Crítica: “Acredita na peruca” reitera talento de Luiz Fernando Guimarães

“Um romance não devia começar nunca a partir dos sentimentos. Um romance devia começar com ciência e terminar com um acordo.” Oscar Wilde

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Não raro um jogador de futebol confirma sua habilidade em campos esburacados. Essa imagem, reflexo do Brasil, useiro em tornar a dificuldade mola para seu trampolim, aplica-se à estreia de Luiz Fernando Guimarães na televisão paga. “Acredita na peruca”, ideia original do protagonista, reitera o talento de Luiz Fernando pelas faltas que apresenta.

Dirigido e roteirizado pela dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho, especialistas em musicais bem recebidos pelo público, o programa oferece texto calcado no humor físico, onde as trocas de farpas entre as personagens raramente ultrapassam os trocadilhos, as colocações que sublinham estereótipos ou as alusões a fatores da moda, numa tentativa de modernidade pouco eficaz. Nesse contexto, Eucir de Souza, um bom intérprete, fica vendido.

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5 cantadas de Jô Soares

“A prova de que a natureza é sábia é que ela nem sabia que iríamos usar óculos e notem como colocou nossas orelhas.” Jô Soares

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O múltiplo Jô Soares é um artista que transita por cinema, televisão, literatura, pintura, música e teatro, sempre guiado por um fio único, mas não restrito: humor. Como ele próprio explica, através da metáfora, são os cinco dedos de uma mão. Sua faceta musical, no entanto, não é tão conhecida, especialmente como cantor. No programa de entrevistas que apresenta há décadas, invariavelmente Jô Soares dá as famosas “canjas” ao lado do “Sexteto”, com quem até já gravou disco. Mas antes disso Jô Soares já apresentava as suas “cantadas”, é o que vamos revelar através de 5 músicas.

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Brasil, o país dos ditados

“tudo dito,
nada feito,
fito e deito” Paulo Leminski

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A origem para a profusão de ditados entre os brasileiros tem uma explicação convincente no processo de colonização do país. Como os escravos não podiam se comunicar abertamente, estabeleceram uma linguagem codificada. A semelhança com a poesia, nesse aspecto, dá a medida exata do por que uma nação mestiça, influenciada pela cultura de portugueses, italianos, holandeses, japoneses, africanos, e outros mais, concebeu expressão tão rica e singular. A música é mais uma prova desse estilo. Por vias do samba, da marchinha, do rock e da vanguarda, e através das décadas de 30, 40, 50, 60, 70, 80, 90, até os dias atuais, o Brasil se estabeleceu como o país dos ditados. Tão populares que alguns já mereceram, inclusive, as páginas de dicionários.

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Crítica: Exposição “Kandinsky – Tudo Começa Num Ponto” faz coro à possibilidade

“Deves abrir os teus braços mais amplamente.
Mais amplamente. Mais amplamente.
E deves cobrir o teu rosto com um lenço vermelho. (…)
Não é bom que justamente não vejas a opacidade –
é exactamente
na opacidade que isso reside.
É também assim que tudo começa………………………………..
com um………………………………………………………………………
rebentamento………………………………………………………………” Kandinsky

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A questão com a arte abstrata em Kandinsky, pioneiro e teórico do estilo, tem a ver com investigar os limites da origem e finitude da existência. Em outras palavras, ao eliminar tudo o que determine uma noção clássica de compreensão a partir de uma pintura figurativa, o artista não apenas vai em direção ao sentimento, mas, mais do que isso, ao sentido amplo e incompreensível do universo, o que é, em suma, percebido como “essência”.

A exposição realizada pelo Centro Cultural Banco do Brasil em Belo Horizonte, com obras do Museu Russo de São Petersburgo, outros do interior do país e coleções particulares, capta esse movimento ao recorrer à influência do folclore, dos contos de fada, das artes populares, primitivas, e, sobretudo, da tradição no desenvolvimento da carreira de Kandinsky, onde estaria a tal “origem”. Outro fator determinante para o coro buscado pelo pintor russo está na música, por seu caráter impalpável, desconexo da “realidade”, só encontrada em tal formato na sonoplastia. Como na música, há algo de geométrico em Kandinsky que colide com o subjetivo. O que seja talvez a vida.

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Centenários 2015: Édith Piaf, o canto que aplacou as dores

“Canto o que vejo mas antes
Canto o que a alma deseja.” Hilda Hilst

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Édith Piaf talvez seja uma das primeiras cantoras a encarnar o ideal do mártir. Não é heresia detectar a sua influência no blues de Billie Holiday, na dor-de-cotovelo de Maysa e na música negra de Amy Winehouse. Com uma vida turbulenta e agitada, essas quatro personalidades jamais dissociaram a música de sua existência. Essa certamente é a maior contribuição de Piaf. A entrega total ao ofício proporcionou interpretações e “Hinos de Amor” que não guardam qualquer semelhança com uma atuação técnica ou cerebral. O coração de Piaf está em todas as letras que canta. Por isso até hoje pulsam suas canções.

Natural de Paris, filha de uma cantora de cabaré e um acrobata de rua, a pequenina Édith foi deixada aos supostos cuidados da avó materna, que não se importava com a criança. Mais tarde, levada de volta para a mãe morou em um bordel, onde se amigou das prostitutas que a salvaram de uma cegueira aos 8 anos, com orações no túmulo de Santa Teresinha, de quem Édith se tornou devota por toda a vida. Passou a acompanhar o pai nas ruas de Paris aos 14, onde cantou pela primeira vez em público, mas cansada da exploração e dos maus tratos, também o abandonou. Mãe aos 18, Édith perdeu sua única filha, Marcelle, fruto do relacionamento com o entregador Louis Dupont, que cuidou da criança até a morte, aos 2 anos, vítima de meningite.

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