Centenários 2016: urbanista Jane Jacobs viu nos problemas a solução

“vagabundeando sem destino até alta madrugada, procurando, entre as luzes e sombras turbulentas da populosa cidade, aquele infinito de excitação mental que somente a observação tranquila pode conceder.” Edgar Allan Poe

Jane Jacobs

Canadense nascida em território norte-americano, Jane Jacobs não teve formação acadêmica em nenhuma área do conhecimento, embora, na data de seu centenário de nascimento, já seja considerada ativista política e urbanista, e tenha escrito livro fundamental sobre o assunto. Ungida por contradições, Jane Jacobs desmistificou respostas prontas e certezas absolutas, no que sua condição de mulher contribuiu ainda mais nessa importante luta, se levarmos em conta que, como em quase todos os segmentos, o universo no qual se intrometeu à época era, também, dominado por homens e sua lógica própria.

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Análise: 70 anos de Rogério Sganzerla, o mais marginal dos cineastas

“Ser marginal foi uma decisão poética. Os marginais estão mais perto de Deus. Toda ovelha desgarrada ama mais, odeia mais, sente tudo mais intensamente.” Cazuza

Se a estética do precário criava laços entre os criadores do “Cinema Novo” e os entusiastas do “Cinema Marginal” havia uma questão mais fundamental a separá-los: a do conteúdo. Rogério Sganzerla foi, sem dúvida, o mais inventivo e radical entre seus pares, que levou mais a fundo as considerações do modo de filmagem, em experimentalismo conceitual que, provavelmente, só encontra parâmetro na obra de Jean-Luc Godard. Não por acaso foi o mais difamado por Glauber Rocha no exterior, responsável por espalhar que Sganzerla era agente da CIA. Se o “Cinema de Autor”, ecos da francesa Nouvelle Vague era ponto em comum entre ambos, também se impunham ali egos e vaidades.

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Entrevista: Agatha Almeida lança “Amordaça” para ninar gente grande

“Minha personagem me chama pelos corredores das folhas de papel
Ergue os dedos delicados
E é apenas quando ouço a voz de Vânia que permito-me escrever sem pensar que estou prestes a morrer

ou que hei de enlouquecer
e ceder a cada ruído ou aceno dissimulado” Agatha Almeida

agatha-almeida

Logo que teve o primeiro poema publicado, no jornal de Passos, cidade do interior de Minas Gerais, Agatha se sentiu picada pelo “bichinho literário”, pois, como nos lembra Ferreira Gullar, “a poesia nasce de repente e não faz barulho. Pode acontecer no meio da rua e ninguém vai perceber”. Passados 20 anos desde a estreia inevitável, ela reuniu coragem e recursos para lançar “Amordaça”, pela editora Benvinda, que virá oficialmente à luz no próximo dia 14 de maio no Café do Carmo, no bairro Sion, a partir das 16h. A escritora, porém, não nega as origens, e pensa no futuro de olho no passado. “Ainda muito jovem, por volta dos sete anos, escrevi uma poesia em comemoração ao ‘Dia do Soldado’. O texto foi escolhido por colegas e professores para ser publicado na Folha da Manhã, jornal passense, na época o principal jornal do município e região. Me lembro vividamente do prazer sentido em poder dividir a escrita com leitores do periódico na cidade. Desde então dedico muito do meu tempo a leitura e à escrita, e tenho muito prazer em fazê-lo”, sublinha Agatha.

Muito diferente da temática relativa à primeira experiência “Amordaça” traz, já no título, uma provocação. Enquanto no dicionário o sentido da palavra é descrito como “impedir de falar, de opinar, de manifestar-se”, é claro e confesso que Agatha Almeida tem intenção contrária. “Paradoxalmente, ‘Amordaça’ foi escrito para escancarar, berrar, esganiçar, escandalizar, ser lido”, explica em consonância com o espírito rebelde dos melhores poetas. Como se não bastasse, o livro, composto por poemas e minicontos, envereda por questões polêmicas da atualidade, especificamente a de gênero e dos relacionamentos. “Foi preciso escolher e reunir poesias previamente escritas e organizá-las para construir uma história maior, com direito a linearidade e personagens. Além disso, a criação de capítulos também fez parte do processo de criação. Falar sobre questões de gênero através das de autoria e relacionamentos me pareceu uma forma de unir os temas de meu interesse e que, enquanto autora, tenho prazer e facilidade em abordar”, conclui a poetisa.

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Crítica: espetáculo “19:45!”, da Miúda Cia, apresenta cena viva e pulsante

“nos dois estados encontro pontos de contato – o principal é a distância. Ainda que só diante da loucura tenha experimentado a sensação de eternidade.” Maura Lopes Cançado

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Original desde o princípio, a ousadia da “Miúda Cia.” aparece logo no prospecto do espetáculo, que em nada lembra a economia em voga no tal aspecto, e já anuncia bons prenúncios. De fato, a peça mostra a que veio, embora necessite certo tempo de maturação, o que encontra em seus 80 minutos de duração, com momentos mais altos do que outros, constatação compreensível, afinal de contas mesmo os clássicos dão suas derrapadas ou apresentam situações mornas que muitas vezes servem de preparação para o que seria o ápice. É certo que a narrativa fragmentada, quase episódica, dispersa a forma habitual que pressupõe início, meio e fim, o que não anula, contudo, o que podemos chamar de escalas na construção dramatúrgica. Os degraus de “19:45!”, por fim, se equilibram sobremaneira, com ritmo e harmonia.

A direção de Rita Clemente, que também assina a dramaturgia, toma conta da cena como principal responsável pelo êxito da montagem, compensando até eventuais irregularidades no texto, especificamente quando adota a tonalidade dramática. A narração em off soa empapada, e sua gordura a torna excessivamente artificial e sofisticada, sem o apuro da simplicidade. Nessas horas ocorre um óbvio distanciamento ante a história, inclusive na apreensão das metáforas que, reverente à estética, deixa vazar o seu conteúdo. A utilização dos objetos cênicos segue caminho contrário, é viva, inventiva, veloz, pulsante, e, com todo o lúdico permitido ao teatro ele toca e costura os temas mais espinhosos da atualidade com a fineza e ferocidade duma lâmina. Sempre que opta pelo sarcasmo, a abordagem tem sua pertinência ampliada.

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Entrevista: Coletivo A.N.A. desnuda a obra de jovens autoras

“Olhos, orelhas, nariz,
Um gris
Celofane que não fendo.
Em minhas costas nuas

Sorrio, um buda, querendo
Tudo, desejos
Caem de mim como anéis
Abraçando suas luzes.” Sylvia Plath

Foto-de-Henrique-Boccelli

Elas são 8, mas podem se dividir em duas ou expandir, como nos mostra o belo ensaio fotográfico feito por Paula Huven, em que se refletem e multiplicam. Nesse caso, mais importante do que os números são as palavras, que na trajetória do Coletivo A.N.A preponderantemente vêm acompanhadas de sons, das quais elas fazem questão de serem as donas irrevogáveis. As vozes e letras em questão, além de habilidades instrumentais, pertencem a Irene Bertachini, Luana Aires, Michelle Andreazzi, Leopoldina, Luiza Brina, Laura Lopes, Leonora Weissmann e Deh Mussulini, de quem pinçamos a última informação. “Mesmo sendo um coletivo de compositoras, até hoje vejo demais as pessoas nos divulgando como um coletivo de cantoras”, ela aponta.

O erro, certamente, não ocorre apenas por lapsos, erros de digitação ou distração, é preciso abandonar a superfície da história para tentar compreendê-lo sob ótica um pouco mais apurada. Na ativa desde 2011, o grupo pioneiro de mulheres, cuja sigla significa Amostra Nua de Autoras, pretendia dar voz e espaço para criadoras mineiras com talentos em diversas áreas, dentre elas a música, a literatura e as artes plásticas, com profissionais da atuação artística e da produção. A primeira demonstração prática que pôde ser registrada aconteceu em julho de 2014, com o lançamento do CD “Ana”, que conta com 11 faixas, direção e produção de Rafael Martini, arranjos de Joana Queiroz, Aline Gonçalves, e outros, e participações de Ná Ozzetti, Déa Trancoso, e etc.

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