Caderno H2O – 20/05/2016

“O que obviamente não presta sempre me interessou muito. Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno voo e cai sem graça no chão.” Clarice Lispector

POEMA1

Bufa
A vida é muito grave mas não é séria.
A vida já existia antes da comédia.
A vida já existia antes da Tragédia.
A vida é Hollywood, Shakespeare e a Grécia.
A vida ergue sua saia e espia a greta.
A vida é pó de aranha e mel de abelha.
A vida é ópera bufa, canto da sereia.
A vida é uma ilusão, como um espelho.
Quem olha pra vida sério ela faz careta
A vida é muito grave, mas não é séria.

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3 filmes brasileiros sobre o Futebol

“quero a vitória/do time de várzea
valente/covarde/a derrota/do campeão
5×0/em seu próprio chão
circo/dentro/do pão” Paulo Leminski

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Considerado até hoje o esporte mais popular do mundo, criado pelos ingleses e reinventado pelos brasileiros, o futebol segue despertando paixões, e como terreno fértil da emoção não poderia ser deixado de lado por uma das artes que mais se valem desta qualidade, o cinema. No âmbito nacional, a peleja recebeu tratamento distinto de nossos diretores, atores e roteiristas, entre demais envolvidos, porém sempre com a habilidade que transformou o futebol brasileiro no mais reverenciado no planeta através das décadas, embora passe por período de triste decadência em função, principalmente, dos que se utilizaram dele na parte administrativa para benefício próprio. Pertence ao Brasil, porém, a hegemonia em Copas do Mundo, com 5 troféus conquistados, além, é claro, de aqui ter nascido o maior jogador da história, com seus 1281 gols, Edson Arantes do Nascimento, natural de Três Corações, conhecido Pelé.

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A Porta de Todos os Mistérios

“Se as portas da percepção forem abertas, as coisas surgirão como realmente são, infinitas…” William Blake

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Trancada a porta. Gira a maçaneta uma, duas, três, quatro, cinco, incontáveis vezes, inutilmente. Todo o esforço de bíceps e tríceps comprimidos, avermelhados, músculos estouram. Suores chegam a formar pastosas babas de vacas ou dragões da Indonésia, o peso do volume embarga como náusea, ânsia de vômito. Olho caminha ao buraco da fechadura. Pálpebras apertam, depois afrouxam. Cílios caem como gotículas de neve na tempestade. Sobrancelhas reagem pelo barulho imediato. Teto, paredes e piso impõem a posição covarde. Ouve-se do outro lado. O amplo vazio da visão preenchido por solas de sapato no assoalho, talvez tamancos, arrisca o salto.

A esperança é uma abertura constituída de cabeça e tronco, porém agoniza: à falta de auxílio. Não há o manejo dos braços, o aconchego das mãos, o toque dos dedos, o equilíbrio das pernas, a firmeza dos pés, o fraco do calcanhar, nada se estende. O rosto opaco, lustroso e calvo. A nulidade dos membros. Veludo azul encobre a luz. A massa abarca órgãos vitais intermitentes. Respirar, bater, respirar, bater, respirar, bater, respirar. Sopra o tecido, a secura da boca cravada de fendas a oscilar, para cima e para baixo, e cor pálida, um leve esmorecer, pois permanece tapando a paisagem. Veludo grosso, escuro, ondula e mantém-se firme. Amar é do coração como trancar pertence às portas. A esperança uma abertura, uma porta escura, um coração. E está moldada às chaves.

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Análise: 40 anos da morte de Madame Satã, símbolo da luta contra preconceitos

“Eis a noite encantada, amiga do bandido;
Ela vem como cúmplice, a passo escondido;
Lento se fecha o céu como uma grande alcova,
E o homem impaciente em fera se renova.” Baudelaire

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Trocado quando criança por uma égua, para que a mãe pudesse sustentar os dezessete irmãos que permaneceriam, Madame Satã tornou-se uma figura emblemática e contraditória na luta contra os preconceitos arraigados na formação nacional. Negro, pobre e homossexual distinguiu-se de seus pares, sobretudo, pela coragem e inconformidade. Não foram poucas as vezes que frequentou e passou longos períodos encarcerado, cujos motivos que se repetiam tinham a ver com desacato, quando não atingia a prática da violência física que resultou, inclusive, no assassinato de um policial em 1928. Neste famoso caso teria sido insultado reiteradamente por suas condições, inclusive porque Madame Satã não escondia de ninguém qual a sua preferência sexual.

Destacava-se também por outras práticas. Valente, feroz e temido na Lapa, onde passou a residir ainda jovem levando seguramente, para os parâmetros da época, uma vida de malandro, entre michês, bandidos, sambistas e prostitutas, ficou conhecido como dos mais habilidosos capoeiristas de todos os tempos, jogo que utilizava para se proteger e erguer assim sua fama. O que salta aos olhos na trajetória de Madame Satã, porém, cujo nome de batismo, João Francisco dos Santos, foi apagado diante da imagem impressionante de sua personagem, é a desconstrução de paradigmas e a união de paradoxos. Apresentando-se em cabarés decadentes, contra tudo e contra todos, teve, no peito e na raça, o mérito de se exibir travestido com roupas femininas e entoando canções lânguidas e românticas, isto num universo predominantemente machista que se fazia obedecer pela lógica da violência.

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Entrevista: Iniciativa Rubisco propõe volta à natureza para o novo mundo

“Eu não tenho paredes. Só tenho horizontes…” Mario Quintana

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A arquiteta Tereza Meireles e o administrador Pedro Henrique Oliveira têm algo em comum que desejam tornar corrente na vida cotidiana. Para isto foram responsáveis pela criação da “Rubisco”, iniciativa que visa transformar o ambiente das pessoas. Como uma decoradora de interiores nada ortodoxa, especializada em paisagismo e com singular preocupação ambiental, leva, literalmente, o jardim para dentro de casa. A inspiração para o batizado, portanto, não poderia vir senão de uma forma natural. “Surgiu em uma conversa informal com minha irmã, e ela me disse que as Crassuláceas (espécie de planta com flor), mais conhecidas como Suculentas, utilizam algumas enzimas no processo da fotossíntese. Uma dessas enzimas se chama Rubisco. Soou bem aos nossos ouvidos e de cara gostamos, então ficou então decidido assim. Um nome geral, mas que tem tudo a ver com as plantas”, explica Tereza.

Como numa gravidez, antes do nome, porém, veio o desejo da cria. “Nós sempre gostamos de estar em contato com a natureza por ser prazeroso e revigorante diante da correria e stress do dia-a-dia. E pensamos: por que não ter esse contato todos os dias? Daí surgiu a ideia de trabalhar com as plantas ornamentais e comestíveis e medicinais”, relembram sobre os primeiros passos dessa travessia. Alguns exemplos podem ser conferidos tanto no Facebook quanto no Instagram da iniciativa em fotos que provam que, para além do aspecto decorativo trata-se de um verdadeiro trabalho artístico em forma e conteúdo. “A Rubisco propõe uma reflexão sobre o modo de vida moderno, buscando resgatar os momentos simples e prazerosos do cotidiano com o uso das plantas, o que proporciona conforto estético para o ambiente e benefícios para a saúde das pessoas”, resumem.

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