Análise: 80 anos de Hermeto Pascoal, o bruxo da música mundial

“Calçados de bruma estão seus pés –
Seu elmo é forjado em ouro
E seu torso é um ônix inteiriço
Engastado de calcedônias.

O seu ofício é um salmo –
Seu vaguear é melodia –
Ó que vivências, para a abelha,
São o trevo e o meio-dia!” Emily Dickinson

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Na “Era de Ouro do Rádio”, sobretudo na década de 1950, era comum os artistas serem conhecidos por epítetos. Francisco Alves, o “Rei da Voz”, Silvio Caldas, “Caboclinho Querido”, Cauby Peixoto, o “Professor”, além das cantoras que eram consagradas “Rainhas”, mas que também dispunham dos seus, como Dalva de Oliveira, “Rouxinol”, e Ângela Maria, “Sapoti”, esta alcunha atribuída pelo ditador Getúlio Vargas. Embora nascido na década de 1930 e aparecido para o esplendor musical ali pela metade dos anos 1950, o alagoano Hermeto Pascoal sempre se caracterizou como um artista moderno, de vanguarda que, por isso mesmo, e ainda assim, foi capaz de receber um apelido já nos anos 1960. O “bruxo”, ou “mago”, da nossa música mundial.

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A mulher de José

“Parece póstumo, parece sonho.
Alguma coisa não muda,
minha fraqueza me põe no caminho certo.” Adélia Prado

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O significado de mulher para José é uma rosa aberta. Nasce o sorriso na caveira do homem, por pouco iluminada como uma pintura de Caravaggio, com um feixe de luz direto e oblíquo, preto, porém branca luz. Por nunca ter ouvido nome igual àquele assovia como um menino ladrão de goiabas. Mas desde quando a realidade importa frente a um menino roubando goiabas? José é apenas josé, uma criança desperta, despedaçada, infeliz como a rosa da Rosa do buquê de rosas da dama do filme, da canção de Fellini. O agrado é um doce de rapadura e chá morno: fácil, direto, rápido. Zaira uma massa gorda, compacta, corpulenta, antipática, de óculos escuros prendendo as orelhas e o nariz respirando impune. O juiz desconhece a maleabilidade do caráter, muda rapidamente de opinião, como o cão diante do osso e de repente já é bumerangue.

As olheiras cansadas de Bukowski e Kerouac. Mal senta na cadeira começa a incomodar, igual a um cão sarnento, de pulga e ressaca, procura a laje para se perfumar, parede de vidro à coceira graúda. Todos explicam, ela pergunta. Finge a resposta, e se equivoca. Admira a mania dos polidos pelo artefato da interrogação. Distribui amargos sorrisos, e grita, esperneia, arfa a mulher grand-e-loquente. Todavia, sempre aquele sujeito devastado. Ao final das labutas exaustas está absorta nos pensamentos rocambolescos do final do século XV. Maneirismo em tudo o quanto era estátua, as pessoas ali paradas, movimentam as marcações do filho do Sonho, de Pasolini.

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Caderno H2O – 27/05/2016

“O mundo está cheio de coisas engraçadas; quem se quiser distrair não precisa ir à Pasárgada do Bandeira, nem à minha Ilha do Nanja; não precisa sair de sua cidade, talvez nem da sua rua, nem da sua pessoa! (Somos engraçadíssimos, também, com tantas dúvidas, audácias, temores, ignorância, convicções…).” Cecília Meireles

Poema 4-1

Três tigres tristes
Há um romântico em cada um de nós.
Há um dramático.
E também um cômico.
Com freqüência o cômico passa a perna no romântico,
Que se estabaca no chão.
Ao que o dramático chora em cântaros.
Nesta hora o cômico lhe oferece um lenço.
O dramático enxuga o pranto,
Enquanto o romântico colhe flores.
Mal desconfiam os dois que do lenço sairá uma pomba,
E das enormes e amarelas flores um esguicho d’água.

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Crítica: programa “Saia Justa” vai do humor à convenção

“Eu sei que estão todos me vendo. Tem muitos que até esperam de mim, me esperam, homens e mulheres me desejam mesmo sem saber. Eu invento tudo, absoluta.” Ana Cristina Cesar

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O formato é antigo, e a atração também. No ar desde 2002 no canal pago GNT, o programa “Saia Justa” se valeu da fórmula das tradicionais mesas-redondas esportivas para colocar em seu sofá quatro mulheres discutindo os assuntos que lhes parecessem pertinentes, o que já configura, em si, uma importante colaboração e mudança na tentativa de reavaliar os costumes da nossa televisão e, por conseguinte, da sociedade que a assiste. Se ao longo dos anos contou em seu time como nomes como Rita Lee, Fernanda Young, Marisa Orth, Betty Lago, Marina Lima, Mônica Waldvogel e Luana Piovani, hoje quem tenta dar conta do recado é a apresentadora Astrid Fontenelle, as atrizes Maria Ribeiro e Mônica Martelli e a jornalista Barbara Gancia, no que alcançam êxito na maioria das vezes. Permanece, portanto, a tentativa de estabelecer um perfil diversificado entre as participantes, o que é verdade só até certo ponto.

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Os castelos de outrora

“Fitávamos as nuvens do espaço.
Que imensas! Que bonitas e que estranhas!
E ficávamos horas a pensar
Se seriam castelos ou montanhas…” Florbela Espanca

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Reincide o sol áspero. A brisa roça nos cabelos e sonhos, entre eles, dedos – tentando tocar o intocável. Fica a brisa, fumegante e etérea, com labor. E o sorriso ocre, incolor e de incenso acena com a palma a preencher. Nunca se sabe até onde vai, qual lugar cai, a necessidade humana. Desprovidos ao celular reclamam do esgoto a céu aberto. Ralhou talhou o ranho uma aspa uma farpa uma casta cultura inválida. As palavras cansam. Mas a gente, as pessoas carregando frutas nas sacolas não se diz senão através do afeto. Após uma suada viagem de ônibus o refresco gelado seca os pelos encharcados por expectativas lânguidas. A capinar as lembranças cujo destino se encarregou de tornar fluidas, boné patrocinado sobre a cabeça oval, o velho.

José é nome comum, mas não menos poético afinal contemplado por Carlos Drummond. O bigode bem penteado pela armadura prateada apreendida em chuva, roça, café quente e biscoito polvilho. Como Admeto em sua caça ao javali. É incontável o bulir de dedos toscos amassando a cara rugosa qual ferro de passar sobre a camisa usada no dia de trabalho anterior, gasta de viver. Essa mania desaforada e interiorana de arraigar a espontaneidade ao charme. Minutos de conversa lesa, leda, prosa insuficiente. Na pausa da vida fragmentada o ocaso a transparecer rebela com a agressão primeira: aquela que fez do homem a fruta do pecado e circunstância de si mesmo.

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