Crítica: cantora Juliana Cortes leva poesia ao pé da letra em “Gris”

“Exibindo

A marca de nascença como marca registrada –
Queimadura d’água, a cicatriz,
A verde-gris
Nudez do condor. Sou carne crua.
Seu bico

Me retalha: ainda não sou sua.” Sylvia Plath

Juliana-Cortes- Gris

Os gregos já estipulavam que música e poesia eram primas com suas líricas, e se eu estiver errado Machado de Assis virá ao meu socorro, afinal de contas o estilo é preponderante à precisão. Juliana Cortes leva essa relação ao pé da letra sem abrir mão para o mercado, qual seja apresenta, em seu segundo trabalho, de nome estético e sonoro, “Gris”, uma síntese bem desenhada de estilo comum à nova geração, mas nem sempre com o mesmo equilíbrio. É justo dizer que ecoam influências de seus contemporâneos tanto quanto dos que abalizaram esse tapete antes, mais precisamente a gaúcha Adriana Calcanhotto. Porém o sotaque carregado garante para a paranaense em questão própria personalidade, que se estabelece com repertório e interpretação suave.

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Análise: 80 anos de Hermeto Pascoal, o bruxo da música mundial

“Calçados de bruma estão seus pés –
Seu elmo é forjado em ouro
E seu torso é um ônix inteiriço
Engastado de calcedônias.

O seu ofício é um salmo –
Seu vaguear é melodia –
Ó que vivências, para a abelha,
São o trevo e o meio-dia!” Emily Dickinson

hermeto-pascoal-musica

Na “Era de Ouro do Rádio”, sobretudo na década de 1950, era comum os artistas serem conhecidos por epítetos. Francisco Alves, o “Rei da Voz”, Silvio Caldas, “Caboclinho Querido”, Cauby Peixoto, o “Professor”, além das cantoras que eram consagradas “Rainhas”, mas que também dispunham dos seus, como Dalva de Oliveira, “Rouxinol”, e Ângela Maria, “Sapoti”, esta alcunha atribuída pelo ditador Getúlio Vargas. Embora nascido na década de 1930 e aparecido para o esplendor musical ali pela metade dos anos 1950, o alagoano Hermeto Pascoal sempre se caracterizou como um artista moderno, de vanguarda que, por isso mesmo, e ainda assim, foi capaz de receber um apelido já nos anos 1960. O “bruxo”, ou “mago”, da nossa música mundial.

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A mulher de José

“Parece póstumo, parece sonho.
Alguma coisa não muda,
minha fraqueza me põe no caminho certo.” Adélia Prado

caravaggio

O significado de mulher para José é uma rosa aberta. Nasce o sorriso na caveira do homem, por pouco iluminada como uma pintura de Caravaggio, com um feixe de luz direto e oblíquo, preto, porém branca luz. Por nunca ter ouvido nome igual àquele assovia como um menino ladrão de goiabas. Mas desde quando a realidade importa frente a um menino roubando goiabas? José é apenas josé, uma criança desperta, despedaçada, infeliz como a rosa da Rosa do buquê de rosas da dama do filme, da canção de Fellini. O agrado é um doce de rapadura e chá morno: fácil, direto, rápido. Zaira uma massa gorda, compacta, corpulenta, antipática, de óculos escuros prendendo as orelhas e o nariz respirando impune. O juiz desconhece a maleabilidade do caráter, muda rapidamente de opinião, como o cão diante do osso e de repente já é bumerangue.

As olheiras cansadas de Bukowski e Kerouac. Mal senta na cadeira começa a incomodar, igual a um cão sarnento, de pulga e ressaca, procura a laje para se perfumar, parede de vidro à coceira graúda. Todos explicam, ela pergunta. Finge a resposta, e se equivoca. Admira a mania dos polidos pelo artefato da interrogação. Distribui amargos sorrisos, e grita, esperneia, arfa a mulher grand-e-loquente. Todavia, sempre aquele sujeito devastado. Ao final das labutas exaustas está absorta nos pensamentos rocambolescos do final do século XV. Maneirismo em tudo o quanto era estátua, as pessoas ali paradas, movimentam as marcações do filho do Sonho, de Pasolini.

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Caderno H2O – 27/05/2016

“O mundo está cheio de coisas engraçadas; quem se quiser distrair não precisa ir à Pasárgada do Bandeira, nem à minha Ilha do Nanja; não precisa sair de sua cidade, talvez nem da sua rua, nem da sua pessoa! (Somos engraçadíssimos, também, com tantas dúvidas, audácias, temores, ignorância, convicções…).” Cecília Meireles

Poema 4-1

Três tigres tristes
Há um romântico em cada um de nós.
Há um dramático.
E também um cômico.
Com freqüência o cômico passa a perna no romântico,
Que se estabaca no chão.
Ao que o dramático chora em cântaros.
Nesta hora o cômico lhe oferece um lenço.
O dramático enxuga o pranto,
Enquanto o romântico colhe flores.
Mal desconfiam os dois que do lenço sairá uma pomba,
E das enormes e amarelas flores um esguicho d’água.

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Crítica: programa “Saia Justa” vai do humor à convenção

“Eu sei que estão todos me vendo. Tem muitos que até esperam de mim, me esperam, homens e mulheres me desejam mesmo sem saber. Eu invento tudo, absoluta.” Ana Cristina Cesar

programa-saia-justa

O formato é antigo, e a atração também. No ar desde 2002 no canal pago GNT, o programa “Saia Justa” se valeu da fórmula das tradicionais mesas-redondas esportivas para colocar em seu sofá quatro mulheres discutindo os assuntos que lhes parecessem pertinentes, o que já configura, em si, uma importante colaboração e mudança na tentativa de reavaliar os costumes da nossa televisão e, por conseguinte, da sociedade que a assiste. Se ao longo dos anos contou em seu time como nomes como Rita Lee, Fernanda Young, Marisa Orth, Betty Lago, Marina Lima, Mônica Waldvogel e Luana Piovani, hoje quem tenta dar conta do recado é a apresentadora Astrid Fontenelle, as atrizes Maria Ribeiro e Mônica Martelli e a jornalista Barbara Gancia, no que alcançam êxito na maioria das vezes. Permanece, portanto, a tentativa de estabelecer um perfil diversificado entre as participantes, o que é verdade só até certo ponto.

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