Análise: Fernando Faro procurou a essência

“Alma é o nome do lugar onde se encontram esses pedaços perdidos de nós mesmos. São partes do nosso corpo como as pernas, os braços, o coração. Circulam em nosso sangue, estão misturadas com os nossos músculos. Quando elas aparecem o corpo se comove, ri, chora…” Rubem Alves

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Foi na ausência de Fernando Faro que Antônio Abujamra ganhou a incumbência de entrevistar Maysa para o programa “Estudos”, da TV Cultura, fortemente influenciado pelo mais que clássico “Ensaio”. “Baixo”, como era conhecido o sergipano de Aracaju criado em Salvador, na Bahia, teve uma reunião de última hora e passou o bastão para o âncora do também marcante “Provocações”. O resultado foi uma das mais fortes entrevistas já concedidas por uma artista, muito pelo temperamento de Maysa e o despojamento oferecido pela atração. Esse episódio, no entanto, em que a participação de Faro se deu em forma de ausência é fundamental na compreensão da ética e dos valores do jornalista que visava alcançar, sobretudo, a essência, o sentido.

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Análise: 400 anos da morte de Miguel de Cervantes, o inventor do Dom Quixote

“O sonho é o alívio das misérias dos que as têm acordados.” Miguel de Cervantes

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Dom Quixote está na música, nas artes plásticas, no cinema e no teatro, e por trás do herói mais romântico da literatura moderna está Miguel de Cervantes, responsável por cunhá-lo na origem: a literatura. Famoso por combater os moinhos de vento, o “Cavaleiro da Triste Figura” tornou-se um símbolo da ilusão, do lúdico, o que talvez contribua para seu encanto junto a crianças e adultos; os primeiros, ainda esperançosos, e os últimos saudosos da inocência perdida. Para além dos dois volumes que contam a trajetória do Quixote – que designou termo utilizado para expressar “loucura” – Cervantes escreveu pouca coisa, nenhuma delas conhecida do grande público na posteridade nem em seu tempo. Este único êxito foi suficiente para cravá-lo na história da literatura.

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Uma viagem inesperada

“E é sempre melhor o impreciso que embala do que
o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba
não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido
da vida…” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

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Na cidade aonde ir para o treinamento ela própria lateja calma, saliente, distante. Como duas moças abandonadas num abraço para se proteger do frio. Esfinge de perfil silencioso, bege ao céu, cinza ao mar. O peito quer escapar do espartilho como pombas da gaiola. Carrega consigo o doce de mamão. No interior do automóvel isolante e sereno as mãos a aviltar vasilhas, lavar as louças de uma pia entupida e metálica prestes a derrapar em espiral. Pela janela a tarde pasma. Da anfitriã são escusas as explicações: passarinho na gaiola, gato no sofá, e coordenadas. Uma mulher e um homem. Ele é entroncado, porte médio, braços largos. Ela, baixinha de simpatia fácil, corpo lento, anda com dificuldade.

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Análise: Prince colocou os limites em debate

“já que a noite é um pasto livre, um campo ilimitado, já que a noite é riqueza por moldar, convém abrir na sua escuridão um túnel.” Virginia Woolf

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Se havia uma questão para Prince era a dos limites, ou, antes, da falta deles. Instrumentista completo apareceu no final da década de 1970 para o começo dos anos 1980 como um furacão, e assim permaneceu, lançando um álbum atrás do outro com sucesso de crítica e público. As referências eram várias e a comparação inevitável com Michael Jackson se daria tanto por esse viés quanto a questão da personalidade. Prince, porém, sempre teve uma postura mais proativa, provocadora e imprevisível, o que permite, para trazer ao terreiro nacional, recorrer a uma frase de Cazuza, dita em 1989: “Eu quero ser um Caetano Veloso, amado por uns e odiado por outros, não uma unanimidade como o Roberto Carlos”. Dispensável dizer quem seria Prince nessa história.

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Artigo: Como Dilma entrará para a história do Brasil?

“Nossa história é uma história de traições, alistamentos, deserções, conspirações, motins, golpes de Estado; tudo dominado pela infinita ambição, abuso, desespero, orgulho e inveja. Duas atitudes, duas personalidades parecem sempre estar em conflito na nossa história: a dos rebeldes constantes, amantes da liberdade e, portanto, da criação e da experiência, e a dos oportunistas e demagogos, amantes do poder e, portanto, praticantes do dogma, do crime e das ambições mais mesquinhas. Essas atitudes têm se repetido ao longo do tempo; sempre a mesma retórica, sempre os mesmos discursos, sempre o estridente aparato militar asfixiando o ritmo da poesia ou da vida.” Reinaldo Arenas

Ainda é muito cedo para determinar a conjuntura geral, mas uma coisa é certa, Dilma entrará para a história do Brasil ao menos por dois motivos. Terá sido a primeira mulher a ser eleita presidente da nação e, muito provavelmente, a única que perderá o mandato por operações de crédito. Eleita pela primeira vez em 2010, inventada politicamente por Lula, cumpriu a função até 2014 e se reelegeu no mesmo ano para mais quatro anos, interrompidos antes da metade. Presa e torturada durante o período da ditadura militar, não é de se espantar que seja descrita por seus pares como uma pessoa rígida e fechada, o que certamente contribuiu para que os apoios políticos em torno de sua figura paulatinamente desmoronassem. Dilma nunca possuiu a habilidade de Lula.

Ao contrário de Fernando Collor, impedido em 1992, por denúncias de corrupção, e eleito à frente de um partido nanico, Dilma, embora com larga trajetória pelo PDT de Leonel Brizola, se elegeu pelo Partido dos Trabalhadores. Aos que apregoavam o enterro da bandeira que desestimulou muitos de seus apoiadores ao longo do tempo, a surpresa, pois o efeito pode ter sido o contrário. Uma das conclusões que se pode tirar do longo processo até a queda de Dilma é que o PT, um partido nitidamente de porte médio, se acreditou grande, afinal esteve por mais de 13 anos dominando o poder no âmbito federal. Porém, só o conseguiu ao se unir às bancadas conservadoras, o que, mais uma vez, apenas foi possível de ser costurado pela ampla capacidade política de Lula, e que contemplou em seu governo evangélicos e radicais de esquerda, Paulo Maluf e Aloizio Mercadante. Mas a convivência chegou ao fim.

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