O que você é?

“‘Quem é você?’, disse a Lagarta.
Não era um começo de conversa muito estimulante. Alice respondeu um pouco tímida: ‘Eu… eu… no momento não sei, minha senhora… pelo menos sei quem eu era quando me levantei hoje de manhã, mas acho que devo ter mudado várias vezes desde então’.
‘O que você quer dizer?’, disse a Lagarta ríspida. ‘Explique-se!’
‘Acho que infelizmente não posso me explicar, minha senhora’, disse Alice, ‘porque já não sou eu, entende?’” Lewis Carroll

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Pesquisa empreendida por Raphael Vidigal e André Coelho durante o mês de março de 2015 pelas ruas de Belo Horizonte, que busca investigar, através do discurso, essa pergunta fundamental: “O que você é?”. Nos vídeos abaixo conversamos com Cida, vítima de violência contra a mulher antes da Lei Maria da Penha; e Wellington, que, segundo nos diz, é filho do maior meio-médio ligeiro da história.

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Análise: Bel Garcia se entregou com força e gana ao teatro

“o céu era açúc ar lu minoso
comestível vivos cravos tímidos
limões verdes frio s choc olate
s. so b, uma lo co mo tiva c uspi
ndo vi o letas” e. e. cummings

bel-garcia

Pecado e virtude são os dois lados da mesma moeda, diria o outro. Esse pecado do teatro é o de não deixar registros, senão na memória e no coração dos que o viram naquele instante, donde reside também sua mágica. Bel Garcia, uma das fundadoras da “Cia dos Atores”, tida e havida por sua predileção pelo experimental, mas que nem por isso deixou de cativar e comover plateias; foi uma atriz que se entregou com força e gana ao teatro. Atuou em papéis que destacavam um lado cáustico e foi, principalmente, a Ofélia de “Ensaio.Hamlet”.

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Análise: Domingos Oliveira e o cinema de François Truffaut

“ – De que me vale ter casa sem ter mulher amada dentro?
Permiti que eu sonhe com uma que ame andar sobre os montes descalça
E quando me vier beijar faça-o como se vê nos cinemas…
O ideal seria uma que amasse fazer comparações de nuvens com vestidos, e peixes com avião;
Que gostasse de passarinho pequeno, gostasse de escorregar no corrimão da escada
E na sombra das tardes viesse pousar
Como a brisa nas varandas abertas…” Manoel de Barros

domingos-oliveira

Só pode comparar Domingos Oliveira a Woody Allen quem nunca assistiu aos filmes de François Truffaut. Talvez este seja o principal equívoco da documentarista Maria Ribeiro ao contemplar seu ídolo no longa-metragem “Domingos”, dirigido por ela em 2011. O próprio cineasta desmente a fã. Ao enumerar as influências cinematográficas detém-se em 3 nomes fundamentais. Godard, que lhe “ensinou a liberdade, embora não tenha grandes filmes”; Fellini, “o maior de todos, que não filmou a vida, filmou o mistério”; e François Truffaut, “que me ensinou que posso usar música clássica em cenas do cotidiano”, afirma. Porém, a própria resposta de Domingos é traiçoeira.

O fato de ter passado a protagonizar os próprios filmes ao longo da carreira, assim como o citado diretor norte-americano, é ainda uma gota no oceano de similaridades ao se analisar a forma e o conteúdo das produções de Domingos e Truffaut. Não é apenas no uso da música erudita em passagens aparentemente banais que registra esses pontos de encontro. Sobretudo, a temática, centrada na veneração pela mulher e na escolha do amor como a principal dimensão da existência humana. Os títulos de suas obras mais conhecidas comprovam a tese. Truffaut era “O Homem que Amava as Mulheres”; e Domingos ainda é o homem de “Todas as Mulheres do Mundo”.

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Dezoito de julho

“Era impossível imaginar como seria a cara lambuzada de cores, a espessa crosta de pó-de-arroz com dois remendos de carmim nas bochechas, as pestanas postiças, as sobrancelhas e pálpebras que pareciam pintadas com tição, e os lábios aumentados com um verniz de chocolate. Mas nem os trapos nem as tinturas eram suficientes para dissimular seu gênio: o nariz altivo, as sobrancelhas encontradas, os lábios intensos. Pensei: Um meigo touro de briga.” Gabriel García Márquez

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Abriu os olhos sem imaginar o que a esperava. Lia num papel creme as pregressas palavras. A pele morena de índia sadia espreguiçou-se silenciosa e saliente, enquanto o bocejo incontido soava irreprimível. O instante do despertar obedecia a esta rotina, agora quebrada, onde a herança japonesa recebia os primeiros raios de sol numa manhã quente e poucas vezes nublada. Esticado e puxadinho, como o sentido da visão, lhe estava, sobre os cabelos embaralhados, o gato. Estes traziam nos caracóis o charme de negras anjinhas, qual feiticeiras de invisíveis auréolas. As sobrancelhas, motivo de orgulho em prol da apuração ao delineá-las, em cima mantinham-se de finos e agitados cílios, delicados quanto borboletas em alvoroço. Metáfora semelhante poderia ser aplicada ao comportamento das duas cachorras, a primeira estando com o “delicada”, e a segunda, “alvoroço”.

Um a um aos nomes foram chamados, afinal se tratavam de membros da família e companheiros de sono inescapáveis. Rei de Espanha; o gato, Rainha dos Mares; a delicada, e Princesa do Oceano; a “em alvoroço”, atenderam cada qual à única e singular maneira de se portar frente a acontecimentos dessa natureza. Personalidades distintas sorriam plenas num momento de beijos, latidos, miaus e abraços. Apenas o coelho, de alcunha Leite Morno, dono de orelhas mescladas, inquieto focinho e patas impacientes, enviava o guincho à distância. Foi preciso se desvencilhar do afago de seus bichinhos para persistir no enigma. Pousada sobre si uma carta escrita à mão começava falando, após uma “pequena” introdução, a respeito de misteriosa caixa a seus pés. Antes, porém, reconhecera na capa a proteger tais folhas a própria fotografia, ao lado de outro do qual era possível sentir as mãos, tocar o cheiro, ouvir os olhos e o coração.

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Ao mestre Mozart, com carinho

“Noite ao luar, todos se encontrarão
Minas, a bela dama, abre-se ao violão
Entre homens e mulheres, seresta e comunhão
Tudo é sorrir” Raphael Vidigal & André Figueiredo

Mozart-Secundino

Meus encontros com o mestre Mozart foram sempre breves, suaves, porém marcantes. No seu caso, era impossível dissociar a música do homem, o instrumento do coração. Mozart tocava a vida com gentileza, como tocava seu violão. Não é por acaso que nas rodas de choro era conhecida sua predileção pela música “Simplicidade”, de Jacob do Bandolim; esta palavra muitas vezes esvaziada de seu sentido, nele encontrava a tradução perfeita. O legado maior de mestre Mozart Secundino, por mais que possa parecer o contrário, não foram as músicas que tocou, a maneira como as interpretou, mas os amigos que tantas e tantas vezes ao seu redor e por sua conta se reuniram.

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