Crítica: “Nós”, novo espetáculo do grupo Galpão, enaltece a comunhão

“Se o meu passado foi lama/Hoje quem me difama
Viveu na lama também/Comendo a mesma comida
Bebendo a mesma bebida/Respirando o mesmo ar…” Paulo Marques & Ailce Chaves

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A capacidade de lançar um olhar novo sobre textos clássicos permitiu ao grupo “Galpão” priorizar dramaturgias de autores consagrados ao longo de sua trajetória, sem, com isto, cair na reiteração ou na reverência pura, muito pelo contrário. Desta feita, porém, a companhia leva à cena um espetáculo contemporâneo, com direção de Marcio Abreu que também auxilia na dramaturgia com Eduardo Moreira. “Nós” alcança o mérito de abordar questões de momento sem perder a sua complexidade histórica e temporal, inclusive a partir do recurso cênico da repetição; e prova o quanto é possível panfletar com inteligência e resultado, desde que munido de duas características básicas: humor e sagacidade. O que é válido, até, para o enfoque trágico, quando se apontam dramas modernos sem resvalar no piegas, graças à poética proposta.

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Folclore indígena do leste de Minas

“Nomes em que você pensa –
Campânula-de-abril, Cachimbo-de-índio,
Pequenino

Caule sem espinhos,
Lago em cujas margens, imagens
Pudessem ser clássicas e imensas

Não esse tenso
Torcer de mãos, esse teto
Escuro e sem estrela.” Sylvia Plath

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O veludo detém a resposta e impede a passagem. Veludo azul encobre a luz. Veludo grosso, escuro, ondula e mantém-se firme. Como todo ser dotado de expectativa e preconceito surpreende-se. As palhas cobrem os telhados das ocas e também sobre o chão. A erva incinera vermelha no cachimbo de espiga de milho. O lago abundante de peixes e crianças nuas a brincar. Cabelos lisos cobrem toda a testa e chegam a tocar sobrancelha. Mas isso foi no princípio.

Ao clima quente e seco não se acostumaram. Como todo ser dotado de costume é também de saudade. Penas enfeitam pescoços, calcanhares e robustos alargadores de madeira pelas orelhas. A vida que se modifica finda e volta. Como água. O massacre dos jesuítas não os diz nada. Mas a restauração da água. Pelas costas veio o boi bravo. Pela sombra das crianças mortas. Tentaram lhe tocar o chifre, acostumadas com a espécie nova de búfalo.

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Análise: Phedra de Córdoba foi exemplo de arte e coragem

“É um limite igual ao véu
Por sobre o rosto da dama –
Mas cada dobra é um fortim
Com dragões por entre a renda.” Emily Dickinson

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Numa época em que se discute a transexualidade torna-se imperativo lembrar a partida de uma das nossas pioneiras. Phedra de Córdoda, nascida Rodolfo na Cuba de Fidel Castro, adotou o nome artístico e feminino aos 21 anos de idade, inspirada na mitologia grega, cuja tradução literal é “brilhante”. Nada mais apropriado para a atriz e dançarina que não dispensava o glamour. Phedra conheceu o produtor Walter Pinto, famoso pelo teatro de revistas, durante uma excursão da companhia à qual pertencia em Buenos Aires, e decidiu não mais retornar à terra de origem, fixando-se no Rio de Janeiro. Para quem não conhece o tratamento dado pelo regime de Fidel aos homossexuais cabe a autobiografia de Reinaldo Arenas, “Antes que Anoiteça”, de 1990.

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Análise: Rogério Duarte manteve princípios da Tropicália até o fim

“qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.” Torquato Neto

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Rogério Duarte foi uma dessas personagens periféricas da “Tropicália” à qual muitos não ligam o nome à arte. Muito embora sua contribuição tenha sido fundamental para o movimento. Músico e artista gráfico natural do interior baiano, Duarte foi responsável pela criação das capas de discos icônicos de Gilberto Gil, Caetano Veloso e Jorge Mautner, os primeiros a esbanjar a estética psicodélica e colorida do tropicalismo. Mas não foi só isso, o sucesso o levou a ser chamado para o mesmo feito a serviço de Gal Costa, Jorge Benjor e o ídolo supremo de todos eles, um dos artífices da bossa nova, João Gilberto. No teatro, foi referência para o inventivo Zé Celso Martinez Corrêa.

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A Parábola do Poder

“E ele disse: Por Deus, isto é incrivelmente engraçado,
Ter metade do óleo do mundo, e não poder ter o bastante
Para acionar uma máquina de governo!’” Ezra Pound

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Dá voltas ao redor do ouvido: zumbindo. O movimento é rápido e escapa do braço, sem franzido de testa, sem alarde: pica. Não dá tempo, é demais para o tempo, o tempo não pega Fernanda. Com livros, papéis, sarapatéis e paparicos: cai no colo. O louvor ao ócio é incapaz de acompanhá-la. O raciocínio lógico de tão matemático determina: aonde devem estar as causas e circunstâncias: Fernanda é exata. A amplitude dos movimentos crepusculares escapa da crônica: Fernanda amanhece de noite: fora de tempo dos arredores: quer revanche, revolução, progresso: dar à Santa a bofetada de adrenalina: que ela merece tirar do conforto provocar no útero contrações do parto: brindá-la com gêmeos, trigêmeos, quádruplos. Comprime os beiços na ansiedade, martírio, angústia: é preciso mexer com essa gente, vivendo no mundo da lua.

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