9 músicas brasileiras sobre o corpo

“O resto do corpo a onda limpa,
Cor de pérola.

Na fissura da rocha
O mar suga obsessivamente
Essa fenda, eixo do mar inteiro.” Sylvia Plath

Marisa-Monte-Carlos-Zefiro

Um dos temas preferidos da música brasileira, de esguelha ou indo direto ao ponto, sempre foi o corpo, de mulheres e de homens. Na maioria dos casos o corpo feminino era o motivo da admiração e do orgulho, afinal a música, tal como a sociedade, também se via sob o domínio do patriarcado. No entanto, mesmo essa perspectiva recebeu interjeições ao longo do tempo, nas interpretações, por exemplo, de Ney Matogrosso, Angela Ro Ro, Chico Buarque e Caetano Veloso, que se colocavam, ora no lugar da mulher, outra no lugar do homem, e algumas vezes em um espaço híbrido que a arte e a liberdade proporcionam. Que o corpo seja livre e a música continue tocando para que ele dance.

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Fábula

“De um exílio passado entre a montanha e a ilha
Vendo o não ser da rocha e a extensão da praia.
De um esperar contínuo de navios e quilhas
Revendo a morte e o nascimento de umas vagas.
De assim tocar as coisas minuciosa e lenta
E nem mesmo na dor chegar a compreendê-las.
De saber o cavalo na montanha. E reclusa
Traduzir a dimensão aérea do seu flanco.
De amar como quem morre o que se fez poeta
E entender tão pouco seu corpo sob a pedra.
E de ter visto um dia uma criança velha
Cantando uma canção, desesperando,
É que não sei de mim. Corpo de terra.” Hilda Hilst

Pieta el greco

Conta um anjo que subiu ao céu e viu que Deus não existia. Deus não existia mesmo. Seu nome era Valquíria, e, como todos sabem, anjos não têm sexo. Valquíria experimentava um prazer inenarrável quando comia uma barra de chocolate. Era um dos momentos de maior felicidade da sua existência, quando mordia, indolente, aquele pedaço da barra de chocolate. Outra característica sua é que desejava “Felicidades Sempre”, mesmo sabendo que essa sentença era impossível, que se tratava de fábula. Valquíria iniciou sua vida indômita, até que se apaixonou por uma orquídea, e, a partir deste momento, estava presa ao universo das flores.

Apesar de ter descoberto, quando de sua ida ao céu, que Deus não existia, mantinha uma gratidão com essa imagem, essa impossibilidade do criador, uma espécie de gratidão obsoleta, obtusa, obstinada como são as esperanças, frutos do desamparo, da necessidade de acreditar em algo e do completo abandono, só acolhido no mundo das orquídeas, no universo das flores. De maneira oblíqua, Valquíria encarava esse Deus infundado. Um dia, quando se viu transformada em cavalo, quis relinchar, mas não havia som no universo das flores, e ela pisava enormes mananciais, donde escorriam dentes exangues.

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O Teto

“Num grão de areia ver um mundo
Na flor silvestre a celeste amplidão
Segura o infinito em sua mão
E a eternidade num segundo.” William Blake

agony-gorky

O sangue coagulado estava no teto, e continuava gotejando. Preso, duro, guardado, entregue às paredes do teto, era inexplicável que aquele sangue coagulado continuasse gotejando. Miriam está no chão. Atônita, não é capaz de chorar pela morte do irmão. Experimenta, ainda neste momento, dias após o enterro, uma sensação de incredulidade. Embora soubesse, desde o princípio, que o irmão estava fadado à morte, que esta morte viria, cedo ou tarde, e veio, de fato, mais tarde do que se esperava. Mas agora, neste momento, o sangue coagulado no teto continua gotejando. E Miriam está no chão. Atônita. Não é capaz de chorar a morte do irmão. Experimenta o sentimento de incredulidade.

O sangue não jorra. Ele segue lentamente gotejando. E Miriam está no chão, incapaz de aliviar esse sentimento através das lágrimas, que lhe escavariam os pulmões e, talvez, remotamente, essa possibilidade a salvaria da asfixia em que se encontra. Miriam está no chão, mas não está deitada. A impressão que se tem é que ali a jogaram. E talvez, não remotamente, esteja morta. Não é possível ouvir o som de sua respiração. Os olhos abertos estão roxos e inchados, com leves manchas amareladas, como as de um natimorto. É uma imagem desesperadora. Os braços estão abertos como os de um Cristo, e dos pregos de suas mãos o sangue jorra. O sangue no teto coagulado continua gotejando.

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Crítica: exposição “Arte da Nova Berlim” rechaça o consumismo barato

“Não fosse assim, seria essa estátua uma mera
Pedra, um desfigurado mármore, e nem já
Resplandecera mais como pele de fera.
Seus limites não transporia desmedida
Como estrela: pois ali ponto não há
Que não te mire. Força é mudares de vida.” Rilke

EXPOSICAO COLETIVA DE ARTISTAS PLASTICOS DA ALEMANHA NO CCBB

Em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte até 11 de janeiro de 2016, a exposição “Arte da Nova Berlim” apresenta no título palavra alemã que significa “espírito de uma época”. São 29 os artistas do país com obras na mostra que, apesar dessa heterogeneidade é homogênea no discurso que rechaça o consumismo barato de tempos nem tão distantes, mas que já parecem fadados ao fracasso da espécie humana tanto no presente quanto no futuro próximo. As formas e moldes de abarcar essa ideia são múltiplas.

Esse provavelmente é o grande trunfo da exposição, que revela a diversidade e tolerância almejada pelas sociedades mais desenvolvidas em seu aspecto de direitos humanos e sociabilidade. O que é mostrado, em diferentes números, é que sem uma percepção igualitária das relações econômicas, essa perspectiva permanecerá utópica, dando mais combustível e munição para a arte. Num dos trabalhos de maior teor experimental, um vídeo demonstra a performance do artista que, com arco e flecha, caça em supermercados mantimentos como leite em caixa e carne congelada. Uma ironia que não deixa escapar o primitivismo de certas elaborações tidas como evolucionárias.

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História do suicídio de uma anja sem motivo aparente

“Arcanjo domesticado
em pleno gesto das doze,
de plumas e rouxinóis
finge uma cólera doce.” García Lorca

the-concert-1957

Não havia motivo aparente. A carta era apenas um ponto final. Com o canivete escrevera as duas histórias: a da morte e a da despedida. Uma cravara na carne, a outra num papel qualquer. Quando a encontraram a sua imagem era de transparência. Uma ausência que só a morte concede. Não havia mais os traços de turbulência em sua face, a rubra coloração, que lhe garantia perante os outros uma extrema vitalidade, agora descansava. Tudo era repouso e silêncio. Como se finalmente estivesse integrada ao mundo perante a sua inexistência aos olhos humanos. Os seios que sempre foram a marca de sua inquietude, pois a representavam tanto para si quanto para os outros, esbaforidos e impacientes como pombas que desejavam escapar de uma gaiola, eram agora uma sombra condensada ao corpo, parado, imóvel, sem guardar mais nenhum desejo nem nenhuma aflição.

A turbulência restava na carta. Apenas um ponto final. Ela que em toda vida particularizara-se por hipérboles e redundâncias despedira-se sem nenhum eufemismo, com uma plena concordância. Restava para os outros adivinhar, ou aceitar com resignação a falta de sentido ou profundidade como fazem os bois e as vacas, e todos os animais que sob o comando de Noé escaparam numa arca do dilúvio e da tempestade. Não havia motivo nenhum. Os desejos e as aflições eram os mesmos de seus semelhantes, que continuavam com os olhos abertos, os seios pulando, a coloração rubra da pele, os sexos em riste e se abrindo, e ignoravam que para se integrar ao mundo era necessário que a morte os aplainasse com sua quietude, a imobilidade do sono. Havia uma criança que não saía da frente. Só implorava e se debatia. Silêncio. O poeta está pensando. Foi o que lhe veio na hora.

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