Análise: Sr. Spock, a força de uma marca

“Desculpa, não entendo piadas humanas.” Spock

Spock

Mussum, Seu Madruga e Che Guevara têm algo em comum. Assim como o símbolo do movimento hippie. Todos se tornaram marcas tão fortes que a indústria logo se apropriou e espalhou suas imagens em ímãs, camisas, cervejas. Outro deste clã é o Sr. Spock, personagem da série “Star Trek”, ou “Jornada nas Estrelas”. Você pode nunca ter ouvido falar dele, mas certamente entenderá se alguém lhe fizer o gesto com a mão em riste e os dedos separados, formando um V no meio. Embora não seja exatamente cômico ou revolucionário como os outros, o personagem aspirava a ambas.

Interpretado por Leonard Nimoy na televisão e no cinema, sua contribuição ao mundo do entretenimento é um pouco diversa. A semelhança é que, sustentados por uma enorme popularidade, todos se transformaram em cult, essa expressão para denominar o que era banal e tornou-se elegante. A diferença é que Spock sempre foi ídolo de uma parcela a que hoje se atribui a alcunha nerd. Mas em seu tempo de aparecimento, a década de 1960, o tema da viagem espacial cativava um público mais abrangente. Já com a franquia encerrada, o Vulcano apareceu em capítulos de “The Big Bang Theory”, “Simpsons” e “Futurama”.

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Crítica: espetáculo de dança “Entre o céu e as serras” bule linguagens mineiras

“E diante da boca do inferno; árida planície
e duas montanhas;
Sobre uma delas, uma forma fluente,
e outra
No tornear do outeiro; em aço rijo
O caminho como uma lenta espiral de parafuso,
O ângulo quase imperceptível,
de modo que o circuito parecia árduo de seguir;
E a forma fluente, despojada, Blake,” Ezra Pound

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Os movimentos de luz são uma personagem à parte no espetáculo “Entre o céu e as serras”, e olha que concorrer com os bailarinos da “Companhia de Dança do Palácio das Artes” não é fácil. Estes se amalgamam e dissolvem, sem prejuízo para nenhuma das partes. Há uma relação de cumplicidade, como nos amantes das pinturas do austríaco Egon Schiele, unidos por uma força carnal e divina. A vida é símbolo. Os envolvidos nesse projeto ambicioso de recontar a história da criação das Minas Gerais entendem.

As cores, de terra batida, e as cantilenas místicas evocam a nossa origem barroca, a sensação de pertencimento. Somos puxados pra dentro. Por linhas tortas anunciam rios, baldeações, ouro, sangue. Não fica claro se a mão de Deus ou o contorno dos corpos: passa o movimento; elidem palavras de origem. O tempo atua de maneira direta na narrativa. A linguagem oscila. Da sensualidade. Do escárnio à religião. Da violência. Da tradicional família. Mas, sobretudo, há uma alegria. A dança típica remonta a memórias. Ao sono doce da lembrança.

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Crítica: “O Senhor do Labirinto” persegue Arthur Bispo do Rosário

“A fantasia não é exatamente uma fuga da realidade. Mas um modo de entende-la.” Lloyd Alexander

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Arthur Bispo do Rosário é um dos mais importantes artistas plásticos brasileiros. Apesar de confinado durante cerca de 50 anos na Colônia Juliano Moreira, sua arte, de característica irrestrita, alcançou outras plagas, como a Europa e grande parte do território nacional. Mas essa não era uma preocupação do artista. Diagnosticado como esquizofrênico paranoico, e por isso levado ao hospício, se considerava Cristo e dedicava as obras a Deus. Mantos, bordados, estandartes, navios, coleções de colheres, copos, e vários tipos de artesanato eram construídos a partir de matéria prima colhida no lixo, antes que qualquer preocupação sobre reciclagem existisse no país de maneira institucional ou individualizada. Bispo do Rosário era natural de Japaratuba, interior do Sergipe.

A sua ligação com uma chamada arte conceitual ou de vanguarda parece encontrar pouca recepção em Bispo, sendo muito mais elucubração de analistas. O caráter passional de seus gestos e do comportamento o liga a um movimento de intuição, magia, na beira da inconsciência entre o transe do ser desdobrável na própria linha que o veste e é obra-prima. No que há algo de Hélio Oiticica e Lygia Clark, mas por outros caminhos. Bispo constrói um mundo no qual ele está inserido, do qual olha de dentro, completamente imerso. São os teus objetos que o acolhem, e não há qualquer distanciamento ou a visão habitual do artista diante da obra. Conduzido por anjos, Bispo flutua em seu céu de feitios, com a aura que somente ele e os escolhidos para a salvação eram capazes de enxergar.

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Crítica: “Whiplash – Em Busca da Perfeição” revela poder de destruição do trabalho

“Não tenha medo de erros. O erro não existe.” Miles Davis

Left to right: Miles Teller as Andrew and J.K. Simmons as Fletcher Photo by Daniel McFadden, Courtesy of Sony Pictures Classics

Embora tenha essa ambição, a arte não necessariamente melhora o mundo e a vida das pessoas. É esta a tese do diretor e roteirista de “Whiplash – Em Busca da Perfeição”. Ao retratar o poder de destruição, ganância, inveja, dor, ciúme, vaidade, indiferença, egoísmo, intolerância, sordidez, mágoa e outros adjetivos pouco simpáticos, Damien Chazelle inverte as imagens usualmente atribuídas à prática artística. À medida que o protagonista vivido por Miles Teller cresce no ofício, pior se torna como ser humano. Ambos, intérprete e personagem, se entregam a tal ponto a uma pretensa luz que acabam, como na lenda de Ícaro, queimados pelo sol.

J. K. Simmons, vencedor do Oscar de melhor ator coadjuvante, é o grande atrativo da produção. Ele encarna com complexidade um carrasco cuja função é justamente incentivar e expor a face maníaca de seu pupilo, para retirar às entranhas uma excelência no fazer, na produção, na obra a ser legada, no gênio. Crítica que atende ao modelo de concepção educacional tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, onde busca-se a fortuna e o sucesso individualista, o tal plano de carreira, antes de qualquer preocupação cidadã. Portanto essa relação com o trabalho é também questionada, assim como a coqueluche da vaidade artística: a de que a obra é eterna, logo mais valiosa que a vida humana.

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Crítica: “O Grande Hotel Budapeste” usa humor para a vaidade

“Só goza a vida aquele que viva para viver e se lhe entregue livre e prodigamente. Todo aquele que fixa uma meta apenas a toca. O artista plasma, geralmente, o que não chega a viver.” Stefan Zweig

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É com humor que Wes Anderson tira a importância da pintura, da poesia e do ser humano em “O Grande Hotel Budapeste”. No entanto, esse artifício é usado para a crítica de forma branda, e fartamente como um exercício de linguagem. Ao apresentar as suas personagens através do maneirismo e da superficialidade o diretor não apenas demonstra a própria falta de afeição como impede que nos aproximemos e haja a criação de algum vínculo afetivo.

Protagonistas e coadjuvantes de luxo são esvaziados a tal ponto que o fascínio só ocorre em razão dos efeitos técnicos: em figurinos, cenários e maquiagem extravagantes. O excesso também é medido no ritmo frenético da história, que, embora remonte a tempos idos, está em consonância com a contemporaneidade. Todos esses elementos, porém, garantem à película estilo e afetação, premiando a vaidade do diretor. Era Millôr Fernandes quem dizia de si: “Finalmente um escritor sem estilo”. Esse não é o caso de Wes Anderson.

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