Crítica: “Bipolar Show” atesta irreverência criativa de Michel Melamed

“Mergulha, sem limites, no espanto e na estupefação; deste modo podes ser sem limites, assim podes ser infinitamente.” Eugène Ionesco

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Não deixa de ser elucidativo que no primeiro trabalho a dar dimensão nacional a Michel Melamed, o espetáculo “Regurgitofagia”, o ator recebesse descargas elétricas vindas da plateia. Assim o múltiplo artista transforma pensamentos elaborados em linguagens abusivas e escrachadas. Desde então, soube dar a esse processo as mais diversas formas, com trânsito por diferentes veículos e o mérito de sempre usar o suporte a favor do conteúdo. Melamed tem como intrínseca característica em seus projetos aliar ao máximo possível certo aspecto escandaloso, de imediata assimilação, sem com isto diluir a complexidade do que propõe. Em “Bipolar Show”, apresentado no Canal Brasil e que estreia sua segunda temporada, toda terça às 21h30, não é diferente. Michel mantém intactas as bases de seu estilo, dentre elas, a livre diversidade.

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Análise: 90 anos de Marilyn Monroe, a força da beleza

“embora não confie em ninguém, não muito, ela se esforça feito um estivador para agradar a todos, ela quer fazer de cada um de nós seu protetor afetuoso, e consequentemente nós, a plateia, e seus conhecidos, ficamos presumidos, compassivos e excitados.” Truman Capote

Marilyn-Monroe-Filme

Marilyn é sempre Marilyn, ou seja, a personagem de si mesma, afinal de contas a própria alcunha artística foi uma criação para Norma Jeane. Nem é preciso dizer seu segundo nome para que se identifique a responsável por cenas memoráveis e inesquecíveis da sétima arte, especialmente quando soltava a voz. Subjugada a papéis que a relegavam ao protótipo da sensualidade desfeita de outras qualidades, é inegável que, para além do talento notório na arte de cantar, Monroe não descartava o domínio de seus atributos. É dispensável binóculo para reparar que Marilyn desenha as palavras com seus lábios carnudos, e que se movimenta em leves quebrares. Sempre afetada na frente das câmeras, atuando em filmes cujo apelo popular já seria forte sem sua presença por gênero e conteúdo, a artista erigiu uma imagem pública pautada no excesso, na exuberância, no modelo perfeito de beleza e vaidade.

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O Susto do Fantasma

“Há noite? Há vida? Há vozes?
Que espanto nos consome,
de repente, mirando-nos?
(Alma, como é teu nome?)” Cecília Meireles

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Urros de dentro colocam uma questão de desordem. Quanto de distorção há na percepção da história? Quando escapole o último degrau da escada, o silêncio instaura. A dúvida se sempre houve o silêncio ou se em algum momento urros partiram não do peito, mas de rostos grosseiros e machucados a agora olharem. Uma mulher magoada por traições do marido. Duas crianças brincam, correm, seguram o coração no palito. O sabor amargo, já a enganadora superfície: vermelha: doce. Melhor uma ilusão à verdade e o desastre. Como se pode ocorrer vez ou outra um esboço de lucidez, um borrão, um ensaio. Apesar da intenção de respeito, o cenário endiabrado.

Patuscada e carnaval dançam o enredo sobre mesas cuidadosamente recortadas por toalhas brancas e copos de plástico. Ainda há de se ver ali uma suntuosa e provocativa caixa de salgados. Como há de se ver sobre o manto de Santa Maria – amarelo, trapo, no correr dos anos – um novo, desta feita azul, a encobrir o verde – já se vê bege – na paisagem de pasto, eucalipto e fuligem em abundância. Então há de se vê-la pela última vez e todo seu atrevimento: de se enfiar feito rato na ratoeira: e sair com o pescoço intacto: ainda com o queijo entre as garrinhas espertas: o queijo que ela procura naquela terra: já tão amarelada, difícil de identificar: justamente pela cor, a mesma: claro, existem tonalidades de amarelo: assim a ironia é uma tonalidade: um jeito de dizer as mesmas ofensas entre amantes: sem o carinho de antes: restando apenas o desejo mórbido do ser humano em ferir e machucar-se vez ou outra se regozijando com o sofrimento alheio.

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Caderno H2O – 17/06/2016

“As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.” Manuel Bandeira

Evolução1

Evolução da espécie
Agora eu entendo,
Quando olho no olho de um cachorro,
No compasso, na orelha, no rabinho abanando, na baba, na língua,
Toda aquela pureza,
De que você me falava e eu não via.
Agora eu entendo,
Que o cachorro é um bicho,
Sinto um troço, esquisito,
Pois sou bicho também,
Mas pareço um anfíbio.

Quando olho no olho de um cachorro,

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Centenários 2016: Marino Pinto criou as letras de sucessos inesquecíveis

“Você vem de um palacete,/Eu nasci num barracão,
Sapo namorando a lua/Numa noite de verão
Eu vou fazer serenata,/Eu vou matar minha dor,
Meu samba vai, diz a ela,/Que o coração não tem cor” Wilson Batista & Marino Pinto

Marino com Dalva de Oliveira

É compreensível que num ofício predominantemente sonoro como a música o autor da palavra não receba a mesma atenção, sobretudo, de seus intérpretes, mas também dos instrumentistas. É desse mal que sofreu Marino Pinto, carioca nascido no interior do estado, então capital federal, embora tenha acumulado inúmeros sucessos quase sempre sob a égide do anonimato, por ser ele jornalista e responsável pelas letras, sendo que nunca se atreveu a cantar ou tocar algum instrumento em público. A saída prematura de cena, com apenas 48 anos de idade, ainda na década de 1960, provavelmente contribuiu ainda mais para que sua identidade se apagasse aos poucos da memória dos mais aficionados por música. A força de sua obra reside em que as composições continuaram a ser gravadas, por nomes como Ney Matogrosso, João Gilberto, Luiz Melodia, Elza Soares, Maria Bethânia, Alaíde Costa e até Norma Bengell.

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