A Previsão da Cigana

“Ó meu corpo, protege-me da alma o mais que puderes.
Come, bebe, engorda, torna-te espesso para que ela
me seja menos pungente.” Marie Noël

John_William_Waterhouse_-_Magic_Circle

A placa indica o local. O marmanjo parrudo de óculos infantis e postura inconstante assegura: a natureza sobreviverá. Ao progresso e à devastação. Quase chora. A mulher de grampos prendendo os cabelos loiros por tintura da farmácia, mistura de água oxigenada, cai aos pedaços. Tolice estar mal cuidada, afinal o acervo possui exemplares raros. Ali estanques na estante poluída e gasta lembram uns carcereiros empoleirados. Sujos, revoltos, bagunçados, carregam o nome luminoso na capa. “Moby Dick”, de Herman Melville, “A Metamorfose”, de Franz Kafka, “Poesia Completa”, de Fernando Pessoa; sem dúvida, exemplares raros, deixam na boca o amargo por ser impossível tocá-los sem sentir o desprezo de estarem tão mal cuidados.

Silenciosa, sobrancelhas em circunflexo, a inquirir para a bonita dama: morena de seios fartos, curvas salientes nos quadros, boca polpuda, polpa de fruta escoa em íris característica: donzela de verdes olhos, Ágata. Ao ler a mão dispensa ensaios: estará presente nos fatídicos acontecimentos, corre perigo, sacrifícios e mortes presenciadas, animais jogados à vala, homens julgados, e o crepuscular engolir do mundo a rir qual hiena desdentada. Marina repele a doida com o descaso a repercutir na sombra maior ao pequeno porte distribuído numa mulher de idade há anos sabor de desejo e paparicos.

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Entrevista: banda “Green Morton” apresenta rock autoral sem frescuras

“o que explica a vaguidão, o brilho de vidro, em nossos olhos.” Virginia Woolf

Green-Morton

O estereótipo nunca é suficiente, mas não deixa de ser significativo que o nome da banda tenha surgido em uma mesa de bar, em meio a algumas (muitas) cervejas. A homenagem ao charlatão cujo pai homenageou o anestesista. Formada em 2011, por quatro integrantes nascidos na capital, surgia em Belo Horizonte a “Green Morton”. O guitarrista Zé Mário explica em detalhes. “Já tínhamos tido conversas sobre nomes, mas nenhum tinha agradado a todos e, depois de várias cervejas, surgiu um assunto sobre o paranormal charlatão brasileiro Thomaz Green Morton, todo mundo riu muito e um amigo nosso que estava na roda mandou ‘Green Morton é um nome bom pra banda hein?’, todo mundo riu de novo, mas adotamos o nome”, rememora.

Batizados foram atrás de mais informações, como o sujeito que consulta o horóscopo a fim de entender o significado de sua alcunha. “Carregamos um pouco de ironia em algumas músicas, então acabou encaixando. Depois descobrimos que também era o nome do inventor da anestesia, William Thomas Green Morton, e que esse era o motivo do nome do paranormal, ou seja, legal demais!”, completa Zé. Já os caminhos para o som da banda foram menos ao acaso e mais fundamentados numa ligação tanto afetiva quanto musical, sem dispensar, jamais, os mistérios intuitivos preponderantes a esta arte. Júlio D’Agostini conta como chegou à bateria. “A minha maior influência para gostar de rock foi o meu irmão, lembro, quando tinha uns 13 anos, de ir aos ensaios da banda que ele tinha com os amigos da escola”, recorda.

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Crítica: cantora Juliana Cortes leva poesia ao pé da letra em “Gris”

“Exibindo

A marca de nascença como marca registrada –
Queimadura d’água, a cicatriz,
A verde-gris
Nudez do condor. Sou carne crua.
Seu bico

Me retalha: ainda não sou sua.” Sylvia Plath

Juliana-Cortes- Gris

Os gregos já estipulavam que música e poesia eram primas com suas líricas, e se eu estiver errado Machado de Assis virá ao meu socorro, afinal de contas o estilo é preponderante à precisão. Juliana Cortes leva essa relação ao pé da letra sem abrir mão para o mercado, qual seja apresenta, em seu segundo trabalho, de nome estético e sonoro, “Gris”, uma síntese bem desenhada de estilo comum à nova geração, mas nem sempre com o mesmo equilíbrio. É justo dizer que ecoam influências de seus contemporâneos tanto quanto dos que abalizaram esse tapete antes, mais precisamente a gaúcha Adriana Calcanhotto. Porém o sotaque carregado garante para a paranaense em questão própria personalidade, que se estabelece com repertório e interpretação suave.

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Análise: 80 anos de Hermeto Pascoal, o bruxo da música mundial

“Calçados de bruma estão seus pés –
Seu elmo é forjado em ouro
E seu torso é um ônix inteiriço
Engastado de calcedônias.

O seu ofício é um salmo –
Seu vaguear é melodia –
Ó que vivências, para a abelha,
São o trevo e o meio-dia!” Emily Dickinson

hermeto-pascoal-musica

Na “Era de Ouro do Rádio”, sobretudo na década de 1950, era comum os artistas serem conhecidos por epítetos. Francisco Alves, o “Rei da Voz”, Silvio Caldas, “Caboclinho Querido”, Cauby Peixoto, o “Professor”, além das cantoras que eram consagradas “Rainhas”, mas que também dispunham dos seus, como Dalva de Oliveira, “Rouxinol”, e Ângela Maria, “Sapoti”, esta alcunha atribuída pelo ditador Getúlio Vargas. Embora nascido na década de 1930 e aparecido para o esplendor musical ali pela metade dos anos 1950, o alagoano Hermeto Pascoal sempre se caracterizou como um artista moderno, de vanguarda que, por isso mesmo, e ainda assim, foi capaz de receber um apelido já nos anos 1960. O “bruxo”, ou “mago”, da nossa música mundial.

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