Crítica: musical “Samba, Amor e Malandragem” aposta no som e na caricatura

“Deixa a praça virar um salão, que o malandro é o barão da ralé…” Chico Buarque

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O Brasil é um país prodigioso na caricatura, e como tudo o que é legitimamente popular, ou seja, ascende desta classe numerosa para a mínima, foi logo taxada por nossa pretensiosa “elite intelectual” como uma “arte menor”. Daí a similaridade com o samba, combatido porque associado à malandragem, quando tinha para a classe dominadora sinônimo de bandido. Tais relações políticas também aparecem no espetáculo dirigido por Kalluh Araújo, que atua e dá conta dos figurinos e cenário. Este, aliás, parece inspirado no tradicional “Bar do Lucas”, na capital mineira. Outra constatação que atenta para o fato é a utilização do nome do lendário garçom Olympio, interpretado, de forma cativante, por Luiz Gomide.

Se o princípio da caricatura é exagerar no traço, ou seja, carregar na tinta afim de extrair o riso, pelo caráter prioritariamente satírico que sempre teve, fica claro que atende melhor ao espetáculo nos momentos de humor. Boas risadas também resultam do talento para o improviso, especialmente do protagonista vivido por Jefferson de Medeiros. O batismo escolhido, aliás, leva a outra apropriação, desta vez do famoso Vadinho de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, obra literária de Jorge Amado recontada no cinema, no teatro e na televisão com enorme sucesso. Quando usada para emocionar, no entanto, a caricatura resvala no melodrama e perde o poder de crítica dos costumes. Fica conformada, como se sublinha-se os estereótipos.

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Crítica: “Sombras: Toda Vaca Tem Nome Próprio”, fica no título

“A libertinagem é contraditória: busca simultaneamente a destruição e a ressurreição do outro. Como castigo, o parceiro não ressuscita como corpo e sim como sombra. Tudo o que vê e toca o libertino perde realidade. Sua realidade depende da de sua vítima: só ela é real e ela é só um grito, um gesto que se dissipa. O libertino converte em fantasma tudo o que toca e ele próprio se torna sombra entre sombras.” Octavio Paz

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A explosão e a intensidade que poderia se esperar do espetáculo “Sombras: Toda Vaca Tem Nome Próprio”, fica no título. À parte a entrega sincera do trio de atores, Raquel Dutra, Raquel Lauar e Rodrigo Mangah não escapam à superficialidade. As personagens emergem rasas de um cenário vívido e bem cuidado, mas que, assim como a discreta iluminação, não é capaz de superar o texto recheado de clichês e a direção idem, ao optar pelo didatismo.

Com a cena montada à essa maneira torna-se impossível não soar melodramático, piegas, com um roteiro que falha tanto na tentativa de emocionar quanto na de parecer inventivo, novo. A autoria da peça pertence ao dramaturgo argentino contemporâneo Héctor Oliboni e chega pela primeira vez ao Brasil.

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Crítica: “Se essa rua fosse minha” é indescritível

“Nessa rua, Nessa rua Tem um bosque. Que se chama, Que se Chama solidão. Dentro dele, Dentro dele Mora um anjo. Que roubou, Que roubou Meu coração” Domínio Público

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…Ao me apresentar na porta do teatro, o segurança, Serjão, de terno preto e gravata vermelha, mostra no celular a foto dos caçadores de tesouro. Um disco voador sobre a cabeça dos três deve roubar minha atenção. Macaxeira chegou procurando a igreja. Caçoou da barba ruiva de um senhor a meu lado. O rosto todo sujo não esconde a faísca nos olhos. Duas bolas pretas como a casca de um besouro. Macaxeira pode parecer um desenho, uma mancha, um borrão, mas é real. Sei porque belisca a bunda enquanto tenta se desvencilhar do assédio de Mandioca. Ralha, zanga com o moribundo. Está cansada. E ele está morto. Mas quem sou eu para apontar o dedo e desmanchar as coisas inexistentes? – Lá fora um policial vigia –

Ela imita a si e a outros três tipos bestas, um pior do que o outro. Lembro-me do artista Wolinski, assassinado por terroristas: só é possível uma arte de esquerda. Se ele não disse, disseram que disse. E fica tudo por isso mesmo. Rilke, um alemão, afirma não ser possível dizer nada sobre obras de arte, que carregam o quase “indizível”. E se Macaxeira é uma artista maior do que Shakespeare, quem sou eu para desmenti-la? Quem somos nós, os inexistentes? Na festa de casamento, revira os copos à sua maneira. Num: o arroz. Noutro: está vazio. Tudo mentira. À Igreja. À Indiferença. Ao Governo de Merda. Assassino. Dona Clara (Luz no fim do túnel: que expressão mais batida – como bonita é a luz de um trapo de vida; algo de um manoel de barros?) corta os cabelos puídos. Não podem ser como de Jesus pois estão cheios de piolhos. – Piolhos no cu – AMÉM

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Análise: Quando a música sertaneja tinha Milionário e José Rico

“Nesta longa estrada da vida, vou correndo e não posso parar…” José Rico & Milionário

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Certamente hoje rola mais dinheiro. Mas quando a música sertaneja tinha Milionário e José Rico essa era dotada de uma outra riqueza. Sem nunca negar o caráter popular e populista em muitos momentos, o cenário esbanjava algo que atualmente é quase impossível de achar, nos mais variados segmentos da nossa cultura: autenticidade, pureza. Antes da indústria se apropriar, essas manifestações eclodiam nos recônditos e recôncavos brasileiros sem precisar confundir qualidade com rebuscamento ou simplicidade com o banal.

Agora, pretensos artistas são fabricados desde o início em geladeira, e emergem para o mundo do entretenimento como parte do cordão umbilical deste, com direito a testes laboratoriais e cartilha de comportamento, sem nunca terem expressado uma realidade e um povo de origem. São meros artefatos e artifícios plastificados, vazios, e por isso mesmo serão descartados com a agilidade compulsiva. Como neste vício, o que importa é o acúmulo, independente da substância, até porque estes têm muita embalagem, mas o conteúdo é nulo.

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Análise: Sr. Spock, a força de uma marca

“Desculpa, não entendo piadas humanas.” Spock

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Mussum, Seu Madruga e Che Guevara têm algo em comum. Assim como o símbolo do movimento hippie. Todos se tornaram marcas tão fortes que a indústria logo se apropriou e espalhou suas imagens em ímãs, camisas, cervejas. Outro deste clã é o Sr. Spock, personagem da série “Star Trek”, ou “Jornada nas Estrelas”. Você pode nunca ter ouvido falar dele, mas certamente entenderá se alguém lhe fizer o gesto com a mão em riste e os dedos separados, formando um V no meio. Embora não seja exatamente cômico ou revolucionário como os outros, o personagem aspirava a ambas.

Interpretado por Leonard Nimoy na televisão e no cinema, sua contribuição ao mundo do entretenimento é um pouco diversa. A semelhança é que, sustentados por uma enorme popularidade, todos se transformaram em cult, essa expressão para denominar o que era banal e tornou-se elegante. A diferença é que Spock sempre foi ídolo de uma parcela a que hoje se atribui a alcunha nerd. Mas em seu tempo de aparecimento, a década de 1960, o tema da viagem espacial cativava um público mais abrangente. Já com a franquia encerrada, o Vulcano apareceu em capítulos de “The Big Bang Theory”, “Simpsons” e “Futurama”.

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