Causo do sul de Minas

“O silêncio sustenta caules
em que o perigo gorjeia.” Ferreira Gullar

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A balança pende para o lado dos mais fortes. A balança pende para o progresso. Reprimido num corpo por demais curto para suas náuseas e ataques histéricos, naquilo onde se confina a invocação da pessoa: um cão de guarda, pronto para o ataque todo tempo. Caçador de onça atrevida aproveita a caminhada ao morro onde a bichana deve estar escondida. Diz sem indignação na voz, certo de que fala com obediência a Deus e convicção do pleito. O pai afunda-se na bebida. A mãe cuida das atividades domésticas, cuida dos filhos. Triste realidade. E que encruzilhada. E que armadilha. A que preparam para a onça conta com o medo e a coragem de homens dispostos ao enfrentamento. De frente, pois o tal mamífero só encontra vítimas quando distraídas recebem pelas costas a surpresa. Ao contar é ainda dia, ao pé do morro esperam do sol o castigo até se recolher. Como o senhor de engenho após bater com chibata no lombo do escravo negro, até deixar-lhe rubras marcas, encaminha-se para a cama, recolhe-se ao lençol branco e dorme lembrando o sangue que tanto ama: de sua virgem esposa, de sua amante crioula, do homem regenerado em dores a lembrar o sacrifício cristão.

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Crítica: “Urgente”, nova peça da Luna Lunera, deflagra opressões do cotidiano

“Daqui a vinte anos: poderei
tanto esperar o preço da poesia?
É preciso tirar da boca urgente
o canto rápido, ziguezagueante, rouco,
feito da impureza do minuto” Carlos Drummond de Andrade

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Existe o tempo circular, e o cronológico. Algumas coisas se repetem, outras mudam. Em seu novo espetáculo a Cia Luna Lunera traz Zé Walter Albinati de volta aos palcos, e arrisca parceria inédita com a Areas Coletivo de Arte, o que resulta na direção de Miwa Yanagizawa e Maria Sílvia Siqueira Campos, também participantes no texto com a trupe lunática e do cenário, junto de Yumi Sakate. A ousadia revela-se exitosa. Permanece, como de outras montagens e que se estabelece a cada nova peça como identidade da Luna Lunera a investigação das emoções e razões humanas, numa abordagem predominantemente existencial que não exclui contanto aspectos políticos, sociais e estéticos, sobretudo. A iluminação de Felipe Cosse e Juliano Coelho, o figurino e o cenário conseguem ótimas soluções para emoldurar o conteúdo. “Urgente” parte da vivência de cinco personagens que têm algo em comum para além do espaço compartilhado. Os atores trafegam entre fantasias reais.

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A morte da mãe de João Cornélio

“mas a política que domina a nossa edilidade não é aquela que Bossuet definiu. A nossa tem por fim fazer a vida incômoda e os povos infelizes; e os seus partidos têm por programa um único: não fazer nada de útil.” Lima Barreto

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Ainda na sala da lady. Embora um recuasse e o outro não percebesse. Na hora em que a botija faz o estreito colo virar asa. Pelos lados o detém: num abraço ameno. Os biscoitinhos fritos são aceitos: um a um: mais de um: prenhe os dedos. Para o café a espera que talvez nunca chegue. Oferece inédito prato de biscoitinhos fritos a fim de interromper o aperto. Enquanto o papo desbarata o bico de pelicano: comem por deferência. A insuficiente conversa fiada na terra não se destina a costurar a camisa aberta, nem a pregar os botões soltos da calça comprada na feira, muito menos a mexericos no caule da nêspera esbelta. Para acalentar o dia preenche a tarde ignorante de tarefas: das básicas às irrestritas. João Cornélio tem porte e gala para botar medo no ragazzi e no guri. O chapéu de áspero couro descai da cabeça ao entrar em qualquer recinto, parte da educação recebida através da mãe, uma católica enferma que há tempo agoniza numa retinta cama.

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5 músicas brasileiras a favor da diversidade sexual

“nada importa a não ser a valia do afeto
boca, o sol é a boca de deus” Ezra Pound

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Em tempos de polarização e tendências radicais é bom relembrar o quanto a música e a arte podem contribuir positivamente para esse debate, principalmente quando se trata de aplaudir a diversidade. No caso as diversas formas de amor e união afetiva, já reconhecidas, inclusive, pelo Estado brasileiro, são cantadas em verso e prosa por nomes como o performático Edy Star, Cássia Eller, Angela Ro Ro, Caetano Veloso e Erasmo Carlos, que homenageou a mais famosa transexual do país, Roberta Close. São cinco canções que exaltam, sobretudo, a beleza da liberdade. Mas poderiam ser muitas mais, já que o amor não tem limites tal qual a música e a arte. Saravá!!!!

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Estória de Vanessa

“A sensualidade, que nasce conosco e se manifesta ainda cega,” Raymond Radiguet

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Capivara, paca, jaguatirica, pássaro, mico na beira da estrada colhe fruta, onça no meio do caminho avista a vítima turca. Mil animais à cabeça para decifrá-la. A secretária tira o fôlego, coloca em risco a saúde. Nos contornos duma embarcação, duma duna: naufraga. Quer se afogar nas coxas da mulher robusta, pernas bem torneadas: quanto custa? Vanessa não protege o decote de indiscretos olhos. Lógico: eles procuram. Feitos um para o outro. Como espiga de milho cozido e manteiga: faca de suicida e veia: decote e olhos: o perigoso joio de unir o útil ao agradável trigo. No relance das ambulâncias o impulso as sirenes dispara: jogá-la debruçada sobre a mesa, espalhar papéis, niná-la com uma bela canção de Camões, ora se vejam, pensam abobrinhas, dispensa.

Volta ao território do qual havia sido expulso dias antes, por conta da indiscrição jornalística: essa buzina de arguir posições aos que se deitam sem Kama Sutra ante os cotovelos, ou dos que se derramam em bares negros e ignoram a presença de Lupicínio Rodrigues ao chorar de vingança pela azeitona no espeto onde jaz Martini. O pescoço de Vanessa para vampiro nenhum botar defeito. Nele se invoca a aura de um anjo despido de moral, vergonha ou culpa. Nele se reivindica: o direito de ser colar de pérolas, bijuterias, pedras chinfrins. Nele se propicia o ataque de vândalos sanguinários que ainda assim seriam perdoados por todos os júris, tribunais, advogados. Tamanha a devastação, o impacto no amante, o voyeur é puro.

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