25 anos da morte de Reinaldo Arenas: poeta, homossexual e cubano

“estava diante de um homem que fizera da literatura sua própria vida; diante de uma das pessoas mais cultas que jamais conheci, mas que não fazia da cultura um meio de ostentação, e sim, muito simplesmente, algo a que se agarrava para não morrer; algo vital que o iluminava e que, por sua vez, iluminava quem estivesse ao seu lado.” Reinaldo Arenas

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Reinaldo Arenas define a própria obra, em sua autobiografia “Antes que anoiteça”, como sua “vingança contra quase todo o gênero humano”. Perseguido e preso pela ditadura de Fidel Castro, a qual apoiou no início quando esta derrubou outro regime totalitário, o de Fulgencio Batista, Arenas sempre teve, do ponto de vista material, uma vida miserável, o que não o impediu de desfrutar uma pródiga e exuberante sexualidade.

Poeta, homossexual e cubano, para o bem e para o mal essas três circunstâncias marcaram a existência de Arenas. Seus manuscritos eram enviados através de amigos para a Europa e países da América Latina, e sua escrita, apaixonada e liberal; em romances, contos e poesias, não tardou a despertar a ira do Partido Comunista e seus correligionários. Além disso, no auge e esplendor de sua juventude Arenas descreve em detalhes no crepuscular romance sua intensa atividade sexual nas praias cubanas, inclusive com homens casados.

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Dois ou três crimes que cometi dormindo

“Como se os caminhos familiares traçados nos céus de verão pudessem conduzir tanto às prisões quanto ao sono inocente.” Albert Camus

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“- É necessário que haja dolo”, intercedeu meu advogado.
“- Constatado”, retrucou o juiz.

Então eu havia sido condenado por dois ou três crimes que cometera dormindo. Não negava aquela acusação. O que me indignava era saber como aqueles crimes cometidos em sonho haviam alcançado a realidade. Quem fora o delator? Quem me entregara?

Eu mesmo era incapaz de tal ato, e também de dividi-lo com outras pessoas, tamanha a crueldade e a natureza, sem dúvida, grotesca, daqueles crimes. A vergonha, controle social de toda e qualquer sociedade civilizada me impediria de confessar. Mas nos sonhos, ambiente livre dos braços da repressão, eu era bem capaz de cometer aqueles crimes de novo, o que me preocupava ainda mais, pois já na prisão minha pena poderia ser triplicada.

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História de tia Ofélia

“Hesito, é certo, mas aguardo o assombro
com que verei descer de céus remotos
o raio que me fenderá no ombro.” Ferreira Gullar

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Desde menina era arteira. Orgulhava-se dessa palavra. Repetia para si mesma: “arteira, sou uma menina arteira”. Vivia na roça, no interior das Minas Gerais. Tinha que plantar o que comer, ajudar a ordenhar as vacas, divertia-se vendo o leite escorrer daqueles animais tão grandes que ao mesmo tempo podiam ser tão mimosas, nome, aliás, muito adequado para uma vaca. Mas via também cenas de violência com as quais se acostumara. O ritual para matar um porco é dos mais estridentes, o bicho demonstra aos berros a agonia da morte. Para uma galinha também não é nada fácil, mas tia Ofélia se acostumara.

Agora uma mulher idosa recordava com saudades da infância. O pior período viera depois, embora ainda moça, tornara-se uma adulta quando aos quatorze anos foi desposada, e conheceu o inferno com requintes de crueldade. O homem que a desposou no início foi muito simpático, ganhou a confiança do pai e, sobretudo, da mãe. Mas bastaram estarem sós depois da primeira noite de núpcias para as maldades começarem. O homem, de quem, a essa altura da vida, recusava-se a repetir o nome, gostava de caçar. Saía todas as noites e voltava repleto de sangue, comemorando a vitória da matança.

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9 músicas brasileiras sobre o corpo

“O resto do corpo a onda limpa,
Cor de pérola.

Na fissura da rocha
O mar suga obsessivamente
Essa fenda, eixo do mar inteiro.” Sylvia Plath

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Um dos temas preferidos da música brasileira, de esguelha ou indo direto ao ponto, sempre foi o corpo, de mulheres e de homens. Na maioria dos casos o corpo feminino era o motivo da admiração e do orgulho, afinal a música, tal como a sociedade, também se via sob o domínio do patriarcado. No entanto, mesmo essa perspectiva recebeu interjeições ao longo do tempo, nas interpretações, por exemplo, de Ney Matogrosso, Angela Ro Ro, Chico Buarque e Caetano Veloso, que se colocavam, ora no lugar da mulher, outra no lugar do homem, e algumas vezes em um espaço híbrido que a arte e a liberdade proporcionam. Que o corpo seja livre e a música continue tocando para que ele dance.

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Fábula

“De um exílio passado entre a montanha e a ilha
Vendo o não ser da rocha e a extensão da praia.
De um esperar contínuo de navios e quilhas
Revendo a morte e o nascimento de umas vagas.
De assim tocar as coisas minuciosa e lenta
E nem mesmo na dor chegar a compreendê-las.
De saber o cavalo na montanha. E reclusa
Traduzir a dimensão aérea do seu flanco.
De amar como quem morre o que se fez poeta
E entender tão pouco seu corpo sob a pedra.
E de ter visto um dia uma criança velha
Cantando uma canção, desesperando,
É que não sei de mim. Corpo de terra.” Hilda Hilst

Pieta el greco

Conta um anjo que subiu ao céu e viu que Deus não existia. Deus não existia mesmo. Seu nome era Valquíria, e, como todos sabem, anjos não têm sexo. Valquíria experimentava um prazer inenarrável quando comia uma barra de chocolate. Era um dos momentos de maior felicidade da sua existência, quando mordia, indolente, aquele pedaço da barra de chocolate. Outra característica sua é que desejava “Felicidades Sempre”, mesmo sabendo que essa sentença era impossível, que se tratava de fábula. Valquíria iniciou sua vida indômita, até que se apaixonou por uma orquídea, e, a partir deste momento, estava presa ao universo das flores.

Apesar de ter descoberto, quando de sua ida ao céu, que Deus não existia, mantinha uma gratidão com essa imagem, essa impossibilidade do criador, uma espécie de gratidão obsoleta, obtusa, obstinada como são as esperanças, frutos do desamparo, da necessidade de acreditar em algo e do completo abandono, só acolhido no mundo das orquídeas, no universo das flores. De maneira oblíqua, Valquíria encarava esse Deus infundado. Um dia, quando se viu transformada em cavalo, quis relinchar, mas não havia som no universo das flores, e ela pisava enormes mananciais, donde escorriam dentes exangues.

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