Ginga da Capoeira no Brasil

“esta se quer uma árvore
firme na terra, nativa,
que não quer negar a terra
nem, como ave, fugi-la.” João Cabral de Melo Neto

Joga, luta e dança. Perna, braço e atabaque. Berimbau, Brasil e África. Da ponta do pé ao corte dos olhos. Madame Satã. Zumbi dos Palmares. Besouro, diabo. Lança por cima da cabeça, comprida, diáspora. Volta como bumerangue, chicote. Estala. Pandeiro, agogô, viola. Discípulo, mestre, canto das águas. Vem Janaína, rainha do Mar. Vem Iemanjá. Luta, dança e joga. Por cima, por baixo, por entre os escravos. Trazidos da África. Brasil, berimbau, atabaque. Perna, amuleto, braço. Capoeira cai fácil gaivota. Terras, palmeiras e sábia. Gorjeiam os pilares. Passo na areia, estilete, corta. Peito pra frente, tronco pra trás, a revolta. Palmeiras, palmares, madame. Besouro zumbi satã.

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Caderno H2O – 20/05/2016

“O que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.” Clarice Lispector

POEMA1

Bufa
A vida é muito grave mas não é séria.
A vida já existia antes da comédia.
A vida já existia antes da Tragédia.
A vida é Hollywood, Shakespeare e a Grécia.
A vida ergue sua saia e espia a greta.
A vida é pó de aranha e mel de abelha.
A vida é ópera bufa, canto da sereia.
A vida é uma ilusão, como um espelho.
Quem olha pra vida sério ela faz careta
A vida é muito grave, mas não é séria.

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3 filmes brasileiros sobre o Futebol

“quero a vitória/do time de várzea
valente/covarde/a derrota/do campeão
5×0/em seu próprio chão
circo/dentro/do pão” Paulo Leminski

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Considerado até hoje o esporte mais popular do mundo, criado pelos ingleses e reinventado pelos brasileiros, o futebol segue despertando paixões, e como terreno fértil da emoção não poderia ser deixado de lado por uma das artes que mais se valem desta qualidade, o cinema. No âmbito nacional, a peleja recebeu tratamento distinto de nossos diretores, atores e roteiristas, entre demais envolvidos, porém sempre com a habilidade que transformou o futebol brasileiro no mais reverenciado no planeta através das décadas, embora passe por período de triste decadência em função, principalmente, dos que se utilizaram dele na parte administrativa para benefício próprio. Pertence ao Brasil, porém, a hegemonia em Copas do Mundo, com 5 troféus conquistados, além, é claro, de aqui ter nascido o maior jogador da história, com seus 1281 gols, Edson Arantes do Nascimento, natural de Três Corações, conhecido Pelé.

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A Porta de Todos os Mistérios

“Se as portas da percepção forem abertas, as coisas surgirão como realmente são, infinitas…” William Blake

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Trancada a porta. Gira a maçaneta uma, duas, três, quatro, cinco, incontáveis vezes, inutilmente. Todo o esforço de bíceps e tríceps comprimidos, avermelhados, músculos estouram. Suores chegam a formar pastosas babas de vacas ou dragões da Indonésia, o peso do volume embarga como náusea, ânsia de vômito. Olho caminha ao buraco da fechadura. Pálpebras apertam, depois afrouxam. Cílios caem como gotículas de neve na tempestade. Sobrancelhas reagem pelo barulho imediato. Teto, paredes e piso impõem a posição covarde. Ouve-se do outro lado. O amplo vazio da visão preenchido por solas de sapato no assoalho, talvez tamancos, arrisca o salto.

A esperança é uma abertura constituída de cabeça e tronco, porém agoniza: à falta de auxílio. Não há o manejo dos braços, o aconchego das mãos, o toque dos dedos, o equilíbrio das pernas, a firmeza dos pés, o fraco do calcanhar, nada se estende. O rosto opaco, lustroso e calvo. A nulidade dos membros. Veludo azul encobre a luz. A massa abarca órgãos vitais intermitentes. Respirar, bater, respirar, bater, respirar, bater, respirar. Sopra o tecido, a secura da boca cravada de fendas a oscilar, para cima e para baixo, e cor pálida, um leve esmorecer, pois permanece tapando a paisagem. Veludo grosso, escuro, ondula e mantém-se firme. Amar é do coração como trancar pertence às portas. A esperança uma abertura, uma porta escura, um coração. E está moldada às chaves.

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Análise: 40 anos da morte de Madame Satã, símbolo da luta contra preconceitos

“Eis a noite encantada, amiga do bandido;
Ela vem como cúmplice, a passo escondido;
Lento se fecha o céu como uma grande alcova,
E o homem impaciente em fera se renova.” Baudelaire

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Trocado quando criança por uma égua, para que a mãe pudesse sustentar os dezessete irmãos que permaneceriam, Madame Satã tornou-se uma figura emblemática e contraditória na luta contra os preconceitos arraigados na formação nacional. Negro, pobre e homossexual distinguiu-se de seus pares, sobretudo, pela coragem e inconformidade. Não foram poucas as vezes que frequentou e passou longos períodos encarcerado, cujos motivos que se repetiam tinham a ver com desacato, quando não atingia a prática da violência física que resultou, inclusive, no assassinato de um policial em 1928. Neste famoso caso teria sido insultado reiteradamente por suas condições, inclusive porque Madame Satã não escondia de ninguém qual a sua preferência sexual.

Destacava-se também por outras práticas. Valente, feroz e temido na Lapa, onde passou a residir ainda jovem levando seguramente, para os parâmetros da época, uma vida de malandro, entre michês, bandidos, sambistas e prostitutas, ficou conhecido como dos mais habilidosos capoeiristas de todos os tempos, jogo que utilizava para se proteger e erguer assim sua fama. O que salta aos olhos na trajetória de Madame Satã, porém, cujo nome de batismo, João Francisco dos Santos, foi apagado diante da imagem impressionante de sua personagem, é a desconstrução de paradigmas e a união de paradoxos. Apresentando-se em cabarés decadentes, contra tudo e contra todos, teve, no peito e na raça, o mérito de se exibir travestido com roupas femininas e entoando canções lânguidas e românticas, isto num universo predominantemente machista que se fazia obedecer pela lógica da violência.

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