A nudez no cinema brasileiro

“e o charme da novidade caía pouco a pouco, como uma vestimenta, deixando ver nua a eterna monotonia da paixão, que sempre tem as mesmas formas e a mesma linguagem.” Gustave Flaubert

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A pornochanchada talvez tenha sido a época de maior popularidade do cinema brasileiro. Certamente não a de maior prestígio. Concorre, no auge, com o sucesso do seu antecessor de quem herdou parte do nome, as chanchadas nacionais. Essa designação atende à conhecida comédia de costumes. A diferença de uma para outra está, justamente, na inserção de um dos elementos responsáveis pelo aumento do público: a nudez. Curioso notar que embora tenha grande parte da cultura de massa influenciada pelo modelo norte-americano, neste ponto o cinema nacional se diferenciou bastante. Não é segredo que a tolerância dos Estados Unidos hollywoodiano com a violência é inversamente proporcional ao sexo.

Neste período de intensa repressão decorrente da ditadura militar instaurada no Brasil, a pornochanchada valeu-se de carta branca para mostrar o sexo. Afinal de contas, as preocupações eram com as mensagens engajadas dos artistas tropicalistas, do cinema novo e do teatro oficina, para focar em alguns exemplos, em temas que exploravam questões mais abrangentes e menos particulares que as ligadas ao amor e ao sexo. Este estilo criou alguns ícones e se apropriou de outros. Por exemplo, Nelson Rodrigues, um dos autores mais adaptados para as telonas, e os atores Paulo César Peréio, Sônia Braga, Darlene Glória, Lucélia Santos. A intensa exploração do corpo, sobretudo das mulheres, nas filmagens, levou algumas a renegarem a participação nesses clássicos.

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Entrevista: Denise Lopes Leal coloca Shakespeare na rua

“Hei de monumentar os insetos!
(Cristo monumentou a Humildade quando beijou os
pés dos seus discípulos.
São Francisco monumentou as aves.
Vieira, os peixes.
Shakespeare, o Amor, A Dúvida, os tolos.
Charles Chaplin monumentou os vagabundos.)
Com esta mania de grandeza:
Hei de monumentar as pobres coisas do chão mijadas de orvalho.” Manoel de Barros

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Não chega a ser coincidência que a primeira e a recente experiência de Denise Lopes Leal no teatro tenha em comum o “bardo inglês”. Talvez destino. Certo é que esse ciclo se inicia na década de 1990. “Lembro que o primeiro espetáculo que assisti e que mexeu comigo foi o ‘Romeu e Julieta’ do Grupo Galpão, em 91, 92”, constata. Tinha por volta de 6 ou 7 anos, e estava na cidade natal, Sabará, onde ainda mora, no interior das Minas Gerais. “Aquilo ali me tocou de um jeito, que eu queria fazer aquilo. Eu queria fazer o que eles faziam. E eles faziam teatro na rua. Além de ter gostado da apresentação, gostei de ser na rua, para todos”, sublinha. Essa característica democrática Denise trouxe para a mais nova montagem. “Se essa rua fosse minha” conversa com o espaço público, e William Shakespeare, claro.

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O sadomasoquismo no cinema

“Ah, as pessoas põem a ideia de pecado em sexo. Mas como é inocente e infantil esse pecado. (…) Sexo é o susto de uma criança.” Clarice Lispector

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A obra surrealista do espanhol naturalizado mexicano Luis Buñuel, e que por anos viveu na França, certamente recebeu influência do artista plástico Salvador Dalí. Mas também atuou de maneira assertiva sobre outros nomes. Por exemplo, o pernambucano Alceu Valença se vale do título de um dos filmes mais controversos de Buñuel para batizar uma popular canção. “La Belle de Jour” do compositor é transportada para a tropical praia de Boa Viagem, enquanto a película de Buñuel passa-se em dois campos distintos. O primeiro diz respeito a um frio interior francês, já o segundo, aparentemente na imaginação da protagonista, não economiza na temperatura. O tema do sadomasoquismo, além da conotação de tabu moral, servia para espezinhar a hipocrisia burguesa, o ideário religioso e a tênue linha entre prazer e dor. Não mudou muito até agora.

Nessa década de 2010, quem puxa a fila do assunto chega pela indústria como best-seller, produção americana com recorde de arrecadação no cinema, pontos que nos permitem notar, de cara, o diferencial entre as duas obras. “50 Tons de Cinza” é também baseada em livro, o que parece ser a única ligação com “A Bela da Tarde”, de Buñuel e que tem Catherine Deneuve no papel principal, tirada das páginas de Joseph Kessel. Além de preocupações estéticas, a intenção provocativa, e o habitual misto entre delírio e realidade, justamente por essas características Buñuel ergue com unhas e dentes a bandeira da reflexão, o que lhe impede concessões à rápida assimilação mercadológica. E. L. James, ao contrário, é um produto de mercado feito para o mercado. Está intrinsicamente ligada a ele. Se Buñuel criticava o moralismo, o folhetim contemporâneo só o reforça.

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O poder da caricatura

“Aliás, cada passo na arte é sobre o fio da navalha, entre o ridículo e o brilhante.” Tom Zé

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Não é raro em manifestações políticas e carnavalescas que o artifício usado seja o de ridicularizar o oponente ou a si, para conquistar território e coração. No Brasil a caricatura ocupa-se principalmente do primeiro caso, embora também seja usada para homenagear personalidades do esporte, da cultura, e outros segmentos da sociedade. Porém, essa depende sempre do senso de humor de quem está do outro lado. Afinal se vale de um recurso nada cortês. Feita de uma observação que muitas vezes pode se considerar óbvia, exagera no traço mais marcante e já nada escondido de sua vítima.

Fellini, no cinema, mas que começou neste campo artístico, talvez seja a principal referência. Se já não bastasse a expressividade dos atores, ainda cria para eles um cenário e clima apropriados à extravagância. Há algo de lúdico na caricatura. Por sua característica hiperbólica pode soar impossível, fantasiosa. O que ao mesmo tempo atrai é esse universo distante da realidade pálida e a percepção de que a vida carrega nas tintas tanto quanto os ilustradores. O recente assassinato dos caricaturistas da revista francesa “Charlie Hebdo” é uma prova do poder de alcance e efeito da prática.

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Artigo: fim do Ballet Jovem Palácio das Artes é tiro no pé

“Naturalmente, existem situações que deixam você sem palavras. Você tem apenas uma noção das coisas. Também as palavras não ajudam muito, elas apenas evocam as coisas. É aí que entra a dança.” Pina Bausch

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O encerramento das atividades do Ballet Jovem Palácio das Artes pertence ao comboio que também determinou o fim da Big Band Palácio das Artes, do Grupo de Choro Palácio das Artes e do Circuito Cultural da Praça da Liberdade. Medidas que desalentam os que acreditaram num governo mais preocupado com a cultura, o primeiro do PT no estado. Se esse foi o motivo do choro de Fernando Pimentel na posse, o certo é que abre-se uma orfandade cultural em Minas Gerais e Belo Horizonte.

Cada um dos projetos encerrados tinha sua importância referendada por casas lotadas, prêmios recebidos, prestígio junto a público e crítica. O Grupo de Choro dava conta de uma velha guarda, da preservação da história, da memória. Já o Ballet Jovem era fundamental na formação de novos bailarinos, muitos bolsistas, e representava o sonho, a esperança, a perspectiva, como na educação de base, não um paliativo para o profissional já maduro, entre virtudes e vícios, mas justamente o que mais se discute no Brasil, em todos os seus problemas amplos de saúde, educação, transporte e segurança: a raiz, o início.

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