Uma viagem inesperada

“E é sempre melhor o impreciso que embala do que
o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba
não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido
da vida…” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

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Na cidade aonde ir para o treinamento ela própria lateja calma, saliente, distante. Como duas moças abandonadas num abraço para se proteger do frio. Esfinge de perfil silencioso, bege ao céu, cinza ao mar. O peito quer escapar do espartilho como pombas da gaiola. Carrega consigo o doce de mamão. No interior do automóvel isolante e sereno as mãos a aviltar vasilhas, lavar as louças de uma pia entupida e metálica prestes a derrapar em espiral. Pela janela a tarde pasma. Da anfitriã são escusas as explicações: passarinho na gaiola, gato no sofá, e coordenadas. Uma mulher e um homem. Ele é entroncado, porte médio, braços largos. Ela, baixinha de simpatia fácil, corpo lento, anda com dificuldade.

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Análise: Prince colocou os limites em debate

“já que a noite é um pasto livre, um campo ilimitado, já que a noite é riqueza por moldar, convém abrir na sua escuridão um túnel.” Virginia Woolf

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Se havia uma questão para Prince era a dos limites, ou, antes, da falta deles. Instrumentista completo apareceu no final da década de 1970 para o começo dos anos 1980 como um furacão, e assim permaneceu, lançando um álbum atrás do outro com sucesso de crítica e público. As referências eram várias e a comparação inevitável com Michael Jackson se daria tanto por esse viés quanto a questão da personalidade. Prince, porém, sempre teve uma postura mais proativa, provocadora e imprevisível, o que permite, para trazer ao terreiro nacional, recorrer a uma frase de Cazuza, dita em 1989: “Eu quero ser um Caetano Veloso, amado por uns e odiado por outros, não uma unanimidade como o Roberto Carlos”. Dispensável dizer quem seria Prince nessa história.

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Artigo: Como Dilma entrará para a história do Brasil?

“Nossa história é uma história de traições, alistamentos, deserções, conspirações, motins, golpes de Estado; tudo dominado pela infinita ambição, abuso, desespero, orgulho e inveja. Duas atitudes, duas personalidades parecem sempre estar em conflito na nossa história: a dos rebeldes constantes, amantes da liberdade e, portanto, da criação e da experiência, e a dos oportunistas e demagogos, amantes do poder e, portanto, praticantes do dogma, do crime e das ambições mais mesquinhas. Essas atitudes têm se repetido ao longo do tempo; sempre a mesma retórica, sempre os mesmos discursos, sempre o estridente aparato militar asfixiando o ritmo da poesia ou da vida.” Reinaldo Arenas

Ainda é muito cedo para determinar a conjuntura geral, mas uma coisa é certa, Dilma entrará para a história do Brasil ao menos por dois motivos. Terá sido a primeira mulher a ser eleita presidente da nação e, muito provavelmente, a única que perderá o mandato por operações de crédito. Eleita pela primeira vez em 2010, inventada politicamente por Lula, cumpriu a função até 2014 e se reelegeu no mesmo ano para mais quatro anos, interrompidos antes da metade. Presa e torturada durante o período da ditadura militar, não é de se espantar que seja descrita por seus pares como uma pessoa rígida e fechada, o que certamente contribuiu para que os apoios políticos em torno de sua figura paulatinamente desmoronassem. Dilma nunca possuiu a habilidade de Lula.

Ao contrário de Fernando Collor, impedido em 1992, por denúncias de corrupção, e eleito à frente de um partido nanico, Dilma, embora com larga trajetória pelo PDT de Leonel Brizola, se elegeu pelo Partido dos Trabalhadores. Aos que apregoavam o enterro da bandeira que desestimulou muitos de seus apoiadores ao longo do tempo, a surpresa, pois o efeito pode ter sido o contrário. Uma das conclusões que se pode tirar do longo processo até a queda de Dilma é que o PT, um partido nitidamente de porte médio, se acreditou grande, afinal esteve por mais de 13 anos dominando o poder no âmbito federal. Porém, só o conseguiu ao se unir às bancadas conservadoras, o que, mais uma vez, apenas foi possível de ser costurado pela ampla capacidade política de Lula, e que contemplou em seu governo evangélicos e radicais de esquerda, Paulo Maluf e Aloizio Mercadante. Mas a convivência chegou ao fim.

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Crítica: “Nós”, novo espetáculo do grupo Galpão, enaltece a comunhão

“Se o meu passado foi lama/Hoje quem me difama
Viveu na lama também/Comendo a mesma comida
Bebendo a mesma bebida/Respirando o mesmo ar…” Paulo Marques & Ailce Chaves

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A capacidade de lançar um olhar novo sobre textos clássicos permitiu ao grupo “Galpão” priorizar dramaturgias de autores consagrados ao longo de sua trajetória, sem, com isto, cair na reiteração ou na reverência pura, muito pelo contrário. Desta feita, porém, a companhia leva à cena um espetáculo contemporâneo, com direção de Marcio Abreu que também auxilia na dramaturgia com Eduardo Moreira. “Nós” alcança o mérito de abordar questões de momento sem perder a sua complexidade histórica e temporal, inclusive a partir do recurso cênico da repetição; e prova o quanto é possível panfletar com inteligência e resultado, desde que munido de duas características básicas: humor e sagacidade. O que é válido, até, para o enfoque trágico, quando se apontam dramas modernos sem resvalar no piegas, graças à poética proposta.

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Folclore indígena do leste de Minas

“Nomes em que você pensa –
Campânula-de-abril, Cachimbo-de-índio,
Pequenino

Caule sem espinhos,
Lago em cujas margens, imagens
Pudessem ser clássicas e imensas

Não esse tenso
Torcer de mãos, esse teto
Escuro e sem estrela.” Sylvia Plath

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O veludo detém a resposta e impede a passagem. Veludo azul encobre a luz. Veludo grosso, escuro, ondula e mantém-se firme. Como todo ser dotado de expectativa e preconceito surpreende-se. As palhas cobrem os telhados das ocas e também sobre o chão. A erva incinera vermelha no cachimbo de espiga de milho. O lago abundante de peixes e crianças nuas a brincar. Cabelos lisos cobrem toda a testa e chegam a tocar sobrancelha. Mas isso foi no princípio.

Ao clima quente e seco não se acostumaram. Como todo ser dotado de costume é também de saudade. Penas enfeitam pescoços, calcanhares e robustos alargadores de madeira pelas orelhas. A vida que se modifica finda e volta. Como água. O massacre dos jesuítas não os diz nada. Mas a restauração da água. Pelas costas veio o boi bravo. Pela sombra das crianças mortas. Tentaram lhe tocar o chifre, acostumadas com a espécie nova de búfalo.

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