Crítica: exposição “Iberê Camargo – Um Trágico nos Trópicos” desfralda agonias de seu criador

“Se insisto em tal episódio, é porque ele faz compreender melhor que qualquer outro o estranho período da guerra, e como, mais que o pitoresco, impressionava-me a poesia das coisas.” Raymond Radiguet

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As concepções de pintura mudaram de forma brusca através dos anos, e com elas, a de beleza. O gaúcho Iberê Camargo pertence a uma das linhas mais radicas nesses termos, embora não se possa ligá-lo a nenhum movimento específico. Talvez seja justamente por esse descolamento conceitual que suas obras choquem e provoquem sensações extremas. Se a pintura é a arte da cor e da luz, em Iberê predomina o negro, ou, antes, a escuridão. Assim como o grotesco e o feio. As formas também assumem protagonismo de modo a exacerbar o caos, a angústia, a desconexão, o fim absoluto, nunca a harmonia.

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1 música para Dercy Gonçalves

“É a vida mais que a morte, a que não tem limites.” Gabriel García Márquez

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Dercy Gonçalves talvez seja das poucas artistas da história que conseguiu atravessar as décadas tornando-se cada vez mais popular. A imagem que ficou é a da senhora de mais de 100 anos, desbocada e irreverente, mas esse humor escrachado e cheio de improvisos já era uma das marcas da atriz quando ela surgiu para a chanchada brasileira na década de 1950, e atuou em peças e “teatros de revista” hilários ao lado de nomes como Oscarito, Grande Otelo e Zé Trindade, seu par mais repetido nas telas de cinema. Dercy fez de si a própria personagem, uma mulher que rejeitou todos os estereótipos e limites que se impunham ao gênero e transformou a graça em receita de vida. Com sua voz peculiar e delirante foi tão livre que se aventurou, inclusive, na música.

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Crítica: espetáculo “Dente de Leão”, do grupo Espanca!, erra e acerta no deboche

“O jovem, justamente por ser mais agressivo e ter uma potencialidade mais generosa, é muito suscetível ao totalitarismo. Eu só me acho parecido comigo até os dez anos e após os trinta. Eu já era o que sou quando criança. Na adolescência eu me considero um pobre diabo, uma paródia, uma falsificação de mim mesmo. Por isto, digo aos jovens: não permaneçam muito tempo na juventude que isto compromete.” Nelson Rodrigues

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Os “ares de superioridade” que caracterizam a adolescência acabam por contagiar os envolvidos na peça “Dente de Leão”, uma montagem do grupo “Espanca!” com texto de Assis Benevenuto e direção de Marcelo Castro. Em ambas as funções fica nítida a ambição pela originalidade. Não é fácil abordar, no teatro ou em qualquer outra arte dramática, esse período da vida, sobretudo pela tendência ao piegas e à demagogia, mas ao comprar esse ideal juvenil sem ressalvas, ou até certa reserva, o próprio espetáculo se ressente de um senso crítico mais apurado e menos moralista. Embora na forma de perguntas, as principais interlocuções das personagens denotam mais certezas do que dúvidas, o que os leva ao inevitável didatismo que aspiram combater. Dentre as discussões aludidas, destaca-se a da representação.

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Jogos de Amor

“A fidelidade é para a vida emotiva o que a coerência é para a vida intelectual: simplesmente uma confissão de insucessos. Uma falta de imaginação.” Oscar Wilde

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Dois amigos maquinam as estratégias em meio a pesos e algumas modéstias. Moedas.
Começa o jogo:
“Quando o seu cel phone tocar, não atenda! Espere a próxima ligação. Faça-se de bobo (partindo-se do pressuposto de que ainda não o é).”
Lição aprendida, lição dada : dissimulação.

Duas amigas maquiam as peripécias em meio a blushes e algumas sonecas. Bonecas.
Ainda o jogo:
“Não corra, não vá, não se mova, não olhe pra trás. Cultive esse seu belo jardim, para que a borboleta venha e pouse em paz.”
Lição dada, lição aprendida: poesia contemporânea.

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“Uma fé como uma guilhotina, tão pesada e tão leve.” Franz Kafka

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A gente só percebe que Deus existe quando não precisa mais dele.
Chegando em casa, madrugada, após mais uma noite num bar, com as mesmas pessoas, a mesma cerveja, o mesmo cansaço e a vida.
“Havia tristeza, orgulho e audácia.” Clarice Lispector.
É preciso. Dor e solidão.
A alegria plena, extasiada, completa, que enche bochechas e dentes, que incha, sem o menor brilho, não me interessa.
Vive perto da ignorância vazia.
Não a ignorância sutil, inocente, que nos surpreende. Mas a que faz o caminho dos que se perderam na submissão.
Aquela que esconde de si mesma os sentimentos e orgulhos. E do mundo.
É preciso. Saber rir. Fazer rir. Com humor quente e sorriso simples.
Sem a frigidez de quem ri de tudo sem esquentar a garganta.
É preciso. Dar o nó. No sapato, na gravata e no paletó. Mas principalmente na garganta.
Quem não tem nó na garganta, com nada, se espanta.
É preciso. O canto sôfrego de amor e desejo. Esbarrando nas quinas.

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