Crítica: “O Grande Hotel Budapeste” usa humor para a vaidade

“Só goza a vida aquele que viva para viver e se lhe entregue livre e prodigamente. Todo aquele que fixa uma meta apenas a toca. O artista plasma, geralmente, o que não chega a viver.” Stefan Zweig

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É com humor que Wes Anderson tira a importância da pintura, da poesia e do ser humano em “O Grande Hotel Budapeste”. No entanto, esse artifício é usado para a crítica de forma branda, e fartamente como um exercício de linguagem. Ao apresentar as suas personagens através do maneirismo e da superficialidade o diretor não apenas demonstra a própria falta de afeição como impede que nos aproximemos e haja a criação de algum vínculo afetivo.

Protagonistas e coadjuvantes de luxo são esvaziados a tal ponto que o fascínio só ocorre em razão dos efeitos técnicos: em figurinos, cenários e maquiagem extravagantes. O excesso também é medido no ritmo frenético da história, que, embora remonte a tempos idos, está em consonância com a contemporaneidade. Todos esses elementos, porém, garantem à película estilo e afetação, premiando a vaidade do diretor. Era Millôr Fernandes quem dizia de si: “Finalmente um escritor sem estilo”. Esse não é o caso de Wes Anderson.

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Crítica: Vencedor do Oscar, “Birdman” coloca em cheque papel da arte

“uma coisa é uma coisa, não o que é dito dela” Alejandro Iñárritu

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Diferente de outras atividades a prática da arte não é funcional. O que oferece são sentimentos, sensações, mensagens, nada de físico ou material, embora se utilize de plataformas; o produto da arte segue flutuante, impalpável: uma música, um poema ou um filme não se podem tocar. São os mesmos algozes e ases de qualquer comunicação, afinal outro fundamento da arte é a expressão de algo que, submerso, almeja colocar a cabeça para fora, ou outro membro ainda menos mostrável. No entanto há diferenças entre passar uma informação e, a partir dela, interferir no panorama. Alejandro Iñárritu, diretor e roteirista de “Birdman”, faz um corte bastante nítido entre o que considera arte e o que relega ao plano do entretenimento, da cultura de massa. Ainda que se possa alegar que essa visão pertence ao sistema, Iñárritu não deixa de compra-la. Mas tem como mérito contestar as duas, embora não consiga escapar de um dos caprichos da profissão. Ao caricaturar e usar de forma saborosa o humor negro atinge em cheio o primeiro alvo: o de um universo banal, grosseiro, tosco, onde os mais “geniais artistas” não passam de pessoas patéticas, egoístas e egocêntricas.

Mas é quando tece a discussão mais complexa que o diretor mexicano acaba enovelado na própria teia. Emerge uma certa pretensão, de quem fala “de cima para baixo”, presente, inclusive, no subtítulo da película, “A Inesperada Virtude da Ignorância”, tudo porque é difícil desmontar essa estrutura hierárquica. O que é fruto, paradigmaticamente, desta consciência e inquietação existencial pouco comum na população quando observada em massa. Ao rejeitar a maçante narrativa super-realista do modelo cultural norte-americano em vigência e propor uma construção lúdica, surreal em alguns momentos, Alejandro sai do campo da contestação e parte para a proposta, ou seja, busca caminhos novos para essa arte da qual ele mesmo ainda tem dúvidas se serve. E se é para servir, assim como a existência humana, a um número maior de indivíduos, como solucionar a conta que nunca fecha entre uma cultura onde somente uma parcela restrita da sociedade se interessa e tem acesso e outra que atrai milhões? Qual das duas pode ser mais irrelevante? Daí considera-se o problema da hierarquia, pois é preciso que pessoas influentes e, em tese, mais abastadas em termos de consciência, sempre transmitam essa mensagem, ou essas sensações, de cima para baixo.

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Crítica: história de Stephen Hawking se impõe em “A Teoria de Tudo”

“uma única, simples e elegante equação que explique todo o funcionamento do universo.” Stephen Hawking

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Algumas pessoas entram para os almanaques ao superar os limites físicos; outras, da mente. Embora haja vozes discordantes dessa divisão de camadas, o certo é que o astrofísico (denominação que atende a todas as atividades que pratica) Stephen Hawking é um fenômeno pouco comparável, por ter se destacado nas duas frentes. “A Teoria de Tudo”, baseado no livro da sua ex-mulher, carrega todos os elementos e vícios do cinemão americano, apesar de produzido no Reino Unido, mas tem por mérito deixar mais perguntas do que respostas, direção oposta ao modelo afirmativo de produção cultural hollywoodiana. Isso porque a história de Stephen se impõe, sendo daqueles casos onde a existência consegue ser um milhão de vezes mais inacreditável, comovente e fantástica do que a fantasia. O próprio título é uma incógnita, afinal a fórmula matemática que explicaria o universo por completo jamais foi encontrada por Hawking.

Pelo fato de ser uma biografia não surpreende que os desafios da carreira e do amor caminhem em paralelo, situação bem explorada por James Marsh. A direção une esses pontos e extrai deles sequências capazes de alterar em alta-voltagem os sentimentos do espectador. Não são raras as passagens a permitir aquele nó na garganta, o arrepio, e até o choro incontido. A tendência a tratar o drama de forma melódica e a romantizada típica estão lá, mas não atrapalham em nada a apreciação do filme, ou seja, não chegam ao ponto do enfado nem do enjoo, muito ao contrário. Do ponto de vista narrativo a opção é clássica. O primordial é a ação, o desenvolvimento dos fatos, a sucessão de acontecimentos, o aspecto externo, porém esse tempo cronológico sofre um movimento de retroação a partir dos pensamentos do físico, que sugere, em dado momento da trama, essa possibilidade. Afinal poderíamos voltar no tempo? O modo como o interesse de Stephen é incorporado amplia ainda mais esse impacto. O tom da película varia, como aquela que é imitada passa pelo humor, o drama e o lirismo.

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Análise: Odete Lara, mas beleza é fundamental

“As feias que me desculpem, mas beleza é fundamental” Vinicius de Moraes

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Provavelmente foi antes de cantar com Odete Lara que o poeta Vinicius de Moraes pediu desculpas às feias para vaticinar: “mas beleza é fundamental”. O certo é que ao conhecê-la teve ainda mais certeza do ditado, com o qual caminhava ao lado do uísque (melhor amigo do homem), seu “cachorro engarrafado”. A beleza de Odete Lara foge da banalidade do mero adereço. Quando Odete Lara olha para a câmera, quando a luz sobre ela molda o decote, os quadris e o colo, quando o ventilador ou as puxadas de mãos bagunçam aqueles cabelos loiros, temos a chance de compreender mais sobre a paixão, mais sobre os desejos, a agonia, o êxtase, o desespero, o tédio, o medo e o melodrama. Esse processo que não é consciente, mas sensorial, pode acelerar os batimentos cardíacos, pois a partir do enfeite nos são reveladas dimensões, qualidades, mistérios da existência humana. Quando Odete Lara se oferece para a câmera ela está toda nua para este mundo, com os brincos e as suas entranhas.

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Crítica: musical “Madame Satã” aponta o dedo pra plateia

“O mulato é de fato, e sabe fazer frente
A qualquer valente
Mas não quer saber de fita
Nem com mulher bonita
Sei que ele anda agora aborrecido
Por que vive perseguido” Noel Rosa

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Toda arte é política, diz a máxima. Mas poucas vezes tão vigorosa quanto em “Madame Satã”. Apresentado pelo “Grupo dos Dez”, o musical com direção de João das Neves e codireção de Rodrigo Jerônimo – que também atua no espetáculo e assina a dramaturgia com Marcos Fábio de Faria – usa a história de João Francisco dos Santos, nome de batismo do protagonista, como ponto de partida para abordar uma série de outras questões. A proximidade com a plateia, quando a ação começa ainda na rua, e a destruição do muro que separa a fantasia da verdade, desmontam a possibilidade de qualquer distanciamento, pois o grupo anuncia de cara estar falando do nosso cotidiano, nosso dia a dia, nossa política mais casual e rasteira, nosso quintal, e aponta o dedo. Tudo é política, toda arte é política, mas esse é o teatro da nossa realidade mais próxima, nossa formação social.

O método escolhido para desenvolver a narrativa é o tempo, estratégia que permite refletir como o passado ainda influencia no nosso presente e também sobre preconceitos que, aparentemente, estariam superados. A peça não se equivoca em provar o contrário. Essa conotação temporal ganha forma na linguagem, que varia, como os intérpretes das personagens, entre o chulo, o incisivo, o poético e o rebuscado. Além de fugir do didatismo cronológico e conferir maior poder de intensidade às cenas, tal mecanismo amplia o poder de síntese dos gestos, capazes de desenvolver aquele arrepio na espinha sobre o qual se irá pensar antes de dormir. O cenário e o figurino de Cícero Miranda e Débora Alves, outras duas fontes de deslumbre, acompanham essas mudanças, assim como os objetos cênicos explorados, em sua simplicidade, com a mesma magia que o especialista manipula o cubo mágico e oferece soluções diversas e inesperadas. Vale dar créditos para a maquiagem e os cabelos cuidadosamente arrumados por Xisto Lopes.

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