Crítica: nova temporada de “Pé na Cova” combate preconceitos com didática

“nem vida nem morte é a resposta.
E do homem buscando o bem,
fazendo mal. (…)
onde andavam os mortos
e os vivos eram feitos de cartão.” Ezra Pound

pe-na-cova

Miguel Falabella conta que a inspiração para a série “Pé na Cova” veio com a experiência da própria velhice. Com o envelhecimento do ator e criador, a série chega também à sua quarta temporada em 2015, que será a penúltima. A última está prevista para 2016. Não muito diferente das anteriores, a atração busca combater preconceitos, mas resvala invariavelmente no didatismo.

Falta para os diálogos uma construção que torne as frases mais naturais e menos ensaiadas, ou seja, a alusão pode ser feita ao esporte ou ao humor clássico, de esquetes e quadros, quando o dito “escada” prepara a jogada para que o artilheiro “corte”. O problema nesse tipo de humor é a previsibilidade e a noção de distanciamento com o espectador, como se ele assistisse a uma aula.

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Crise dos refugiados: 5 músicas para incentivar a tolerância à diversidade

“pariso
novayorquizo
moscoviteio
sem sair do bar

só não levanto e vou embora
porque tem países
que eu nem chego a madagascar” Paulo Leminski

Chico-Buarque

Com o mundo em convulsão devido às guerras no Oriente Médio, abastecidas pelas grandes potências, tais como Estados Unidos e o continente europeu e que, segundo relatórios da Anistia Internacional, continuam enviando armas para a região, onde há grande quantidade de petróleo, põe-se novamente à prova questões sobre a solidariedade humana e o modo como se comportar no mundo. Mais do que isto, a tolerância à diversidade é um tema que desafia a espécie e seus pares. A crise dos refugiados alimenta migrações em todo o planeta. Cinco músicas compostas por pessoas das mais diferentes tribos demonstram como é possível ter um ideal comum, propor a união e enriquecer a existência a partir da congregação; de culturas, instrumentos e vozes.

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5 perguntas nunca respondidas por Paulo César Peréio

“Gênio não é eterno. Depois que ele morre, jamais nascerá outra coisa igual. O medíocre a gente nem percebe que morreu. E, já no dia seguinte à morte de um medíocre, aparece um igualzinho no lugar. A mediocridade, então, é eterna! O gênio, não: todos os gênios são perecíveis”. Paulo César Peréio

pereio

Ás vésperas de completar 75 anos, o ator Paulo César Peréio, um dos mais relevantes do cinema brasileiro, consentiu em receber e responder às perguntas de uma entrevista. No entanto, um tempo depois, com a habitual letargia que o caracteriza no período recente, desistiu, sob a alegação de não manobrar bem a tecnologia, ao descobrir que a distância entre São Paulo e Belo Horizonte nos separava e que não seria possível um encontro à vera, tête-à-tête, pessoalmente.

Como já havia sido feito, e com enorme sucesso, com a artista Elke Maravilha, resolvemos imaginar o que Peréio responderia a essas perguntas que chegaram até ele, mas nunca retornaram a mim. Com larga experiência no cinema, no teatro, e na televisão, o próprio intérprete diz se considerar “uma personalidade performática, um ator essencial, nunca fui um ator característico, aliás, eu não tenho nenhum caráter”, considera com o tom debochado que, quase sempre, empregou a suas personagens. Sem mais delongas, vamos ao exercício lúdico e fantasioso.

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Sobre um artista e sua gaiola

“O corpo era uma gaiola e, dentro dela, uma coisa qualquer olhava, escutava, tinha medo, pensava e se espantava; essa coisa qualquer, essa sobra que subsistia, deduzido o corpo, era a alma.” Milan Kundera

Um dia, colocaram o artista em sua gaiola. A gaiola, portanto, era a forma, e o artista, o conteúdo. Ele que sumira aos poucos na capa invisível da Literatura agora podia ser visto dentro da gaiola. Quem o colocara ali, ninguém sabia, mas isso pouco importava. O imprescindível era ver o artista dentro da gaiola. A gaiola tinha uma forma de pelagem, e o artista, pelugem. A gaiola apresentava certa falta de acabamento, mas o artista, apesar de carente de massa, era interminável, ininterrupto. O humor da gaiola era vário. Ás vezes chamava de ânsia, outras de ânimo, mas a maior parte das vezes era uma animosidade. Já o artista vivia em estado de espírito, em estado bruto.

Com o passar do tempo, alguns observadores perceberam, e esses eram ourives, é bom que se aponte; que dentro dos olhos do artista havia ouro. Não era um ouro comum, era um ouro como uma súbita gargalhada, outros associaram este ouro a uma flor de laranja, e o professor de gramática o definiu sem igual através da palavra “letargia”. Havia uma condição no ouro dentro do olho do artista da gaiola. Era uma condição animalesca, é verdade, daquelas querendo rimar cousa com louça, um certo tom Portugal que fazia troça com certas bobeiras e parodiava canções, caso daquela em que se diz d’essa “estranha mania de ter fé na vida”. Passado esse prólogo vamos falar do artista em sua gaiola. Ele vivia em estado de espírito, em estado bruto, com uma mola no olho.

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Análise: 80 anos de Plínio Marcos, uma voz mordaz e audaciosa

“Já que a voz do injustiçado não é ouvida eles têm direito à cólera.” Plínio Marcos

pliniomarcos

Reza a lenda que Nelson Rodrigues não salvava quase ninguém no teatro brasileiro, na categoria dos dramaturgos, e mais do que para não cair ele mesmo num cenário unânime, elegera uma sonora exceção. “Esse Plínio Marcos é bom”, palavras que teriam sido ditas pelo autodenominado “anjo pornográfico”. Outra especulação curiosa sobre Plínio Marcos é a de ser o autor mais censurado do país. A essas benesses, respondia sem falsa modéstia, e com o senso de humor afiadíssimo: “Fiz por merecer. Nunca fiz nada para agradar ninguém”, e, quando finalmente o Brasil se livrou do regime militar, nem por isso deixou de marginalizar Plínio Marcos, que arrematava, “a nova censura é a mídia”.

O teatro de Plínio Marcos, suporte que abrigou com maior relevância e destaque suas produções artísticas, é tão característico quanto o daquele que o elogiou. Tanto Nelson Rodrigues quanto Plínio colocam o dedo em feridas sociais, nos quadros de imobilidade e no que o comportamento humano instaurou de artificial e hipócrita em suas construções civilizatórias. Em Plínio Marcos toda a afetação é extirpada e o que resta é o retrato humano em sua crueza e hostilidade, contra o qual grita com uma voz mordaz e audaciosa. O autor aponta sua lente para os excluídos, fala “da gente que sempre pega a pior, que come da banda podre, que mora na beira do rio e quase se afoga toda vez que chove e que só berra da geral sem nunca influir no resultado”.

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