Entrevista: Denise Lopes Leal coloca Shakespeare na rua

“Hei de monumentar os insetos!
(Cristo monumentou a Humildade quando beijou os
pés dos seus discípulos.
São Francisco monumentou as aves.
Vieira, os peixes.
Shakespeare, o Amor, A Dúvida, os tolos.
Charles Chaplin monumentou os vagabundos.)
Com esta mania de grandeza:
Hei de monumentar as pobres coisas do chão mijadas de orvalho.” Manoel de Barros

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Não chega a ser coincidência que a primeira e a recente experiência de Denise Lopes Leal no teatro tenha em comum o “bardo inglês”. Talvez destino. Certo é que esse ciclo se inicia na década de 1990. “Lembro que o primeiro espetáculo que assisti e que mexeu comigo foi o ‘Romeu e Julieta’ do Grupo Galpão, em 91, 92”, constata. Tinha por volta de 6 ou 7 anos, e estava na cidade natal, Sabará, onde ainda mora, no interior das Minas Gerais. “Aquilo ali me tocou de um jeito, que eu queria fazer aquilo. Eu queria fazer o que eles faziam. E eles faziam teatro na rua. Além de ter gostado da apresentação, gostei de ser na rua, para todos”, sublinha. Essa característica democrática Denise trouxe para a mais nova montagem. “Se essa rua fosse minha” conversa com o espaço público, e William Shakespeare, claro.

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O sadomasoquismo no cinema

“Ah, as pessoas põem a ideia de pecado em sexo. Mas como é inocente e infantil esse pecado. (…) Sexo é o susto de uma criança.” Clarice Lispector

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A obra surrealista do espanhol naturalizado mexicano Luis Buñuel, e que por anos viveu na França, certamente recebeu influência do artista plástico Salvador Dalí. Mas também atuou de maneira assertiva sobre outros nomes. Por exemplo, o pernambucano Alceu Valença se vale do título de um dos filmes mais controversos de Buñuel para batizar uma popular canção. “La Belle de Jour” do compositor é transportada para a tropical praia de Boa Viagem, enquanto a película de Buñuel passa-se em dois campos distintos. O primeiro diz respeito a um frio interior francês, já o segundo, aparentemente na imaginação da protagonista, não economiza na temperatura. O tema do sadomasoquismo, além da conotação de tabu moral, servia para espezinhar a hipocrisia burguesa, o ideário religioso e a tênue linha entre prazer e dor. Não mudou muito até agora.

Nessa década de 2010, quem puxa a fila do assunto chega pela indústria como best-seller, produção americana com recorde de arrecadação no cinema, pontos que nos permitem notar, de cara, o diferencial entre as duas obras. “50 Tons de Cinza” é também baseada em livro, o que parece ser a única ligação com “A Bela da Tarde”, de Buñuel e que tem Catherine Deneuve no papel principal, tirada das páginas de Joseph Kessel. Além de preocupações estéticas, a intenção provocativa, e o habitual misto entre delírio e realidade, justamente por essas características Buñuel ergue com unhas e dentes a bandeira da reflexão, o que lhe impede concessões à rápida assimilação mercadológica. E. L. James, ao contrário, é um produto de mercado feito para o mercado. Está intrinsicamente ligada a ele. Se Buñuel criticava o moralismo, o folhetim contemporâneo só o reforça.

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O poder da caricatura

“Aliás, cada passo na arte é sobre o fio da navalha, entre o ridículo e o brilhante.” Tom Zé

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Não é raro em manifestações políticas e carnavalescas que o artifício usado seja o de ridicularizar o oponente ou a si, para conquistar território e coração. No Brasil a caricatura ocupa-se principalmente do primeiro caso, embora também seja usada para homenagear personalidades do esporte, da cultura, e outros segmentos da sociedade. Porém, essa depende sempre do senso de humor de quem está do outro lado. Afinal se vale de um recurso nada cortês. Feita de uma observação que muitas vezes pode se considerar óbvia, exagera no traço mais marcante e já nada escondido de sua vítima.

Fellini, no cinema, mas que começou neste campo artístico, talvez seja a principal referência. Se já não bastasse a expressividade dos atores, ainda cria para eles um cenário e clima apropriados à extravagância. Há algo de lúdico na caricatura. Por sua característica hiperbólica pode soar impossível, fantasiosa. O que ao mesmo tempo atrai é esse universo distante da realidade pálida e a percepção de que a vida carrega nas tintas tanto quanto os ilustradores. O recente assassinato dos caricaturistas da revista francesa “Charlie Hebdo” é uma prova do poder de alcance e efeito da prática.

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Artigo: fim do Ballet Jovem Palácio das Artes é tiro no pé

“Naturalmente, existem situações que deixam você sem palavras. Você tem apenas uma noção das coisas. Também as palavras não ajudam muito, elas apenas evocam as coisas. É aí que entra a dança.” Pina Bausch

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O encerramento das atividades do Ballet Jovem Palácio das Artes pertence ao comboio que também determinou o fim da Big Band Palácio das Artes, do Grupo de Choro Palácio das Artes e do Circuito Cultural da Praça da Liberdade. Medidas que desalentam os que acreditaram num governo mais preocupado com a cultura, o primeiro do PT no estado. Se esse foi o motivo do choro de Fernando Pimentel na posse, o certo é que abre-se uma orfandade cultural em Minas Gerais e Belo Horizonte.

Cada um dos projetos encerrados tinha sua importância referendada por casas lotadas, prêmios recebidos, prestígio junto a público e crítica. O Grupo de Choro dava conta de uma velha guarda, da preservação da história, da memória. Já o Ballet Jovem era fundamental na formação de novos bailarinos, muitos bolsistas, e representava o sonho, a esperança, a perspectiva, como na educação de base, não um paliativo para o profissional já maduro, entre virtudes e vícios, mas justamente o que mais se discute no Brasil, em todos os seus problemas amplos de saúde, educação, transporte e segurança: a raiz, o início.

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5 músicas do Brasil contra a corrupção

“Tira tudo do estofo da casaca,
Faz milagres com a caixa de surpresa;
Se um garfo lá se foi ou falta a faca,
E achas que te enganaste ao pôr a mesa –
O talher que ainda há pouco evaporou-se
Surge num fosso como se osso fosse!” T. S. Eliot

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Dizem que a profissão mais antiga do mundo é a da prostituta. Há controvérsias. Mas o crime, certamente, é o de corrupção. Desde que o homem se entende por gente o espécime se apropria do dinheiro alheio para interesses particulares. Ou, quando não havia moeda, da galinha mesmo. E a vida da população e do próximo escorre pelo ralo. Não sendo um problema só do Brasil, mas bem difundido por essas terras desde que portugueses “trocavam” ouro por espelho. Claro, pode-se alegar que constam nos autos crimes mais antigos, como a matança, a miséria, a contravenção. Mas talvez todos esses tenham por base a corrupção. Afinal outra categoria bem antiga é a dos banqueiros, como a burguesia, a Igreja, a monarquia, os senhores feudais e de engenho, enfim, as instituições de poder. Por fim, não deixa de ser interessante notar a associação de corruptos com aquela profissão mais antiga. Quando chamados de “filhos da puta” indubitavelmente comete-se uma injustiça com as profissionais do sexo, que só enganam para dar prazer. É o orgasmo solidário, não egoísta.

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