Drama De Três Gatunos

“Mirangéli e Kalbinôni têm pendor invulgar para a cascata.
Troféu de Gatos-Gatunos – em trombadinhas, medalha de prata.
Vivem nas ruas do bairro. De ocupação irregular, dispersa.
São gente afável que adora passar no guarda amigo uma conversa.” T. S. Eliot

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Plano de Carreira
Na lógica monetária deste gatuno, a motivação primordial era construir um plano de carreira para enriquecer. Donde se conclui que para um médico o princípio do “cuidar do outro” estava eliminado, assim como para o advogado a “ajuda ao próximo e o senso de justiça”, tal qual para o engenheiro a determinação em “melhorar a vida dos seres e da cidade”. As outras profissões, numa perspectiva clássica, jamais seriam citadas, mas por mais descabido que possa parecer, algumas se intrometeram na lógica monetária. Donde se constatou a presença de gatunos no mundo das celebridades, também interessados no plano de carreira para enriquecer, e até, pasmem, em ofícios que seriam irrelevantes do ponto de vista monetário. Mas acreditem o plano de carreira para enriquecer chegou a estes patamares, pondo a utopia e o idealismo no chinelo. São todos independentes, trabalham para si mesmos.

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Dos prazeres mananciais

“mas, tão logo essa palavra ‘amor’ lhe ocorreu, ela a rejeitou, pensando novamente quão obscura era a mente, com suas pouquíssimas palavras para todas essas percepções surpreendentes, essas alternâncias de prazer e dor.” Virginia Woolf

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Sentia um prazer quase manancial quando descia as escadas para demitir alguém. No entanto, passam pessoas e não é ela. Através da vitrine a espera torna-se a cada segundo mais insuportável, como a pressão que a corda vai exercendo no pescoço do enforcado à medida que o corpo cede. Imbuído de minha coragem e destituição fui até o jornal pedir meu emprego de volta. Sentia um prazer quase manancial quando descia as escadas para demitir alguém. Era preciso lembrar dessa frase para não ser surpreendido. E não esquecer que na maioria das vezes a presa, seja ela qual for, leva a melhor sobre a onça.

Sentia um prazer quase manancial quando descia as escadas para demitir alguém. No entanto, passam pessoas e não é ela. As pessoas na redação são observadas por mim como manequins em vitrines. Os rostos impávidos, lúbricos, de quem detém o emprego como o vazio da morte, o segredo da morte, e recusa-se a dividi-lo, não quer dividi-lo com mais ninguém. Sem dúvida, sentem-se como deuses por possuírem um emprego e não terem que passar pela humilhação do pedido, que requer coragem e a lembrança de que, seja qual for a presa, na maioria das vezes é ela quem leva a melhor sobre a onça.

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O viço

“Quando pensou que aquela grade era a grade da velhice, sentiu por ela uma piedade imensa, e essa piedade tornou-a mais próxima (essa mulher outrora deslumbrante, que o fazia perder a fala) e teve vontade de conversar com ela como um amigo conversa com uma amiga, longamente, na atmosfera azulada da resignação melancólica.” Milan Kundera

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Dissera que perdera o viço. Diziam isto. Que sua pele de pera agora transformara-se em maracujá. E que suas cicatrizes jaziam bem mais expostas e visíveis. Disseram-lhe. Dizia. Ao caminhar lentamente, pela praia ou ao redor dos sonhos, segurando o próprio travesseiro como que para aprisionar os sonhos, suas pernas sentiam o pendor dos anos. O pendor de horas, de meses, de dias, passados sob a maresia da praia, sob os mares, sob os sonhos. Estava imersa. Dissera. Diziam.

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Saudades de Audrey Hepburn

“O viveiro dos felinos de um zoológico tem um cheiro desagradável, um ar carregado de sono, macilento com hálito velho e desejos mortos. Em uma comédia com um quê de melancolia, a desgrenhada leoa reclinada em sua jaula parece uma rainha do cinema mudo” Truman Capote

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Lia uma frase numa vitrine, quando de repente notei o outro lado. Quem é ela? Uma pessoa do outro lado tão reconhecível e tão distante. Pensei tê-la visto, talvez, em algum filme, mas logo essa impressão se embaçou, afinal não era possível que o cinema atracasse na minha realidade. Num espasmo, tive a nítida impressão que essa pessoa era eu, e que, apesar de se tratar de uma mulher madura, alguns gestos coincidiam com os meus preferidos, naquela parte da tarde, mais especificamente naquela vitrine, do outro lado.

Quem é ela? Pensei. Uma pessoa do outro lado. Tão reconhecível e tão distante. Refratei qualquer possibilidade de delírio, espécie de fuga da realidade associada à loucura, e não ao consentimento consciente, ativo, determinado. O delírio, naquele caso, poderia ser que a minha imagem refletisse naquela vitrine algo que a alma teimava em constatar, e que o corpo escondia. Sob a forma marrom e aristocrática do corpo, estaria uma alma petulante, que por acidente escolhera aqueles membros para seu refúgio.

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