Análise: 70 anos de Leila Diniz, mulher sem cortes

“Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
O mar é das gaivotas
Que nele sabem voar
O mar é das gaivotas
E de quem sabe navegar.

Brigam Espanha e Holanda
Pelos direitos do mar
Brigam Espanha e Holanda
Porque não sabem que o mar
É de quem o sabe amar.” Leila Diniz

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Carlos Drummond de Andrade a homenageou em poesia. Martinho da Vila, Erasmo Carlos, Rita Lee, Elton Medeiros, Paulo César Pinheiro, Carlinhos Vergueiro e Taiguara o fizeram em canções. Milton Nascimento se valeu de um delicado poema de Leila para criar a música “Um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco”, título oriundo de frase da protagonista, que ajuda a entender um pouco de sua personalidade. Não bastasse isso, a histórica entrevista para “O Pasquim”, recheada de palavrões censurados e em que pregava, principalmente, o “amor livre” e a “liberdade sexual da mulher”, gerou uma enérgica reação do regime militar em vigência, e a censura prévia à imprensa ganhou, à boca pequena, o nome popular de “Decreto Leila Diniz”.

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A história de Ana

“Foi andando devagar ao longo da praia, passo a passo, reconciliada com o mundo, leve, distraída, olhando o mar.” Fernando Sabino

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Ana me contou uma história. E eu nunca mais me esqueci. Ela trabalhava com farmacovigilância, um braço da farmacologia, e me explicava que não tinha contato direto com os pacientes, mas era responsável por analisar prontuários, ver se a medicação estava correta, verificar interações medicamentosas, que ajustes poderiam ser feitos a fim de otimizar a recuperação do paciente. Neste ambiente burocrático, um dia lhe veio uma epifania. Ana não tinha certeza se era isso mesmo que queria, “é difícil, mas é legal”, dizia, com o ímpeto de um bicho-preguiça. Pensava em seguir a área acadêmica, gostava de mexer com pesquisa, “pegar, fazer, mas se eu for professora pretendo ensinar os alunos a pensarem”. “Mas o meu problema, é que eu gosto de tudo, tudo que eu consigo fazer bem”, encerrava, com um sorriso amarelo no rosto, cansada daquilo tudo.

Ana se sentia perdida, como se a perdição fosse propriamente dita uma parte de sua personalidade, acoplada a ela como uma condenação, algo inescapável. Que nunca seria capaz de tomar o caminho mais fácil, o menos angustiante, que a livrasse das ansiedades e das dúvidas sobre o mundo. Tanto que seu poema preferido era “A estrada não trilhada”, de Robert Frost, segundo ela, a “própria imagem e semelhança”, assim como Deus construíra o homem, ela fora construída sobre aquelas frases. Um dia, porém, apareceu no caminho de Ana um povo miserável, não era um, mas alguns milhões de desdentados, e o mais inacreditável, com enormes sorrisos nas bocas, talvez do tamanho de todas as angústias de Ana. É claro que isso não era comum, Ana trabalhava na parte burocrática, sem contato com os pacientes, mas, por acaso, calhou de encontrar-se com aquele batalhão de bocas desdentadas.

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Tentações da Carne

“Pode-se resistir a tudo, menos a uma tentação.” Oscar Wilde

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Para ela a página em branco era como uma maçã madura, lisa, com a casca vermelha ainda intacta, esperando a primeira mordida. No que olhava para a maçã já imaginava o buraco que seus dentes cravados fariam naquela carne de fruta. Essas associações explicam, em alguma medida, a sua tentação por padres. Tinha essa preferência, à imagem dum homem de batina vinha-lhe a página em branco, a maçã madura, a mordida. Seus suores logo escorriam alcançando as regiões mais profundas do corpo e da alma. Nesse quesito, não se fazia de rogada, de jeito nenhum, rezava a missa toda. Primeiro, era preciso se aproximar do padre, com um jeito meigo e arrependido que caracteriza toda e qualquer carola, independente da idade, depois, era necessário mostrar para a vítima o perigo que ela corria, e amordaçá-la.

Os padres são aqueles que pelo Eclesiastes, pelas tradições, o que consta nas Bíblias e nas mais diversas religiões, reivindicam-se proclamadores da “Palavra do Senhor”, portanto calar esta voz não é fácil. Embora poucos ouçam a voz de Deus muitos escutam aos padres. A pureza que representa um padre é justamente por ser ele a personificação do enigma, da ausência, do nada, do invisível que circunda o humano deste que veio ao mundo. Portanto, torna-se mais fácil entender as tentações daquela que via, no domínio desta figura, o contato com o divino, com o milagre, como se tocasse em Deus. As tuas provocações não eram simples divertimentos irresponsáveis, a tentação que sentia ante a figura de um padre tocava-lhe suas mais recônditas camadas. Se o maior elogio que se pode fazer sobre a existência humana no mundo palpável é mistério e prazer, ela era santa, quase.

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A alegria de viver

“quanto mais obtuso o olhar, mais extenso é o bem! Daí a perene alegria das crianças! Daí o humor sombrio e o pesar dos pensadores!” Nietzsche

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Naquele paraíso álacre de Matisse uma das ninfas da roda resolveu se virar de costas para atrair a atenção dos ninfos. Evidente que os olhos destes que eram vermelhos se tornaram ainda mais rubros, cheios de palor, tal como os corpos das admiradas. Num outro canto um casal se tornava azul pela revelação de um amor de nuvens, enquanto o ninfo que ordenhava bodes tocava uma canção amarela, fácil de ser percebida pelo seu vigor. É verdade que havia também uma verde capinação, contrastada à letargia rosa de corpos ao sol, bem como ao vermelho florido, trespassado por uma filigrana, daquela que se banhava.

Banhava-se de quê? Agora me perguntam. Ora, há uma filigrana, como não bastasse, o sol de Matisse é bastante generoso. Há ainda uma canção sendo tocada, roxa e azul, ou melhor, lilás, ou, antes, seguindo o retiro dos camaleões, e por fim uma cena do milagre do gozo, coberto por uma toalha levemente branca, cuja camada de azul se descoloriu em razão dos tremores a que foi obrigada sustentar. Naquele paraíso álacre de Matisse impera uma alegria de viver. As cores não sentem culpa, e abafam os seres humanos. Pois se estes tomassem conta das formas e pormenores, certamente questões de realidade seriam consideradas, o que inevitavelmente traria a morte e todas as desgraças a que estão imunes as obras de arte.

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A última carta de amor de Camille Claudel a Rodin

“Não era sem algum mal-estar que eu via essas cartas arderem. Elas avivavam um segundo o fogo e, tudo somado, eu tinha medo de ver tão claro.” Raymond Radiguet

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Quando Camille Claudel escreveu sua última carta de amor a Rodin os efeitos da loucura descansavam. Aquele homem que lhe roubara a paz e pusera seus nervos em frangalhos não era mais capaz de tocá-la. Não era capaz pela distância que guardavam a perfídia solidão das grades do mundo livre e civilizado. Não era capaz por esse motivo concreto. Não era capaz pelo caráter macilento que o desejo adquire com o tempo, como se derramasse sobre ele um ácido que fosse lhe derretendo as rijas camadas da tensão inerentes ao desejo sexual, e que resta, ao final de tudo, como o tédio de dias mortos. Era esse caráter existencial que mais a desestabilizava. A subjetividade cravada em suas costas como uma lança documental. Quando Camille Claudel escreveu sua última carta de amor a Rodin os efeitos da loucura descansavam.

“Mil vezes escolherei você”. Era o que dizia. Era o que ele dizia. Não se esquecera. E jamais se esqueceria. Mesmo quando a loucura a tomava de pé e a tombava como uma girafa faz com o leão que tenta devorá-la num coice, essa frase se repetia impoluta em sua mente. “Mil vezes escolherei você”. Agora os efeitos da loucura descansavam. Mas era mais perturbador, justamente mais perturbador, perceber, com a consciência impoluta, o quanto aquelas palavras eram impossíveis de serem cumpridas. “Pelo caráter macilento que o desejo adquire com o tempo”, repetia para si mesma. Agora os efeitos da loucura descansavam. Lembrou-se de certa feita, quando um pingo de água caindo-lhe no nariz a inspirou a esculpir uma forma que parecesse onda, lhe parecesse água e sua qualidade interminável, essa ideia juvenil e inocente, cheia de frescor e intensidade.

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