Crítica: exposição “Formas do Moderno” organiza síntese do movimento

“… e parecem ignorar que poesia é tudo: jogo, raiva, geometria, assombro, maldição e pesadelo, mas nunca cartola, diploma e beca.” Oswald de Andrade

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Com o intento de sintetizar o que foi a “Semana de Arte Moderna de 1922” e seus desdobramentos para a cultura brasileira, caracterizados pelo que se convencionou chamar “Modernismo”, a exposição “Formas do Moderno”, em cartaz na Casa Fiat de Cultura de Belo Horizonte até o próximo dia 8 de maio, com entrada gratuita, alcança seu objetivo. Curta, a mostra dá conta dos principais pilares e elucidações mais caras aos artistas, o que é possível se constatar, por exemplo, na utilização das cores por Flávio de Carvalho e Cícero Dias, das formas por Hélio Oiticica e Bruno Giorgi e do motivo em Lasar Segall, Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Alberto da Veiga Guignard, José Pancetti e muitos outros, dentre eles a reconhecida Tarsila do Amaral, cujas obras só aparecem em vídeo, esse o principal deslize da curadoria, a cargo de Valéria Piccoli, com quadros e esculturas da coleção que pertence à Fundação Edson Queiroz. O prospecto da exibição, diminuto em informações e impresso em apenas uma folha, também deixa a desejar.

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Análise: Naná Vasconcelos foi músico da origem

“vento/que é vento/fica
parede/parede/passa
meu ritmo/bate no vento/e se
des pe da ça” Paulo Leminski

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Naná Vasconcelos foi um tipo raro na música brasileira. Não era pra qualquer um, e misturava, em seu caldo, todos os gostos, ciente da abordagem popular que sempre o caracterizou. Natural do Recife teve em seus primeiros anos as influências de Jimi Hendrix e Villa-Lobos, tão díspares quanto complementares para o estilo harmônico que criou. O percussionista, que brincou e reinventou tons e modalidades para diversos instrumentos, mas, sobretudo, o berimbau, tão caro e essencial aos nativos indígenas e povos africanos que aqui chegaram quanto da ocupação do país pelos portugueses, já era uma figura de destaque mundo afora, por diversas turnês que empreendeu pela Europa e América do Norte, fosse acompanhando as bandas de Gilberto Gil, Milton Nascimento e outros, ou como artista principal; quando gravou, com Jards Macalé, em 1994, uma espetacular jam session feita em uma tomada só, batizada, como o disco, de “Let´s Play That”, um marco de irreverência que deixa ainda mais claro o caráter inventivo e libertário da obra de Naná.

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Centenários 2016: Silas de Oliveira pertence ao panteão do samba

“Sinto, abalada minha calma
Embriagada minha alma
Efeito da tua sedução” Silas de Oliveira & Joaquim Ilarindo

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Silas de Oliveira morreu e nasceu numa roda de samba. Embora o pai não tenha concordado, por suas convicções pastorais e protestantes, Silas começou a ser Silas quando fundou, junto de seus pares, dentre eles o inseparável Mano Décio da Viola, a Escola de Samba do Império Serrano, e para sempre foi batizado entre batuques, pandeiros e tamborins. Conhecido, sobretudo, pela atividade nos desfiles de carnaval, compositor arguto e perspicaz que era de temas históricos para os tradicionais sambas-enredo, também merecem destaque seus sambas de roda, tais como “Meu Drama”, popularmente chamado “Senhora Tentação”, “Cruel Paixão” e “Desprezado”. É destas canções que emergiram versos do quilate de “será que o amor por ironia/move esta fantasia, vestida de obsessão?”, regravados por ninguém menos do que Cartola; e “amanhece e anoitece/eu sei que nesse mundo tudo se fenece/então porque essa paixão/do meu coração não desaparece?”, e etc.

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Análise: 400 anos da morte de William Shakespeare, o bardo inglês

“‘Há algo de estranho, e que agora se
julgaria muito afetado na linguagem de Shakespeare
Cujos pensamentos comuns estão expressos em palavras
incomuns.’” Ezra Pound

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Muitos já questionaram se ele realmente existiu, tal como Cristo ou até mesmo Deus. E a comparação não é em nada gratuita. Para além do “Ser ou não ser”, o autor de “Romeu & Julieta” talvez seja tão conhecido quanto os outros dois, ao menos indiretamente. Está, por exemplo, na culinária mineira, uma das mais tradicionais do Brasil, na combinação de queijo com goiabada que leva o nome de uma das peças românticas do dramaturgo. Vira e mexe reaparece nos comentários políticos, quando se diz que algo não anda bem: “Há algo de podre no Reino da Dinamarca”, recorrem, trocando por vezes o nome do país.

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Crítica: “Amor & Sexo” é melhor quando não se leva a sério

“Amor é bossa nova/Sexo é carnaval” Arnaldo Jabor & Rita Lee

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Transmitido agora aos sábados à noite, o programa “Amor & Sexo”, comandado por Fernanda Lima na Rede Globo dá um respiro de liberdade na grade da sempre tão vigilante emissora. Longe de ser ousada, a atração atende ainda às premissas da nossa classe média, mas serve como aperitivo para dispersar nosso pedantismo anacrônico e o conservadorismo latente. Embora não chegue perto da transgressão com que programas da TV por assinatura já trataram do assunto para os padrões da nossa TV aberta é algo novo.

Fernanda Lima tem desenvoltura com o tema e, de acordo com a abordagem proposta, não incomoda ninguém, pelo contrário. Mas o melhor da festa são os comentaristas amadores, que garantem, senão rebeldia, ao menos alguma irreverência. São os casos de Xico Sá, Mariana Santos, José Loreto e Otaviano Costa, além de outros convidados que se revezam, e que não se levam absolutamente a sério, a grande consagração do programa, não sendo a única, mas certamente a mais efetiva. Nem tudo são flores nesse reino da Dinamarca.

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