Análise: Barbara Heliodora foi de crítica a celebridade

“Seria perpetuamente encenado
No coração humano –
Único teatro que, sabidamente,
O proprietário não consegue fechar.” Emily Dickinson

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A principal contribuição de Barbara Heliodora ao teatro foi a clareza, a transparência e a honestidade com que emitiu suas análises. Outra característica fundamental diferencia duas atividades em que é tênue a linha entre a ofensa e a fidelidade ao ofício: a elegância; paradigma presente também no humor. O que explica por que era tão difícil se defender de Barbara, tanto para o bem quanto para o mal. Passar pelo crivo de Heliodora correspondia a ter uma música cantada por Elis Regina na década de 1970. Daí a importância da crítica.

Foi a partir do fim do regime militar que Barbara ganhou espaço de destaque na imprensa, ao lado de outro nome não menos particular e controverso, Paulo Francis. Versada em Shakespeare, ampla conhecedora da obra do “bardo inglês”, tradutora e ensaísta, Heliodora soube fazer a transição, com relativa tranquilidade, entre o mundo acadêmico e literato e a realidade dos jornais diários. A agudeza das palavras incomodou, foi motivo de reclame e insinuações de preferência aos amigos.

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O punhal das formigas

“Deixai entrar a Morte, a iluminada
A quem vem para mim, pra me levar
Abri todas as portas par em par
Como asas a bater em revoada” Antero de Quental

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O homem é o único animal capaz de tirar a própria vida. Capaz, portanto, de vencer o instinto de sobrevivência, ou de sair perdendo. Ao enfiar o pé no acelerador do carro contra o poste a faca encerra-se ainda mais na barriga cheia de remédios, e o nó já está pronto. Duas filhas. Por que trazê-las para este mundo? A vida e sua espera resignada dos fatos não suficientemente afasta a consciência da morte.

Ao entrar no veículo tinha dinheiro suficiente para se mudar de cidade. Abandonar a terra natal que lhe dera aspereza e sal e ir em busca destes colírios no mar. No interior de uma praia onde a areia desenha seu rosto com conchas ocas, lambaris que se escodem, pedrinhas e a bege cor do desânimo. Numa destas praias em que o herói de Albert Camus cometeu o assassinato por conta do sol e esperou paciente por uma sentença de morte. Quando a explosão ocorre a vida ainda pulsa em suas veias.

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Político não carrega tijolo no país das reformas

“Ele é pequeno e quieto, a cor é preta
Desde a ponta da orelha ao rabo esguio;
Esgueira-se na mais estreita greta
E se equilibra no mais frágil fio.” T. S. Eliot

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A reforma política vem sendo discutida no Brasil desde o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso, em 1995. Durante esses 15 anos que se passaram as mudanças ocorridas foram a implantação do direito à reeleição e a fidelidade partidária, que determina que o mandato pertence ao partido e não ao político.

As duas mudanças são interessantes, na medida em que o Brasil é um país onde tradicionalmente vota-se com maior freqüência na figura do que em quem a segura. Não é de hoje que a estrela de Lula brilha mais que a do PT.

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Até que um quarto nos separe

“Sobrevivi à morte sucessiva das coisas do teu quarto.
Vi pela primeira vez a inútil simetria dos tapetes e o azul diluído
Azul-branco das paredes. E uma fissura de um verde anoitecido
Na moldura de prata. E nela o meu retrato adolescente e gasto.” Hilda Hilst

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Às 7 da manhã em ponto, o despertador em formato de relógio nas cores azul e cinza, com ponteiros costumeiramente pretos, toca o som de uma sirene aguda como a da ambulância quando em desespero para passar pelos carros na avenida tentando salvar mais uma vida.

Em tédio e desespero, o advogado Carlos Alberto desperta ao som de seu despertador-relógio e ouve na rádio o “Cotidiano” de Chico Buarque a lhe conformar.

Rádio preto velho da marca Phillips, maltratado pelo tempo e pelas vezes em que foi derrubado do criado-mudo castanho ao lado de sua cama, sem querer, num impulso de insônia e medo.

Rádio que ficou ligado a noite inteira, pois Carlos Alberto só dorme com ele acordado, e agora o desliga pois já está de pé.

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10 anos da morte de um dos maiores atores do cinema

“Foi então que vi Brando. Um metro e oitenta, cabeça grande como a do maior Buda, lá estava ele, em cores de gibi, (…) com um sorriso sereno no rosto que brilhava na chuva e na luz da rua. Uma divindade, sem dúvida; mais do que isso, porém, realmente. Apenas um rapaz sentado num monte de açúcar.” Truman Capote

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No dia primeiro de julho de 2004, há 10 anos, morria Marlon Brando, um dos maiores atores da história do cinema. Mesmo quem nunca viu nenhum filme protagonizado pelo astro certamente já ouviu falar nesse nome. Associado tanto a sucessos quanto a tragédias particulares, Marlon Brando foi descrito por muitos como “um artista brilhante” e “uma pessoa detestável”. Ele mesmo se assumia péssimo pai. Alguns fatos reforçam a tese de Brando. O filho foi preso por matar o cunhado e a filha suicidou.

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