Análise: 95 anos de Lygia Clark, proclamadora da liberdade

“Este verso, apenas um arabesco
em torno do elemento essencial – inatingível.
Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,
e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento, (…)
feita de depurações e depurações, a delicada modelagem
de um cristal de mil suspiros límpidos e frígidos: não mais
que um arabesco, apenas um arabesco
abraça as coisas, sem reduzi-las.” Carlos Drummond de Andrade

lygia-clark

Se há uma fábula que diz que Deus distribuiu as artes em categorias e presenteou cada uma com uma função sensorial, não é menos verdade que Lygia Clark foi uma pioneira, no Brasil, ao explicitar que para as artes plásticas coubera o tato. Natural de Belo Horizonte, Lygia causou impacto, primeiro, ao extrapolar os limites da moldura, para em seguida propor que se entrasse em contato com o objeto, resultado da experiência humana, de maneira entregue e larga. Lygia foi a antítese do artista “isolado”, em seus paradoxos e problemas elementares, ao contrário, reuniu as linhas da vida e arte numa só, sem medo de expor e convidar seus pares a compartilharem os mistérios da intimidade.

Sua influência em vários campos, portanto, parece natural. Além de adentrar ela própria o universo da terapia, Lygia serviu de inspiração a escritores, cineastas, dramaturgos, músicos e outros artistas plásticos. Experimentava-se no período uma ebulição cultural típica do momento de modernização do país. Movimentos como o Neoconcretismo e a body art passaram por Clark. Outro escritor mineiro, natural de Formiga, se viu embebido pelas propostas de Lygia. Ao escrever seu romance “Stella Manhatan”, Silviano Santiago criou personagens que se desdobravam em gêneros, como as esculturas “Bichos” da artista, que recusava esse rótulo e preferia ser chamada de “propositora”.

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Análise: atriz Yoná Magalhães deu grandeza à discrição

“Tão meigo e discreto é seu tom;
Mas quer sua voz ralhe ou agrade,
Tem riqueza e profundidade:
É o seu segredo e sedução.” Charles Baudelaire

Yona-Magalhaes

Yoná Magalhães nunca foi atriz de arroubos sonoros e gestos eloqüentes. Primeira “mocinha” de novelas da Rede Globo se consolidou, antes, pelo recato e comedimento buscados por João Cabral de Melo Neto no poema e Stendhal na filosofia. Com suas atuações, principalmente em novelas, Yoná deu grandeza à discrição, quer desempenhasse papel de protagonista ou de coadjuvante.

De tal maneira que seus silêncios falavam mais que os assaltos de giros e piruetas de alguns colegas. Yoná não passava despercebida, talvez pela gentileza e precisão com que era capaz de pontuar as falas e transições. Antítese do modelo histérico e impositivo de outras mulheres foi convidada para posar nua na revista Playboy aos 50 anos de idade, comprovando o charme ainda em dia.

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Análise: 40 anos sem Nick Drake, mais perguntas do que respostas

“diante desta noite carregada de sinais e de estrelas eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo.” Albert Camus

Nick-Drake

Cinco meses depois de completar 26 anos Nick Drake pôs fim à própria vida. Quarenta anos depois o músico que nasceu na Birmânia mas se criou em Londres possui obra que continua interessando a um nicho específico de admiradores, tanto pela característica instrumental quanto por seu discurso. O virtuosismo no violão e suas letras ditas “outonais” podem ser condensadas, no entanto, numa única palavra. “Melancolia” regeu a vida de Nick dentro e fora dos palcos. Aliás, quando se apresentava para plateias era com os olhos fechados, cabelos volumosos lhe tapando o rosto e cabeça baixa. O que reafirma essa qualidade intrínseca aos grandes artistas: vida e obra numa só.

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Análise: Luiz Carlos Miele combinou arte e entretenimento

“Nunca confie no artista. Confie na história.” D. H. Lawrence

Miele-analise

Para Miele é difícil dizer o que vinha primeiro, arte ou entretenimento. Com um jeito despretensioso, descolado e bonachão, parecia priorizar, sempre, a brincadeira, a diversão da plateia e, principalmente, a sua. Foi daquelas personagens em que não se distingue com clareza onde começa o ator e termina o músico, sempre reinterpretando a própria imagem. Miele esteve presente nos acontecimentos mais relevantes da música popular brasileira, em especial no período de explosão da bossa nova e da classificada MPB quando, como fiel escudeiro do jornalista e letrista Ronaldo Bôscoli, criou programas de televisão e apresentações em teatro para Elis Regina, Wilson Simonal, Pery Ribeiro, Leny Andrade e outros nomes de peso. Mas Miele não se contentou em ficar apenas atrás das cortinas.

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6 músicas brasileiras para a Semana das Crianças

“A infância
É a camada
Fértil da vida” Nicolas Behr

Signac_-_Portrait_de_Félix_Fénéon

Mais do que uma simples questão de idade, o lugar da infância é o da ilusão, da fantasia, da “curiosidade”, como bem repetia Rubem Alves. É na infância que as portas para a brincadeira estão abertas, que os sonhos florescem e a diversão impera. Na música brasileira não é diferente. O tema foi tratado por Chico Buarque, Sidney Miller, Fernando Brant, Milton Nascimento, Cazuza, Aldir Blanc e muitos outros, com todo o frescor da primavera, a estação onde a infância floresce e onde “deve rezar todo adulto que se preze”, como nos alerta Fernando, autor de versos cantados por Milton, “Bola de meia, bola de gude…”.

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