Crítica: “Cheiro de Manga” saúda o corpo como a um estado de espírito

“A pele trans (luz). Si/dá. A carne é mansa. E den
tro o hirto centro: semen/te do existir e hi
fen do prazer. Não vi?/E é fruta. E ou é fruto
do inconsciente? Abrupto/estar, não-ser-aí?
Ou é silêncio ou gri/to? Ou é sumo ou suma
teológica? Uma/fruta? Fruto-em-si?” Heládio Brito

Laura de Castro protagoniza Cheiro de Manga

“Cheiro de Manga” nasce após uma experiência de Laura de Castro na África. Ou é possível conceber que o espetáculo é gerido durante a viagem, e que a sua permanência no corpo de Laura o trazem agora a outras plagas. Pois uma das capacidades do teatro é a de alargar tempo e espaço; outro fato pelo qual seria redutor restringir a atração à dança. “Cheiro de Manga” tem por princípio propor muito mais do que movimentos coreografados, embora a partir deles dispare suas noções de estupor e identidade – mas eles, aqui, são ponto de partida (disparador) e não chegada, não conclusão, longe de aspirar a algo retilíneo e determinado. Os elementos cênicos como o cenário, o figurino, a trilha sonora e as pontuais inflexões da luz corroboram na direção da mesma frequência de despojamento e encontro propostos pelo corpo de Laura. Ele respira, escuta, fala, cheira, toca, e expande suas sensações interiores para fora. Assim, a experiência ocorre na acepção da palavra, de assimilação no gesto, no ato, na sensibilidade da pele que através de caminhos encontra alma.

Veja mais

Crítica: “Danação” transforma em beleza um fardo da existência humana

“Lembra minhas palavras uma a uma. Eu poderei voltar. Te amo, e parto, eu incorpóreo, triunfante, morto.’” Ana Cristina Cesar

Eduardo Moreira protagoniza Danação

A escrita de Raysner de Paula chama a atenção há algum tempo nos palcos de Belo Horizonte. Em “Danação” os méritos são comprovados. No espetáculo que leva pela primeira vez à cena Eduardo Moreira em atuação solo não é pouca coisa que o texto se assanhe como maior destaque. Cumpre dizer que o ator do Grupo Galpão colabora incisivamente para que as palavras tenham carne, na pele de mais de uma personagem que a intérprete invoca com ritmo e perspicácia. A história tem toda uma cadência própria, que tanto texto quanto Eduardo conseguem levar de tal modo a que as ilações tornem-se, de fato, palpáveis. Há, aqui, duas importantes premissas da narrativa, ambas relativas às noções de tempo e espaço. A primeira é a de carregar o teatro à sua origem, campo da imaginação, fértil, em que se amplia um caminho por sua característica simbólica, invocando a transformação através do gesto abstrato. Ou seja, ainda que o ocorrido seja inventado, é esta invenção que também tem a capacidade de modificar o real. De outra, a cena contemporânea do teatro assimila a nítida preocupação em aproximar-se, na busca de uma experiência mais coletiva e compartilhada, revolvendo o terreno da passividade para posições proativas, denotando-se como política independente do tema tratado. Neste caso há um atravessamento de tons e gêneros que costuram a unidade.

Veja mais

Crítica: “Ser – Experimento Para Tempos Sombrios” pinta retrato poético e incisivo da realidade

“Por alguns momentos, apenas alguns momentos, é como se houvesse assim uma espécie de esperança, de possibilidade de esperança. Seja o que for, você está quase alcançando. O teu braço está tão estendido que essa parte que junta com o corpo parece que vai rasgar. E as pontas dos dedos podem sentir assim quase como. Um formigamento, uma dormência. A vibração dessa coisa que está lá, por enquanto ainda longe deles, prestes a ser tocada.” Caio Fernando Abreu

Rafael Bacelar protagoniza "Ser - Experimento para Tempos Sombrios"

Nascida no seio da tradicional família mineira em Belo Horizonte, já no século XXI do ano de 2013, a TODA DESEO é um coletivo que prima, desde o início, por ampliar as possibilidades. Com uma temática ligada ao universo trans, mas, sobretudo, atenta às questões de identidade, a companhia acumulou em pouco tempo trajetória relevante e necessária, principalmente por conseguir conjugar suas inquietações de conteúdo sem desabalar a estética, a forma, e, principalmente, a poética de seu trabalho. “Ser – Experimento Para Tempos Sombrios” leva o coletivo a um novo campo de exploração, embora ainda lá estejam seus pilares: a performance, a experimentação e o remodelamento de tabus em totens. A TODA DESEO quer transformar as consciências, e para isto não dispensa a linguagem do corpo e a emoção com a qual se nos atravessa a arte. Desta vez, porém, há diferenças fundamentais, qualidade inerente àqueles que partem na busca incessante da mudança e, além, da modificação. Para começar promove habilidosa fusão entre sandice, somente aparente, e realidade, a fim de estender, expandir e alargar possibilidades de corpo e alma. Ao passear por gêneros a montagem expressa as múltiplas sensações da vida.

Veja mais

Crítica: Espetáculo “Nuvens de Barro” assimila poeta ao absurdo

“As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis:
Elas desejam ser olhadas de azul –
Que nem uma criança que você olha de ave.” Manoel de Barros

Nuvens de Barro se inspira em textos de Manoel de Barros

É desafiador transpor uma obra rica imageticamente para outro campo de imagem. No caso: quando a imagem contida numa palavra passa a estar contida num corpo. Esse ambicioso projeto foi encarado, por exemplo, por dois cineastas, o austríaco Michael Haneke e o britânico Alfred Hitchcock, que adaptaram textos de Kafka para a tela grande. O espetáculo “Nuvens de Barro”, encenado pela Cia. de Dança Palácio das Artes, escolhe a obra de Manoel de Barros para a empreitada. Se fatores importantes da poesia do pantaneiro aparecem na montagem o cerne lhes escapa. Lá estão a liberdade, a brincadeira, a audácia e a proximidade, porém, aquele que pretendeu “monumentar as miudezas” transformava o absurdo em simplicidade, já a peça o compreende ao contrário. Com uma linguagem pura, infantil, quase arcaica, Barros eliminava excessos formais para que a exuberância resplandecesse ali, na palavra, na imagem. Ao expor os versos do poeta em sua condição literal, o espetáculo retira da obra o vigor e a contundência que residem, justamente, em sua alma figurada. Para Manoel, absurdo era o mundo prático, e não o avesso. Nos melhores momentos os gestos e elementos cênicos alcançam a singeleza.

Veja mais

Crítica: “Não existe vida no talvez” dispara gestos a favor da coragem

“Humildade de amar só por amar. Sem prêmio
que não seja o de dar cada dia o seu dia
breve, talvez: límpido, às vezes; sempre isento.
Ir dando a vida até morrer.” Cecília Meireles

"Não existe vida no talvez" é espetáculo de dança contemporânea

O título autoexplicativo não inibe a criatividade da Cia. Cena Alternativa. No espetáculo “Não existe vida no talvez”, levado à cena no Espaço Cultural Meia Ponta, a prerrogativa serve como disparador para que, através da dança contemporânea, os artistas desfilem sobre o tablado gestos nutridos de beleza e, sobretudo, necessidade. Há uma fina noção estética a conduzir todo o espetáculo que jamais se perde ou retrai-se, sendo responsável por marcar as movimentações sem com isto amarrá-las, vista tanto na escolha da trilha, a se acoplar com suavidade aos passos, quanto em outras opções fundamentais, preponderantemente figurino e cenário. Tanto isto que um se fundirá ao outro. Essa organicidade é observada junto a todos os elementos que compõe a dramaturgia, fato admirável quando se trata de tema tão vasto. Vastidão esta que não se ignora, mas, ao contrário, ganha amplitude pelos textos da dança.

Veja mais