longa caminhada, e a hora é de realizar uma justa retrospectiva.

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