Análise: 80 anos de Woody Allen, cineasta do diálogo

“O coração é um músculo muito elástico.” Woody Allen

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Que as influências de Woody Allen variam e passam por nomes como Groucho Marx até Fellini é ponto pacífico. Mesmo por que a citação literal e solta são uma das marcas de seus filmes, impregnados, sobretudo, pela personagem do diretor, inclusive quando não é ele o protagonista; mas um dos que aceitam o desafio de reviver o seu alter ego na grande tela. Acontece que o decorrer desses 80 anos de vida, quase a totalidade deles dedicados à arte, garantiram ao diretor uma marca maior do que a de suas personagens, suas referências e os próprios filmes. Essa característica é fruto tanto do pensamento elaborado de Woody Allen quanto da maneira singular de filmagem (embora destaque-se em outras áreas como a música e a literatura, o grande público o reconhece no cinema). Ponto que melhor revela suas contradições, as fraquezas e méritos.

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Crítica: musical “Oratório – A Saga de Dom Quixote e Sancho Pança”, da Cia. Burlantins, combina tradição e modernidade

“Aquele que foi chamado o mais encantador dos loucos não foi também dos seres humanos o mais sábio?” Miguel de Cervantes

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O encontro da “Cia. Burlantins” com a história de Dom Quixote de La Mancha criada por Miguel de Cervantes em 1605, na Espanha, revela a união de tradições, mas também a renovação delas. É nessa dicotomia que trabalha o musical encenado pela primeira vez em 2012, e que chega, com frescor, ao quarto ano em cartaz e peregrinando. Com roteiro bem costurado por Eid Ribeiro e direção segura de Paula Manata, o que salta aos olhos na montagem são os figurinos criados por Maria Luiza Magalhães e Janaína Castro, além de bonecos e cenário que ficam a cargo de Conrado Almada e Eduardo Félix.

Isto porque os acessórios e a vestimenta servem para transportar o espectador ao universo fantástico e lúdico do protagonista. A percepção de que o “Cavaleiro da Triste Figura” cria novos significados para o mundo através de sua lupa deturpada da realidade tem seu ponto nevrálgico, sobretudo, nesse acordo tácito tão comum ao teatro e à arte, o que, nas palavras do poeta Manoel de Barros pode ser compreendido pela máxima: “Hei de monumentar os insetos”. Além de uma ode à fantasia, procura extrair o valor daquilo que, pelo costume e a norma, não o mereceria. Em que Arthur Bispo do Rosário é outra referência importante.

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2 músicas cantadas por Marília Pêra

“Mas, afinal, para que interpretar um poema? Um poema já é uma interpretação.” Mario Quintana

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Embora tenha se destacado, principalmente, como atriz, Marília Pêra foi uma artista de múltiplos talentos, o que comprovam sua formação prática e teórica. Iniciou a trajetória como bailarina e integrou o corpo de peças de teatro em que reverenciava e vivia Carmen Miranda. A influência musical na carreira e na vida de Marília pode ser sentida por duas circunstâncias. Em primeiro lugar, os discos que gravou e dos quais participou como intérprete, e em segundo a busca por uma dicção para suas personagens que, para os mais atentos trazia sempre algo de musical, e mais do que isso, de ritmo, de tempo, de respiração. Atributos fundamentais para a comédia, onde se destacou, mas também em outras vertentes como o drama e o romance. Marília foi uma atriz completa.

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Análise: Tutuca foi um artista do tempo em que o humor tinha marca

“deve deixar o povo desempenhar comédias
e os historiadores registrarem os fatos
deve deixar os pobres falarem mal dos impostos.” Ezra Pound

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Tutuca pertenceu a uma categoria de intérpretes que se distinguiu por imprimir uma marca às suas personagens, o que se convencionou chamar de “bordões”. Artifício que mais tarde caiu no limbo, embora outros atores tenham voltado a se destacar ao colocar sua personalidade em cena, casos de Al Pacino, Jack Nicholson e Paulo César Peréio. A criação de uma personagem acoplada ao intérprete perdeu o costume em tempos recentes, onde a capacidade de se camuflar indistintamente e de maneira variada garante os aplausos do ofício. O intérprete que dá vazão a um sem número de performances, a histórias e personagens que vão muito além dele próprio. No tempo da chanchada o astro era o ator de um papel só, e o que se revezava, o coadjuvante. Basta reparar em Zé Trindade, Oscarito, Zezé Macedo, e etc.

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Análise: Ana Cristina Cesar esboçava tentativa de vida pelas palavras

“o coração só constrói
decapitado
e mesmo então
os urubus
não comparecem;” Ana Cristina Cesar

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Em Ana Cristina Cesar o impacto precede, muitas das vezes, a compreensão. A força da palavra, seu poder de síntese, a sonoridade que provoca quando colocada ali naquele espaço, o choque. E é possível dizer que é em Ana Cristina Cesar e não exatamente em sua poesia, em sua prosa, nas cartas que transformou em obras de arte. Ana pratica uma espécie de aproximação distante. De se entregar sem se revelar. “Não se confessa os próprios sentimentos”, alude em uma das tantas passagens em que a biografia, o trânsito entre a primeira e a terceira pessoa, o olhar ora matreiro, ora melancólico, esboçam uma tentativa de vida através das palavras, da literatura.

Do ponto de vista estrutural Ana visava a desarticulações de padrões, à impressão de uma estética moderna, solta, sub-reptícia, propositadamente maculada, viva, em constante transformação e longe dos vícios “literários”. Ana Cristina Cesar é o oposto da pompa, da literatice, e consegue conjugar no mesmo movimento rigor e audácia, elegância e despojamento. Essa convivência com a tradição pode ser constatada no uso de expressões populares e ditados nos escritos de Ana, aos quais ela condecora com uma nova roupagem ou as despe insolentemente. A presença da ruptura, da fragmentação, vão ao encontro da palavra mais “sentida” do que “pensada”.

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