3 músicas brasileiras para o Dia do Trabalho

“O caminho do sábio é trabalho sem esforço.” Tao-Te-Ching

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Cantado em prosa em verso o trabalho que “dignifica o homem”, nas palavras do sociólogo Max Weber, recebeu de nossos compositores tratamento exemplar e como sempre bastante inventivo. Valendo-se da observação dos costumes, como autênticos cronistas, e conferindo a eles pitadas de ironia, irreverência e até romantismo, o tema foi tratado desde os tempos de Wilson Batista e Herivelto Martins até Chico Buarque de Hollanda, em sua exaltação ao malandro. Seja como for, as 3 músicas brasileiras listadas abaixo em homenagem ao Dia do Trabalho não deixam de revelar certa característica do nosso povo, que leva e trata o ofício como der e vier, das mais diversas formas.

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Análise: Umberto Magnani vestiu de humanidade suas personagens

“Cresce destroço em minhas aparências.
Nesse destroço finco uma açucena.
(É um cágado que empurra estas distâncias?)
A chuva se engalana em arco-íris.
Não sei mais calcular a cor das horas.
As coisas me ampliaram para menos.” Manoel de Barros

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Talvez os principais papéis interpretados pelo ator Umberto Magnani estejam fora do alcance do público em sua maioria, não apenas pelo teatro que, além de prescindir do registro se habituou a um nicho, mas, sobretudo, pelo cinema, e que ainda poderá ser revisto. Foi através da sétima arte que Magnani teve a oportunidade de desenvolver, munido de seu rosto expressivo, ao mesmo tempo bondoso e marcado, uma das principais qualidades do ofício, a de desmentir a aparência, e oferecer uma personagem contraditória em si. Com sua habitual verve sarcástica e pessimista o diretor Sérgio Bianchi dirigiu Umberto em “Cronicamente Inviável” na pele de um escritor com as mais escusas premissas. A sensibilidade com que o ator leva a história é chocante.

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Análise: Fernando Faro procurou a essência

“Alma é o nome do lugar onde se encontram esses pedaços perdidos de nós mesmos. São partes do nosso corpo como as pernas, os braços, o coração. Circulam em nosso sangue, estão misturadas com os nossos músculos. Quando elas aparecem o corpo se comove, ri, chora…” Rubem Alves

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Foi na ausência de Fernando Faro que Antônio Abujamra ganhou a incumbência de entrevistar Maysa para o programa “Estudos”, da TV Cultura, fortemente influenciado pelo mais que clássico “Ensaio”. “Baixo”, como era conhecido o sergipano de Aracaju criado em Salvador, na Bahia, teve uma reunião de última hora e passou o bastão para o âncora do também marcante “Provocações”. O resultado foi uma das mais fortes entrevistas já concedidas por uma artista, muito pelo temperamento de Maysa e o despojamento oferecido pela atração. Esse episódio, no entanto, em que a participação de Faro se deu em forma de ausência é fundamental na compreensão da ética e dos valores do jornalista que visava alcançar, sobretudo, a essência, o sentido.

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Análise: 400 anos da morte de Miguel de Cervantes, o inventor do Dom Quixote

“O sonho é o alívio das misérias dos que as têm acordados.” Miguel de Cervantes

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Dom Quixote está na música, nas artes plásticas, no cinema e no teatro, e por trás do herói mais romântico da literatura moderna está Miguel de Cervantes, responsável por cunhá-lo na origem: a literatura. Famoso por combater os moinhos de vento, o “Cavaleiro da Triste Figura” tornou-se um símbolo da ilusão, do lúdico, o que talvez contribua para seu encanto junto a crianças e adultos; os primeiros, ainda esperançosos, e os últimos saudosos da inocência perdida. Para além dos dois volumes que contam a trajetória do Quixote – que designou termo utilizado para expressar “loucura” – Cervantes escreveu pouca coisa, nenhuma delas conhecida do grande público na posteridade nem em seu tempo. Este único êxito foi suficiente para cravá-lo na história da literatura.

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Uma viagem inesperada

“E é sempre melhor o impreciso que embala do que
o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba
não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido
da vida…” Fernando Pessoa [Álvaro de Campos]

de-chirico

Na cidade aonde ir para o treinamento ela própria lateja calma, saliente, distante. Como duas moças abandonadas num abraço para se proteger do frio. Esfinge de perfil silencioso, bege ao céu, cinza ao mar. O peito quer escapar do espartilho como pombas da gaiola. Carrega consigo o doce de mamão. No interior do automóvel isolante e sereno as mãos a aviltar vasilhas, lavar as louças de uma pia entupida e metálica prestes a derrapar em espiral. Pela janela a tarde pasma. Da anfitriã são escusas as explicações: passarinho na gaiola, gato no sofá, e coordenadas. Uma mulher e um homem. Ele é entroncado, porte médio, braços largos. Ela, baixinha de simpatia fácil, corpo lento, anda com dificuldade.

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