Crítica: peça “Sem título, óleo sobre tela” promove alegoria da situação política

“Imagine se vocês que escrevem fossem independentes! Seria o dilúvio! A subversão total. O dinheiro só é útil nas mãos dos que não têm talento. Vocês escritores, artistas, precisam ser mantidos pela sociedade na mais dura e permanente miséria! Para servirem como bons lacaios, obedientes e prestimosos. É a vossa função social!” Oswald de Andrade

Peça debate situação política do país

Datada de 2014, quando foi encenada pela primeira vez, a peça “Sem título, óleo sobre tela” parte de uma premissa política sem se prender exclusivamente a ela. A questão temporal também não engessa a montagem, que tem o mérito de oferecer elementos capazes de se conectar às várias sensibilidades. Dito isto, escapa da redoma que invariavelmente distancia o teatro que propõe certo engajamento nos últimos tempos, sem dar voltas ao redor de discurso cujo alvo é justamente o isolamento e a criação de nichos por parte das classes dominantes. Com uma dramaturgia, a rigor, simples, todo o potencial da trama está contido no subtexto e, nisto, o texto tem habilidade ao selecionar palavras que jamais se encerram em apenas um sentido. Assim como os gestos, já que o humor físico é uma das apostas feitas para trazer a reflexão através de risos.

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A Arte imita a Vida

“Não tenho absolutamente nenhuma ojeriza pelas adivinhas; acho até que são bastante úteis, pois mantêm e sustentam no nosso espírito essa coisa que é mais necessária à nossa vida que o próprio pão: a ilusão.” Lima Barreto

Nelson Xavier interpreta Chico no cinema

Pixinguinha, Chacrinha, Bozo e Carlos Marighella irão viver novamente, graças à magia do cinema. Figuras da atualidade como Roberto Carlos, Erasmo Carlos, o maestro João Carlos Martins e a trupe do Planet Hemp também terão suas vidas contadas na tela grande em 2017. Nada que já não tenha acontecido com Olga Benário, Leila Diniz, Luz Del Fuego, Noel Rosa, Tiradentes, Heitor Villa-Lobos, Xica da Silva, Madame Satã e Bruna Surfistinha. A prática é comum também fora de terras brasileiras – vide os casos de Napoleão, Gandhi, Edith Piaf, Truman Capote, Oscar Wilde e mais uma infinidade – e, embora crescente, está longe de ser novidade. No entanto, a quantidade de filmes com essa temática prevista para estrear no Brasil este ano revela que há algo de novo acontecendo no mercado.

Em 2016, por exemplo, a cinebiografia de Elis Regina levou 538 mil espectadores às salas de cinema, sendo a nona maior bilheteria de um filme nacional no ano. Protagonizado por Andreia Horta, a mimese da personagem impressionou leigos e especialistas, embora o longa-metragem não tenha sido tão bem recebido pela mídia especializada, que acusou a “opção claramente conservadora do ponto de vista cinematográfico, o que, aliás, é norma do cinema brasileiro atual”, escreveu o crítico Inácio Araújo. Luiz Bolognesi, roteirista do filme, ao lado de Hugo Prata (diretor) e Vera Egito, afirma que a maior dificuldade em uma empreitada deste vulto “é condensar uma vida que teve 36 anos em uma hora e meia de duração, pois é preciso estabelecer um recorte e definir a linha que iremos seguir para contar a história”. No caso de “Elis” a opção foi priorizar “a relação dela com os homens, desde o pai, passando pelos maridos (Ronaldo Bôscoli e César Camargo) até os amantes, pois tiveram uma importância fundamental na obra dela, foram todas relações intensas e atribuladas que ela levou para a música”, considera.

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Análise: Almir Guineto tomou partido de sua gente com o pagode

“Tem que lutar, não se abater
Só se entregar a quem te merecer
Não estou dando nem vendendo
Como o ditado diz
O meu conselho é pra te ver feliz” Adilson Bispo & Zé Roberto

Almir Guineto gravou a música "Conselho"

Ironicamente Almir Guineto jamais registrou em disco o seu maior sucesso como compositor, “Coisinha do Pai”, lançada por Beth Carvalho e regravada com igual êxito por um dos parceiros na criação, Jorge Aragão. Por outro lado, uma das músicas mais lembradas na voz de Guineto não foi escrita por ele. “Conselho”, dos versos “deixe de lado esse baixo astral/erga a cabeça, enfrente o mal/que agindo assim será vital para o seu coração”, é uma obra de Adilson Bispo e Zé Roberto. O que apenas revela a coesão da identidade artística e social do sambista, quase que unicamente ligado e preocupado com a sua gente e as questões relativas a ela, dando nenhuma ‘pelota’ para o que vinha de fora. Tanto que desprezou um fã ilustre, quando Mano Brown, vocalista do grupo de rap Racionais MC’s, assumiu a sua idolatria. O comportamento autossuficiente de Almir Guineto era também a sua resistência.

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Análise: Canto marcado de Belchior definiu gerações

“Eis uns poucos exemplos/de ser a palo seco,
dos quais se retirar/higiene ou conselho:
não o de aceitar o seco/por resignadamente,
mas de empregar o seco/porque é mais contundente.” João Cabral de Melo Neto

Belchior é autor de "Como nossos pais"

Quando gravou o seu primeiro LP, em 1974, o Brasil vivia, há dez anos, sob o pleno domínio da tenebrosa ditadura militar que assolou o país até 1985. Para a música de Belchior esse contexto era imponderável. Nascido no interior cearense, as agruras de uma pobreza social uniam-se à violência estabelecida pela política em suas crônicas, cujas letras eram transformadas em música com o auxílio do violão. Todavia, o caráter altamente narrativo e a maneira marcada de se expressar – com forte referência do canto falado de Bob Dylan e da dicção pausada da carioca Nora Ney, sucesso absoluto na “Era de Ouro” do rádio – deram às canções de Belchior, especialmente quando interpretadas por ele, uma característica muito diferente de tudo o que se fazia na sua época. A palavra, ali, se posicionava antes da melodia, e sobressaltava a ela sem nenhuma culpa. Tanto que ainda hoje é possível recitá-las como um manifesto.

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Centenários 2017: Ella Fitzgerald, o estilo a serviço da emoção

“E ao redor de todas aquelas cenas pitorescas e modorrentas, acima das árvores e das casinholas e dos rios lamacentos, flutuava o calor, nunca hostil, apenas reconfortante, como um grande peito cálido e nutritivo, amamentando a terra ainda criança.” F. Scott Fitzgerald

Ella Fitzgerald, dama da canção

Não existe comprovação de nenhum parentesco sanguíneo envolvendo Ella Fitzgerald e F. Scott Fitzgerald, mas é certo que tanto a cantora quanto o escritor norte-americano tinham algo em comum nas funções que desempenharam ao longo da vida: o estilo conciso, elegante e, até certo ponto, discreto, marca o canto de Ella assim como a escrita do autor de “Um Diamante do Tamanho do Ritz” e outros contos notáveis. O que não significa que houvesse falta de sentimento, na verdade, em ambos os casos, o estilo estava a serviço da emoção, mas não entregue a ela, prova de uma consciência que, associada a experiências de vida, fornece aos ouvintes e leitores o que se considera uma obra de arte em música e na literatura. Ella teve uma infância pobre e, tal qual a nossa exemplar brasileira Elza Soares, vestia-se tão maltrapilha que quase foi recusada pelo famoso chefe da orquestra que a acompanharia por vários anos, Chick Webb. No caso, sempre como coadjuvante, pois o estilo vinha todo de Ella Fitzgerald, “a dama do jazz”.

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