A morte da mãe de João Cornélio

“mas a política que domina a nossa edilidade não é aquela que Bossuet definiu. A nossa tem por fim fazer a vida incômoda e os povos infelizes; e os seus partidos têm por programa um único: não fazer nada de útil.” Lima Barreto

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Ainda na sala da lady. Embora um recuasse e o outro não percebesse. Na hora em que a botija faz o estreito colo virar asa. Pelos lados o detém: num abraço ameno. Os biscoitinhos fritos são aceitos: um a um: mais de um: prenhe os dedos. Para o café a espera que talvez nunca chegue. Oferece inédito prato de biscoitinhos fritos a fim de interromper o aperto. Enquanto o papo desbarata o bico de pelicano: comem por deferência. A insuficiente conversa fiada na terra não se destina a costurar a camisa aberta, nem a pregar os botões soltos da calça comprada na feira, muito menos a mexericos no caule da nêspera esbelta. Para acalentar o dia preenche a tarde ignorante de tarefas: das básicas às irrestritas. João Cornélio tem porte e gala para botar medo no ragazzi e no guri. O chapéu de áspero couro descai da cabeça ao entrar em qualquer recinto, parte da educação recebida através da mãe, uma católica enferma que há tempo agoniza numa retinta cama.

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5 músicas brasileiras a favor da diversidade sexual

“nada importa a não ser a valia do afeto
boca, o sol é a boca de deus” Ezra Pound

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Em tempos de polarização e tendências radicais é bom relembrar o quanto a música e a arte podem contribuir positivamente para esse debate, principalmente quando se trata de aplaudir a diversidade. No caso as diversas formas de amor e união afetiva, já reconhecidas, inclusive, pelo Estado brasileiro, são cantadas em verso e prosa por nomes como o performático Edy Star, Cássia Eller, Angela Ro Ro, Caetano Veloso e Erasmo Carlos, que homenageou a mais famosa transexual do país, Roberta Close. São cinco canções que exaltam, sobretudo, a beleza da liberdade. Mas poderiam ser muitas mais, já que o amor não tem limites tal qual a música e a arte. Saravá!!!!

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Estória de Vanessa

“A sensualidade, que nasce conosco e se manifesta ainda cega,” Raymond Radiguet

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Capivara, paca, jaguatirica, pássaro, mico na beira da estrada colhe fruta, onça no meio do caminho avista a vítima turca. Mil animais à cabeça para decifrá-la. A secretária tira o fôlego, coloca em risco a saúde. Nos contornos duma embarcação, duma duna: naufraga. Quer se afogar nas coxas da mulher robusta, pernas bem torneadas: quanto custa? Vanessa não protege o decote de indiscretos olhos. Lógico: eles procuram. Feitos um para o outro. Como espiga de milho cozido e manteiga: faca de suicida e veia: decote e olhos: o perigoso joio de unir o útil ao agradável trigo. No relance das ambulâncias o impulso as sirenes dispara: jogá-la debruçada sobre a mesa, espalhar papéis, niná-la com uma bela canção de Camões, ora se vejam, pensam abobrinhas, dispensa.

Volta ao território do qual havia sido expulso dias antes, por conta da indiscrição jornalística: essa buzina de arguir posições aos que se deitam sem Kama Sutra ante os cotovelos, ou dos que se derramam em bares negros e ignoram a presença de Lupicínio Rodrigues ao chorar de vingança pela azeitona no espeto onde jaz Martini. O pescoço de Vanessa para vampiro nenhum botar defeito. Nele se invoca a aura de um anjo despido de moral, vergonha ou culpa. Nele se reivindica: o direito de ser colar de pérolas, bijuterias, pedras chinfrins. Nele se propicia o ataque de vândalos sanguinários que ainda assim seriam perdoados por todos os júris, tribunais, advogados. Tamanha a devastação, o impacto no amante, o voyeur é puro.

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A folia e a dor na música de Herivelto Martins

“Nem sequer no apartamento
Deixaste um eco, um alento
Da tua voz tão querida
E eu concluí num repente
Que o amor é simplesmente
O ridículo da vida” Herivelto Martins & Aldo Cabral

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O carioca Herivelto Martins compôs clássicos da canção brasileira ao longo de frutífera carreira que também incluiu as atividades de violonista e cantor do “Trio de Ouro” em todas as suas formações, tendo sido ele o principal idealizador e entusiasta do conjunto. A briga espalhada através de jornais e músicas com Dalva de Oliveira rendeu-lhe a pecha de arrogante, mal humorado e machista, mas mais do que isso, rendeu pérolas do quilate do nome que acompanhava o trio no qual cantou por mais de cinco décadas, até o último ano de sua vida.

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Crítica: música do “Tao do Trio” desfia harmonia celestial

“desculpe a hora
em que vim lhe acordar
É que o sol
vem tingindo de ouro
a barra do mar” Lydio Roberto & Etel Frota

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Antes de dizer, já sabemos. Que Etel Frota é poeta. Que a música é de Curitiba. Essa evocação celeste que permeia todo o disco do “Tao do Trio”, formado por Suzie Franco, Fernanda Sabbagh e Cris Lemos, e que se dedica inteiramente pela primeira vez ao cancioneiro de uma mulher, permite-nos aferir conjecturas que vão além do visto, pois sobrepuja alguma coisa do instinto. É de se sublinhar a intimidade com que as vozes nos laçam logo à primeira ouvida. Por isso lhe percebemos o sotaque “terreiro e universal”. “Flor de Dor” capta em harmonias delineadas por Vicente Ribeiro, responsável pelos arranjos e a direção musical, o lirismo de uma poetisa que trama suas histórias.

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