Entrevista: Cátia de França apresenta seu caleidoscópio multicolorido

“À cigarra, queimando-se em música,
ao camelo que mastiga sua longa solidão,
ao pássaro que procura o fim do mundo,
ao boi que vai com inocência para a morte.

Sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

Não como o resto dos homens.” Cecília Meireles

Cátia de França3_Mariana Kreischer

Se para o artista a definição é um limite, deste mal Cátia de França não padece. Na estrada, literalmente, há praticamente 40 anos, embora sempre retorne às origens, na Paraíba, em João Pessoa e seguindo a tradição lírica dos maiores prosadores e poetas de sua terra de palmeiras onde canta o sabiá, a cantora, compositora, escritora, artista plástica, com bem aventuranças pela sétima arte, une o regionalismo ao universal mantendo a essência de seu trabalho. Para este ano, prepara novidades, depois de algum tempo longe das estantes fonográficas. A música que nomeia o novo e aguardado álbum, “Hóspede da Natureza”, como de costume, carrega influências literárias. “A identidade do disco é múltipla. A veia aorta é Henry David Thoreau, a letra da canção-título veio diretamente do livro dele, ‘Walden ou, A Vida nos Bosques’ (de 1847, considerada a bíblia do movimento hippie). Mas nem todas as faixas são preocupadas com ecologia. É um apanhado de quem sou eu nesse tempo todo de careira. É um olhar que passeia por diversas circunstâncias, é como se fosse uma foto minha, feita de vários ângulos”, compara com sabedoria, Cátia.

Com lançamento feito pelo selo Porangareté, iniciativa do filho e da ex-companheira de Cássia Eller, Maria Eugênia, em parceria com a Natura Musical, o disco teve um longo processo de gestação, com gravações iniciadas no ano de 2005 e finalizadas em 2006, há quase dez anos atrás. Toda essa demora foi também fruto da falta de apoio e incentivo ao projeto que, agora, segundo Cátia, recebe as “condições à altura do que merecia”. Uma turnê já está programada por regiões do país em que a entrevistada morou e fez história, como Recife, João Pessoa, sua terra natal, Vitória no Espírito Santo, e as capitais de São Paulo e Rio de Janeiro. O novo álbum conta com 14 faixas, quase todas inéditas, e traz no currículo a produção de Rodrigo Garcia, além de músicos de peso acompanhando a cantora que é também instrumentista, tais como Marcelo Bernardes (integrante de longa data da banda de Chico Buarque), a percussionista Lan Lan, o guitarrista Walter Villaça e outros não menos importantes, como o baterista Alex Merlino, Jander Ribeiro, responsável pela pandeirola, Zé Marcos nos teclados, e, por fim, Nando Vásques no baixo.

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A história de Frida, uma guerreira

“Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo.” Clarice Lispector

frida-guerreira

Ninguém ganha o nome de Frida à toa, seja por batismo consentido ou escolha alheia. Desde que a pintora mexicana tornou-se quase uma unanimidade mundial, nos idos de 1930 e 1940, a palavra se transformou, para além de seu sentido designativo, em símbolo de luta, perseverança, força, e, principalmente, ícone da liberdade feminina e valorização da mulher, além de trazer intrínseca a capacidade de reelaborar a dor real em beleza, fantasia e superação. Frida sofreu com doenças e acidentes, e a cada martírio que lhe atingia o corpo, preenchia com tintas as cores de sua alma em quadros impressionantes. Há que se dizer que a suprema consagração e alegria, para um artista, ao contrário dos políticos e outras figuras proeminentes de nosso estrato social, não é virar nome de rua, ponte, avenida, mas sim nome de cachorro.

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Cerimônia Fúnebre

“Da mesma forma, deve haver inúmeras realidades, não só esta que percebemos com nossos sentidos embotados, mas um amontoado de realidades se sobrepondo umas às outras. É medo e presunção acreditar em limites. Não existem limites, nem para os pensamentos, nem para os sentimentos. É a ansiedade que impõe limites.” Ingmar Bergman

goya

O acontecimento mais expressivo de nossas vidas é a morte. Engraçado – era com ironia e desencanto que utilizava a palavra; o velório com que sonhara durante a juventude, com todos e os mais variados amigos ao redor, uns malucos, drogados, pervertidos sexuais, mulheres lascivas e recatadas, algumas que apenas desejara, outras das quais provara o sabor da carne, e mais inúmeros tantos sérios como uma gravata, com a mesma morbidez nos olhos característica dos guaxinins, jamais aconteceria.

Sonhara com a cerimônia, aquela espécie de ritual macabro como uma apolínea consagração para uma existência dionisíaca, crente de que poderia aproveitar da vaidade que os choros e lágrimas vertidas em sua memória tornariam, de certa maneira, e nesse momento, digna, ignorando o seu quase absoluto ceticismo. Pois na hora da nossa morte o sonho vale mais à caveira que apodrece, filosofou em voz baixa, quase para si, disperso que estava do público, e somos coroados e reverenciados como uma perfeita Madonna, límpida e livre de pecados, tão puros e festejados qual na hora do nascimento, só que já passamos pela vida, agora nos tornamos conhecidos e as pessoas estabeleceram razões e motivos concretos para debruçar sobre nós suas emoções, angústias, desejos e expectativas, constatou ainda mais para dentro de suas entranhas, aquele resto de rancor mastigado que o reduzia a bolor.

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Caderno H2O – 08/07/2016

“Continuo achando graça nas coisas, gostando cada vez mais das pessoas, curiosa sobre tudo, imune ao vinagre, às amarguras, aos rancores.” Zélia Gattai

Deboche

Bicicletas
O deboche
Vem pedalando a bicicleta
Com óculos arredondados
De aros azuis
Puxa a manilha aos dentes.

O deboche
No – jor-na-lis-mo
é uma Qualidade Crítica.

QUE AINDA ACREDITA EM INDEPENDÊNCIA
SOU DE UMA GERAÇÃO
POIS QUE A AR
TE
IMITA TUDO

quanto ao jor-na-lis-mo,
ocupa papel de platéia
em minhas prioridades,
com sua relativa importância,
onde quem sobe ao palco?

É a Arte!

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Centenários 2016: O Samba, Raiz Cultural do Brasil

“O Samba da minha terra deixa a gente mole/Quando se canta todo mundo bole
Quem não gosta de samba, bom sujeito não é/É ruim da cabeça, ou doente do pé
Eu nasci com o samba, no samba me criei/E do danado do samba, nunca me separei” Dorival Caymmi

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O samba já começou com um buchicho, pois ao contrário do que cantaria décadas depois a música de Evaldo Rui e Fernando Lobo sobre a tal “Nega Maluca”, todos se imputavam a paternidade da cria. Do estribilho para o muxoxo foi um passo, tudo porque a canção cantada aos milhares no terreiro de Tia Ciata foi registrada somente no nome de um par: Donga e Mauro de Almeida. Bem verdade que o segundo nunca fez muita questão do fato, ao contrário do primeiro. “Pelo Telefone”, gravada em dezembro de 1916 e lançada em disco Odeon recebeu assim a voz do cantor Bahiano e da Banda da Casa Edison. Tal como o samba que inaugurava morreu, ressuscitou e requebrou em diversas vozes, em períodos e com abordagens das mais variadas. Ainda naquela década teve por “cavalo” Almirante, e mais tarde nomes como Martinho da Vila, Beth Carvalho, Chico Buarque e Paulo Moura.

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