Defesa da pichação como obra de arte

“Quando você faz as pazes com as autoridades, você se torna uma delas.” Jim Morrison

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Toda manifestação artística carrega em seu bojo uma ética, um conjunto de valores, do qual você pode concordar ou discordar. O importante é analisar, portanto, sua estética e conteúdo. A pichação data do período da Antiguidade, quando os muros de Pompéia eram utilizados para receber poesia, política e xingamentos chulos. Essa característica se manteve. Um dos principais elementos da pichação é a insubordinação. Esse caráter provocativo, rebelde, subversivo, transgressor, está associado, em primeira instância, à sua ilegalidade, ao combate por parte de instituições de autoridade, e à quebra da barreira entre o particular e o público, outra discussão tão comum na atual sociedade quanto a não assunção explícita de autoria, decorrente de sua desautorização. Se não fosse proibida, não teria tanto valor artístico a pichação.

ROMPIMENTO DA ORDEM
A pichação não pede licença, não faz acordos ou concessões, ela invade. O roqueiro Jim Morrison afirma numa das mais célebres frases: “Sempre me fascinaram os ideais que pregam a rebelião contra a autoridade. As noções de rompimento e desestabilização da ordem também me seduzem”. O que contém essa atitude de irreverência, além de sua óbvia irresponsabilidade, é o questionamento de um modelo de imposição de regras, fôrmas, limites, e, sobretudo, verdades. O contexto em que a pichação se insere, e, em última análise, os locais em que aparece, vão ao encontro da noção contemporânea e moderna de arte, de que esta não deve estar num pedestal, além da vida, mas no meio de suas entranhas, no olho do furacão, imersa, na rua, no muro, no lixo.

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10 músicas do Brasil para o “panelaço”

“Eu não quero você nem pra pegar na alça do meu caixão…” Panela e Garrafão

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Quando a presidente eleita com 51% dos votos discursava no “Dia da Mulher”, panelas foram ouvidas nos bairros mais ricos das capitais. O intento era de provocar bramido, ruído, incômodo, e sobretudo protestar contra as palavras de Dilma Rousseff. Essa anedota, como se constata, aconteceu no Brasil. Não obstante o conteúdo pouco consistente e em muita medida falacioso e ridículo da presidenta, há de se notar uma característica primária e preconceituosa no ato de alguns “paneleiros”. Por isso chamamos à roda aqueles que souberam protestar, acariciar ou bramir com maior elegância. Através da música brasileira. Panela cheia, vazia, velha ou do diabo, todas com a garantia e o selo da arte.

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Crítica: grupo de dança “Sarandeiros” investe na descrição do folclore

“Voltei, Recife, foi a saudade que me trouxe pelo braço,
Eu quero ver novamente ‘Vassouras’ na rua abafando,
Tomar umas e outras e cair no passo” Alceu Valença

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É com alegria e gestos expansivos que o grupo mineiro de dança “Sarandeiros” apresenta o espetáculo “Coup de Coeur”. O título, alusivo ao prêmio de destaque do público recebido no Canadá em 2014, denota um certo olhar estrangeiro, o que justifica a escolha pela caricatura, outra arte tão popular quanto o folclore. Figurinos e cenário, além da presença de um apresentador, seguem nesse estilo. Em tradução literal, trata-se de “Golpe no Coração”.

Não por acaso as canções e a coreografia recebem a levada do axé, ritmo nascido na Bahia que, ao se apropriar de manifestações típicas e históricas da música e da religião, como o samba de roda, o merengue, o maracatu e o candomblé, entre muitos outros, criou uma designação pop, largamente assimilada pela indústria, e por isso bastante alicerçada numa noção mercantil. Os números são executados por uma banda ao vivo.

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Crítica: musical “Samba, Amor e Malandragem” aposta no som e na caricatura

“Deixa a praça virar um salão, que o malandro é o barão da ralé…” Chico Buarque

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O Brasil é um país prodigioso na caricatura, e como tudo o que é legitimamente popular, ou seja, ascende desta classe numerosa para a mínima, foi logo taxada por nossa pretensiosa “elite intelectual” como uma “arte menor”. Daí a similaridade com o samba, combatido porque associado à malandragem, quando tinha para a classe dominadora sinônimo de bandido. Tais relações políticas também aparecem no espetáculo dirigido por Kalluh Araújo, que atua e dá conta dos figurinos e cenário. Este, aliás, parece inspirado no tradicional “Bar do Lucas”, na capital mineira. Outra constatação que atenta para o fato é a utilização do nome do lendário garçom Olympio, interpretado, de forma cativante, por Luiz Gomide.

Se o princípio da caricatura é exagerar no traço, ou seja, carregar na tinta afim de extrair o riso, pelo caráter prioritariamente satírico que sempre teve, fica claro que atende melhor ao espetáculo nos momentos de humor. Boas risadas também resultam do talento para o improviso, especialmente do protagonista vivido por Jefferson de Medeiros. O batismo escolhido, aliás, leva a outra apropriação, desta vez do famoso Vadinho de “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, obra literária de Jorge Amado recontada no cinema, no teatro e na televisão com enorme sucesso. Quando usada para emocionar, no entanto, a caricatura resvala no melodrama e perde o poder de crítica dos costumes. Fica conformada, como se sublinha-se os estereótipos.

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Crítica: “Sombras: Toda Vaca Tem Nome Próprio”, fica no título

“A libertinagem é contraditória: busca simultaneamente a destruição e a ressurreição do outro. Como castigo, o parceiro não ressuscita como corpo e sim como sombra. Tudo o que vê e toca o libertino perde realidade. Sua realidade depende da de sua vítima: só ela é real e ela é só um grito, um gesto que se dissipa. O libertino converte em fantasma tudo o que toca e ele próprio se torna sombra entre sombras.” Octavio Paz

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A explosão e a intensidade que poderia se esperar do espetáculo “Sombras: Toda Vaca Tem Nome Próprio”, fica no título. À parte a entrega sincera do trio de atores, Raquel Dutra, Raquel Lauar e Rodrigo Mangah não escapam à superficialidade. As personagens emergem rasas de um cenário vívido e bem cuidado, mas que, assim como a discreta iluminação, não é capaz de superar o texto recheado de clichês e a direção idem, ao optar pelo didatismo.

Com a cena montada à essa maneira torna-se impossível não soar melodramático, piegas, com um roteiro que falha tanto na tentativa de emocionar quanto na de parecer inventivo, novo. A autoria da peça pertence ao dramaturgo argentino contemporâneo Héctor Oliboni e chega pela primeira vez ao Brasil.

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