Dos prazeres mananciais

“mas, tão logo essa palavra ‘amor’ lhe ocorreu, ela a rejeitou, pensando novamente quão obscura era a mente, com suas pouquíssimas palavras para todas essas percepções surpreendentes, essas alternâncias de prazer e dor.” Virginia Woolf

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Sentia um prazer quase manancial quando descia as escadas para demitir alguém. No entanto, passam pessoas e não é ela. Através da vitrine a espera torna-se a cada segundo mais insuportável, como a pressão que a corda vai exercendo no pescoço do enforcado à medida que o corpo cede. Imbuído de minha coragem e destituição fui até o jornal pedir meu emprego de volta. Sentia um prazer quase manancial quando descia as escadas para demitir alguém. Era preciso lembrar dessa frase para não ser surpreendido. E não esquecer que na maioria das vezes a presa, seja ela qual for, leva a melhor sobre a onça.

Sentia um prazer quase manancial quando descia as escadas para demitir alguém. No entanto, passam pessoas e não é ela. As pessoas na redação são observadas por mim como manequins em vitrines. Os rostos impávidos, lúbricos, de quem detém o emprego como o vazio da morte, o segredo da morte, e recusa-se a dividi-lo, não quer dividi-lo com mais ninguém. Sem dúvida, sentem-se como deuses por possuírem um emprego e não terem que passar pela humilhação do pedido, que requer coragem e a lembrança de que, seja qual for a presa, na maioria das vezes é ela quem leva a melhor sobre a onça.

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O viço

“Quando pensou que aquela grade era a grade da velhice, sentiu por ela uma piedade imensa, e essa piedade tornou-a mais próxima (essa mulher outrora deslumbrante, que o fazia perder a fala) e teve vontade de conversar com ela como um amigo conversa com uma amiga, longamente, na atmosfera azulada da resignação melancólica.” Milan Kundera

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Dissera que perdera o viço. Diziam isto. Que sua pele de pera agora transformara-se em maracujá. E que suas cicatrizes jaziam bem mais expostas e visíveis. Disseram-lhe. Dizia. Ao caminhar lentamente, pela praia ou ao redor dos sonhos, segurando o próprio travesseiro como que para aprisionar os sonhos, suas pernas sentiam o pendor dos anos. O pendor de horas, de meses, de dias, passados sob a maresia da praia, sob os mares, sob os sonhos. Estava imersa. Dissera. Diziam.

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Saudades de Audrey Hepburn

“O viveiro dos felinos de um zoológico tem um cheiro desagradável, um ar carregado de sono, macilento com hálito velho e desejos mortos. Em uma comédia com um quê de melancolia, a desgrenhada leoa reclinada em sua jaula parece uma rainha do cinema mudo” Truman Capote

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Lia uma frase numa vitrine, quando de repente notei o outro lado. Quem é ela? Uma pessoa do outro lado tão reconhecível e tão distante. Pensei tê-la visto, talvez, em algum filme, mas logo essa impressão se embaçou, afinal não era possível que o cinema atracasse na minha realidade. Num espasmo, tive a nítida impressão que essa pessoa era eu, e que, apesar de se tratar de uma mulher madura, alguns gestos coincidiam com os meus preferidos, naquela parte da tarde, mais especificamente naquela vitrine, do outro lado.

Quem é ela? Pensei. Uma pessoa do outro lado. Tão reconhecível e tão distante. Refratei qualquer possibilidade de delírio, espécie de fuga da realidade associada à loucura, e não ao consentimento consciente, ativo, determinado. O delírio, naquele caso, poderia ser que a minha imagem refletisse naquela vitrine algo que a alma teimava em constatar, e que o corpo escondia. Sob a forma marrom e aristocrática do corpo, estaria uma alma petulante, que por acidente escolhera aqueles membros para seu refúgio.

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Análise: 40 anos da morte de Pier Paolo Pasolini, a arte contra o poder

“O autor é um pobre idiota, um medíocre, vive no acaso e no risco, desonrado como uma criança. Reduziu sua vida à melancolia e ao ridículo de um ser que sobrevive degradado, sob a impressão de ter perdido alguma coisa para sempre.” Pier Paolo Pasolini

Pasolini

A morte de Pier Paolo Pasolini é indissociável à sua obra, pela maneira brutal e misteriosa com que foi assassinado. Considerado por muitos a mais influente personalidade italiana do século XX, e pelo crítico Harold Bloom o mais importante poeta europeu desse período, Pasolini, nascido em Bolonha, praticou todas as artes. Foi do teatro ao ensaio, e da atuação cinematográfica à direção, posto em que conquistou maior reconhecimento. Em todos, preponderou o estilo sarcástico, abusivo e a luta incansável contra o poder. Pasolini era um adorador do escândalo, em suas próprias palavras: “Eu penso que escandalizar seja um direito, e ficar escandalizado é um prazer e quem recusa o prazer de escandalizar é um moralista”, definia.

Portanto, não é de se espantar que Pasolini incomodasse a muitos, inclusive os que o admiravam, por procurar causar esse efeito, mas, sobretudo, àqueles contra os quais mirava sua arte. Crítico do capitalismo e da influência nefasta da Igreja Católica sobre a “moral e os bons costumes”, principalmente na Itália; anteviu a derrocada do gênero humano com o consumismo desenfreado que provocaria esse sistema político. Como se não bastasse, o diretor tinha uma elevada preocupação formal, da qual jamais abriu mão totalmente, o que o levou a ser taxado pelo hermetismo, mas também lhe valeu uma bonita metáfora, cunhada por um jornalista conterrâneo, que não deixava de exercer certa crítica: “Sua linguagem tem o efeito da luz do sol que atravessa a poeira, que é uma bela imagem, mas difícil de ser compreendida”.

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