Crítica: “Pai Contra Mãe” exacerba poder de resistência e cultura negra

“Mas então que é o tempo? É a brisa fresca e preguiçosa de outros anos, ou este tufão impetuoso que parece apostar com a eletricidade?” Machado de Assis

Cia. Fusion apresenta espetáculo Pai contra Mãe

Não é por acaso que um espetáculo tão moderno como “Pai Contra Mãe”, da Cia. FUSION de Danças Urbanas, tenha suas raízes fincadas em um conto ambientado no século XIX – por sinal cujo autor, Machado de Assis, negro nascido no Morro do Livramento, pouco frequentou escolas públicas e jamais teve acesso à universidade – já nessa aparente contradição a montagem almeja dizer algo. Aliás, nada é por acaso nesse espetáculo em que cada movimento nunca se descola do texto, que opta por uma linguagem simbólica e não descritiva, artifício que amplia ainda mais o impacto descarregado sobre a plateia. Outra escolha importante é a de não ignorar a presença da plateia, e, novamente, sem referir-se diretamente a ela amarrar um canal de comunicação que permite aos dançarinos encará-la como quem encara a realidade. Aquela realidade que, exposta aos olhos em suas feridas e profundidades, alcança com brilho e vigor as pontas que unem o passado escravocrata aos dias atuais.

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Crítica: “Rosa Choque” é peça-manifesto inteligente e necessária

“Longe daquele leito ameno
Somos um sonho que eles sonham.
Suas pálpebras retêm sombras.
Nada vai lhes acontecer.
Trocamos a pele e nos movemos
Dentro de um outro tempo.” Sylvia Plath

Rosa Choque discute questões de gênero

Se a “brincadeira” que marca o início do espetáculo soa repetida e familiar é porque fala, justamente, do quão atual e sério é o tema tratado. A pertinência do conteúdo é envelopada com fina e, ao mesmo tempo, penetrante camada estética, direcionada para seu redor como uma lâmina. “Rosa Choque” consegue abordar questões repisadas na contemporaneidade sem permitir que sua ânsia e clamor percam o viço e a força. Ao contrário, entre a representação e a performance, a dramaturgia fechada e a interativa, oferece uma peça-manifesto que traz em seu bojo fatores que permitem uma nova reflexão, porque condensada através de concepção estética que é direta e também simbólica. Nisso a direção é sagaz em combinar os elementos que tem a seu dispor para que seja reforçada a fineza textual. Figurino, cenário, luz, projeções e músicas contribuem para adensar as circunstâncias. E ainda surpreendem. Longe de prejudicar a fluência da trama, o experimentalismo acalora as cenas.

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Crítica: Espetáculo “O Deszerto” manifesta ânsia de liberdade

“não insisto na memória
das coisas obsoletas
as cartas os namorados os poemas que escrevo
são filhos bastardos
sem colo
sem tetas” Bruna Kalil Othero

Nova montagem da companhia Mulheres Míticas mantém princípios do grupo

O rigor e a acuidade plástica não estão ali por acaso. “O Deszerto” é espetáculo que se sustenta em fortes bases estéticas, estruturando sua cenografia a partir de uma noção simbólica muito definida. Há consciência acima de tudo. Para chegar aonde pretende a montagem é habilidosa e inventiva ao combinar recursos caros à cena contemporânea. Mantém-se a concepção de que tudo não passa de teatro já no cenário, na minúcia dos figurinos, na presença da iluminação e outros objetos de cena, tais como microfones, rocas de fiar, reproduções no telão, a música e mais tantos detalhes, ao mesmo tempo em que a palavra e a movimentação das personagens procuram eclodir no espectador alguma constatação palpável e imediata. Essa transição é feita de maneira especialmente bem conduzida e desafiadora, propondo que o jogo se estenda até a realidade, com uma direção que, além de não se acomodar, encontra soluções pertinentes àqueles casos. O clamor que se vê no palco toma por medida a transformação compartilhada.

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Crítica: “Migrações de Tennessee” tenta apreender universo do dramaturgo

“Não quero realismo. Quero mágica. Sim, mágica. Tento dar isso às pessoas. Sei que deturpo as coisas! Digo o que deveria ser verdade. Se isso é pecado, castigue-me!” Tennessee Williams

Migrações de Tennessee recria histórias do dramaturgo

Decidir levar ao teatro a vida de um dos mestres no ofício não é tarefa fácil, e requer coragem. “Migrações de Tennessee” procura apreender com reverência o universo do autor de “Um Bonde Chamado Desejo”, “Gata em Teto de Zinco Quente”, “De repente, no último verão” e outros clássicos, ao oferecer em pílulas alguns episódios e personagens que teriam servido de inspiração para o dramaturgo. Um dos inúmeros méritos da obra de Tennessee Williams foi o de infundir a tramas novelescas aspectos que inspecionavam prodigiosamente a alma humana, salpicando de poesia situações sórdidas e trágicas, sem que a fluência fosse prejudicada, justamente do que se ressente a atual montagem. Ao optar por uma dramaturgia de forte teor descritivo, com recorrente utilização do texto na substituição de ações, nem sempre a transição de uma situação a outra alcança a coesão necessária, travando a peça em ocasiões importantes. A música, ao contrário, sempre presente nos textos do homenageado, é quem consegue em alguns instantes amarrar esse laço. E configura, aqui, um acerto. Outra solução que surte efeito, e que está, por sinal, agregada à trilha, é a de recriar o som de objetos no palco, garantindo calor às cenas e preenchendo a atmosfera com uma certa aura dos anos em que o rádio teve o seu esplendor.

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Crítica: Espetáculo de dança “Terreiro” conta histórias de Minas à sua maneira

“Primeiro vêm as flores brancas perfumadas, do rés do chão até a ponta dos galhos. Depois vêm as abelhas. Finalmente estufam-se do tronco, dos galhos, as frutas negras, túrgidas de um leite doce que explode com um estalo dentro da boca quando mordidas. Depois da chuva as jabuticabeiras de bolinhas pretas faíscam ao sol. Jabuticaba é Minas Gerais…” Rubem Alves

Companhia Primeiro Ato lança o espetáculo Terreiro

Com 35 anos de estrada o grupo mineiro de dança “Primeiro Ato” preza pela diversidade em sua composição, valor que contamina toda a concepção do espetáculo “Terreiro”. Se o ponto de partida tem a intenção de explorar e revelar as manifestações populares, e o histórico cultural das Minas Gerais, a montagem não se prende a esse matiz somente, ao contrário. Com uma narrativa que dispensa a descrição, a linguagem metonímica enriquece o desempenho de bailarinos e bailarinas em cena. Os momentos se sucedem e passam pela tensão, o agito, a dolência, a sutileza e até a lascívia. Nem sempre a transição de um estado a outro ocorre de maneira fluida, e a própria direção alterna fases em que é muito bem conduzida com outras em que se perde, provocando alguma confusão na plateia. A tentativa de abarcar um número elevado de assuntos e perspectivas confere certa irregularidade à peça, cujo impacto poderia ser maior caso o cenário fosse menos descarnado.

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