Análise: arquiteta Zaha Hadid levou a ética do belo a qualquer custo

“O golpe de calcanhar categórico de minha pena escande como uma perna esquerda o zapateado mais altivo, o zapateado das mandíbulas de meu cérebro! Olé!” Salvador Dalí

performing-arts-center-zaha

Dois dos maiores poetas brasileiros divergem quanto à condição da poesia. O pantaneiro Manoel de Barros alude às “máquinas que servem para não funcionar” e que podem um dia “milagrar de flores”. E arremata: “Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!”. Mario Quintana, gaúcho, prefere outra imagem, diz que “um poema que não te ajuda a viver e não te prepara para a morte não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras!”. Como sempre a poesia, território por natureza do lúdico e do contraditório, em sua concisão e densidade, abrange interpretações, não raro, complexas e incompatíveis, que vão além do exposto. Interessante notar, portanto, que Manoel usa a metáfora da “máquina” para louvar o “imprestável”, e Quintana a do “chocalho”, um brinquedo, a fim de mencionar função e conferir sentido ante o mundo ao redor.

Veja mais

Crítica: Silvio Biondo cria clássicos ao unir tradição e modernidade

“Jovens de rosto impassível
na ribeira se desnudam,
aprendizes de Tobias,
também Merlins de cintura,
para aborrecer o peixe
em irônica pergunta
se ele quer flores de vinho
ou saltos de meia-lua.” García Lorca

silvio-biondo

A identificação revela-se logo no primeiro momento, ou antes, no primeiro acorde. Acreditamos já conhecer aquelas músicas quando, na verdade, tratam-se de novidades criadas e apresentadas por Silvio Biondo que, ao unir a tradição à modernidade, nos apresenta estruturas que têm todos os componentes para se tornarem clássicos da canção popular brasileira, basta que a chance lhes seja dada. Músico de Santa Catarina, natural de Chapecó, mas residente em Curitiba, ele é acompanhado, neste trabalho de estreia em estúdio por Simone Mello ao violão, Marcelo Wengart na percussão e Glauco Sölter a cargo do baixo e da direção musical. Valderval de Oliveira Filho e Eron Barbosa adicionam suas percussões em algumas faixas. Todos irretocáveis.

Veja mais

Crônica do nordeste de Minas

A palo seco existem
situações e objetos:
Graciliano Ramos,
desenho de arquiteto,

as paredes caiadas,
a elegância dos pregos,
a cidade de Córdoba,
o arame dos insetos.” João Cabral de Melo Neto

honore-daumier

O velho encontrado no mato aos pedaços. Pedaço de pano rasgado para enxugar o chão. Carpir desavenças: desaforadas lágrimas. Todas as mortes do entardecer. Não hesita em afirmar: há um cachorro bravo, branco, quase lobo, na região. Depena as galinhas, engole os porcos, assusta os humanos e seus ancestrais (almas varam pelas alamedas de Santa Maria). O velho de orelhas grandes e inválidas: é preciso berrar. À pergunta de onde avistara o tal cachorro sucede a luta inglória, que não perece nunca. O velho nos entendeu. E nós entendemos o velho. Sem nenhuma compreensão. Aponta o rastro do degolador de galinhas, porcos, humanos, e outros animais menos importantes para o sustento da região tão impactada por dias presentes, por virem.

A lenda do cachorro branco e bravo acende a dúvida: o encontro com a onça: uma veleidade do sol que castiga, fatiga as vistas e alucina? Os velhos, mais velhos a cada diâmetro, fossem pelos espelhos do automóvel, ou pela antiga caixinha empoeirada de música, com a bailarina contradizendo as horas por suas pernas espichadas que eram ponteiros do relógio, desliza para o enxame de abelhas a cutucar o mel na espremida flor de lótus. Os velhos repercutem nos cascos da cavalgada, e imitam o relinchar de cavalos que já não são nem bravos, nem espertos, nem animados, apenas mansos e tolos. A igrejinha contemplativa é coberta de terra esvoaçante: o martírio dos caminhões e das máquinas de sondagem. Quer dizer: aos meus.

Veja mais

Análise: Tereza Rachel foi uma autêntica atriz de vanguarda

“Deixai que assim se faça o teatro e comecem
As cenas de verdade
Penetrai bem fundo em toda a vida humana!
Se cada qual a vive, não muitos a conhecem,
A muitos ela engana.” Goethe

Tereza-Rachel

Erguer um teatro no período da ditadura militar no Brasil não é para qualquer um. Talvez só para Tereza Rachel e Ruth Escobar, que lhe inspirou. Mulher, descendente de judeus nascida na baixada fluminense, no Rio de Janeiro, Tereza se destacou como uma das mais importantes atrizes do cenário nacional, não apenas por sua atuação diante das câmeras ou nos palcos, mas, em especial, pelas atitudes destemidas e corajosas, conferindo à palavra artista o seu valor de origem. Vanguarda é uma das melhores expressões que se usa para se referir à Tereza, quase sempre ligada a causas nobres, que iam contra o conservadorismo dos costumes e as tentativas de tolher as liberdades. Encenou em seu teatro autores que para além das nacionalidades traziam esses temas para o centro do debate. De Millôr Fernandes a Tennessee Williams, passando por Anton Tchekhov e Mario Vargas Llosa.

Veja mais

Centenários 2016: Newton Teixeira representou a música brasileira de duas décadas

“A deusa da minha rua
Tem os olhos onde a lua
Costuma se embriagar
Nos seus olhos eu suponho
Que o sol, num dourado sonho
Vai claridade buscar” Jorge Faraj & Newton Teixeira

Newton-Teixeira-musica

É da condição dos nossos compositores tornarem-se menos conhecidos que suas obras e mesmo os intérpretes delas. Também permanece na penumbra o motivo pelo qual Newton Teixeira supostamente fugia da polícia quando se encontrou com Sílvio Caldas numa noite de seresta. O bairro era a Vila Isabel, no Rio de Janeiro, reduto da boemia carioca que não podia deixar de contar com Noel Rosa, seu poeta, e outros bambas menos notórios, mas que foram fundamentais na consolidação do gênero mais arraigado à miscigenada raiz musical brasileira, o samba. Newton começou pelo estilo, mas se consagrou, sobretudo, pela marchinha “Mal me quer”, em parceria com Cristóvão de Alencar, gravada por Orlando Silva, e a valsa “Deusa da minha rua”, com Jorge Faraj, o maior sucesso de toda sua carreira, lançada pelo Caboclinho Querido.

Veja mais