O criador de cobras

“Se a natureza não é contra nós, também não é por nós.” Herman Melville

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Quando o especialista o avisou do fato não pôde conter as estribeiras. Teve vontade de arremessá-lo pela janela ou mesmo dentro da gaiola que guardava o animal. Cuidava daquela cobra desde os primeiros meses de vida, quando os dentes não eram tão visíveis e a coloração ainda se restringia ao amarelo ocre da placenta, o amarelo carente de sangue, mais próximo da morte que são os estreantes dias de qualquer ser vivo do que da existência madura. Com o passar dos anos estabeleceu massa, espessura, densidade e vícios. Atendia pelo nome sem demonstrar afeto. E era essa a principal teoria do especialista.

A cobra não desenvolve afeto por seu criador nem após anos de convívio. Incapaz, mesmo se quisesse, de amar, sofrer, ter consternação ou melancolia. Passam longe de sua rotina a angústia do vazio, da vida, tão comum aos homens, absortos em seus pensamentos quando as questões básicas de sobrevivência se estão resolvidas. A cobra não olha o homem como este, em muitos casos, para Deus. No que colide este paradoxo. Embora visível, tocável, de carne, osso, peles e braços, o criador da cobra não passa para ela nunca de um alvo no seu radar. Enquanto para o homem o invisível é perfeitamente passível de amar, embora desfeito de pernas e braços e peles.

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Centenários 2015: Zé Trindade consagrou o tipo ordinário

“O que é a natureza…” Zé Trindade

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Zé Trindade está na música do Skank. Está na fala do comentarista esportivo José Trajano. Está na boca do povo. Zé Trindade é a boca do povo. Difícil determinar onde começa a personagem e termina o intérprete. O próprio se valia de referências da vida pessoal, autodenominando-se “baiano e muito vivo!”. Num dos inúmeros bordões que perpetrou, tirava sarro da aparência: “É chato ser gostoso”. “Baixinho, feio e sempre safado”, nas palavras do crítico de cinema Inácio Araújo, aliás, os tais bordões servem de principal esteio às atuações de Trindade que, diferente de outros comediantes, não se agarrou a um, mas criou inúmeros deles. Judiado pelas mulheres, o comediante sempre arranja uma saída criativa para as confusões que arruma. Talvez seja este o principal ponto de aproximação de Zé Trindade com o seu povo.

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14 músicas brasileiras contra o racismo

“Não é só a morte que iguala a gente. O crime, a doença e a loucura também acabam com as diferenças que a gente inventa.” Lima Barreto

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País da mistura e da diversidade, o Brasil ainda paga pela frase histórica de Joaquim Nabuco, inclusive incorporada por Caetano Veloso em música: “a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional”. A influência do negro e também do índio na cultura tupiniquim provém tanto desses dialetos, dos ditados populares, das expressões, quanto da dança, do jogo, da capoeira e, em especial, da canção. Assim como nos Estados Unidos, nossa maior vertente de composição popular se vê impregnada pela raiz africana. Do samba, ao rock, à música soul, até a conformação da sigla MPB, também entendida como “música preta brasileira”, selecionamos 14 importantes temas no combate ao racismo, essa prática tão carente de ritmo.

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Análise: 80 anos de Woody Allen, cineasta do diálogo

“O coração é um músculo muito elástico.” Woody Allen

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Que as influências de Woody Allen variam e passam por nomes como Groucho Marx até Fellini é ponto pacífico. Mesmo por que a citação literal e solta são uma das marcas de seus filmes, impregnados, sobretudo, pela personagem do diretor, inclusive quando não é ele o protagonista; mas um dos que aceitam o desafio de reviver o seu alter ego na grande tela. Acontece que o decorrer desses 80 anos de vida, quase a totalidade deles dedicados à arte, garantiram ao diretor uma marca maior do que a de suas personagens, suas referências e os próprios filmes. Essa característica é fruto tanto do pensamento elaborado de Woody Allen quanto da maneira singular de filmagem (embora destaque-se em outras áreas como a música e a literatura, o grande público o reconhece no cinema). Ponto que melhor revela suas contradições, as fraquezas e méritos.

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Crítica: musical “Oratório – A Saga de Dom Quixote e Sancho Pança”, da Cia. Burlantins, combina tradição e modernidade

“Aquele que foi chamado o mais encantador dos loucos não foi também dos seres humanos o mais sábio?” Miguel de Cervantes

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O encontro da “Cia. Burlantins” com a história de Dom Quixote de La Mancha criada por Miguel de Cervantes em 1605, na Espanha, revela a união de tradições, mas também a renovação delas. É nessa dicotomia que trabalha o musical encenado pela primeira vez em 2012, e que chega, com frescor, ao quarto ano em cartaz e peregrinando. Com roteiro bem costurado por Eid Ribeiro e direção segura de Paula Manata, o que salta aos olhos na montagem são os figurinos criados por Maria Luiza Magalhães e Janaína Castro, além de bonecos e cenário que ficam a cargo de Conrado Almada e Eduardo Félix.

Isto porque os acessórios e a vestimenta servem para transportar o espectador ao universo fantástico e lúdico do protagonista. A percepção de que o “Cavaleiro da Triste Figura” cria novos significados para o mundo através de sua lupa deturpada da realidade tem seu ponto nevrálgico, sobretudo, nesse acordo tácito tão comum ao teatro e à arte, o que, nas palavras do poeta Manoel de Barros pode ser compreendido pela máxima: “Hei de monumentar os insetos”. Além de uma ode à fantasia, procura extrair o valor daquilo que, pelo costume e a norma, não o mereceria. Em que Arthur Bispo do Rosário é outra referência importante.

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