Análise: 70 anos de Maria Bethânia, a abelha-rainha da música brasileira

“tudo me impulsa para o coração do mundo” Wally Salomão

maria-bethania

Não é exagero dizer que Bethânia é música em cada fibra, até por que suas interpretações lancinantes nunca pecaram pelo comedimento, numa tênue linha em que é preciso dominar o instrumento para que a entrega não se torne gratuita. E o instrumento da cantora está além da voz, pois é capaz de transformar um simples gesto numa proporção de palavras prenhes de significado. Aí está, dentre tantos, o legado, é bem possível, de maior relevância desta artista ímpar na música popular brasileira, apelidada de “abelha-rainha” após interpretar canção escrita pelo poeta baiano Wally Salomão e musicada pelo irmão Caetano Veloso, “Mel”. Foi Caetano, aliás, quem batizou Bethânia, em insistência junto à matriarca do clã para que desse à filha o nome da música gravada, à época, com enorme sucesso, por Nelson Gonçalves, composta pelo pernambucano autor de frevos inesquecíveis Lourenço da Fonseca, mais conhecido como Capiba. Idos da década de 1940.

Veja mais

O Estranho Desaparecimento do Procurado

“Alguma coisa dissolveu meu rosto. Coisa que aliás mal aparece em meio à névoa prateada da luz das velas.” Virginia Woolf

rosa-meditativa-salvador-dali

O véu fulgurante e invisível esfola a planície nítida. A promessa de se voltar a isto. A confissão de que Tudo Não Passou Da Verdade. Um negro forte, sorridente, simples, de adjetivos laicos: dispostos um atrás do outro mais confundem, atrasam: a resignação da ignorância. A cabeça ao pender perpendicular revela a calvície histórica. A mão aperta com firmeza. Tensa, suada, o jeito meigo de impressionar com o tamanho dos dentes, a bravura do sorriso: desarma. Lembra o Negrinho do Pastoreio. Abonado com vestes trançadas e traçadas no próprio corpo ele sorri: um sorriso de gosto. Traças passeiam no paletó cinza-escuro. Baixo, torna-se ainda mais baixo, curva-se.

Roxo de susto: da visão da noite: não mais alado: no exato instante em que esta cor muda: não mais amarelo como a terra batida na qual insistem em bater: sem força, mas o tapa arde: nunca verde como os olhos escuros no friso de Ágata: nem roxo que agora mesmo fora de susto, de azedo, sufoco: sonhos incolores: cremos. A água é servida no copo quebrado na ponta. O negro é um búfalo. Os leões o cercam no mato, o capinzal é áspero. Porque nós outros a não sermos donos do terreno se tantos e ledos enganos foram proferidos à boca pequena que engoliu o trema, a lama, o lema, o limbo, o lodo, o Lundu. Ao som do farfalhar de hortaliças romenas, hinos de amor e medo, a revolver coloniais fantasias, o chifre como uma lápide de gesso, os ossos, as carnes, os pelos, afundam junto a todo resto.

Veja mais

Centenários 2016: Manoel de Barros deu grandeza infantil à poesia

“Prefiro as máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia de formiga e musgo – elas podem um dia milagrar de flores. (…) Senhor, eu tenho orgulho do imprestável!” Manoel de Barros

manoel-de-barros

Não é fácil falar de um poeta quando ele mesmo é a matéria prima de seu trabalho e costuma dominar como ninguém as palavras. Longe de ser o escritor “sem estilo” como Millôr Fernandes se autodenominou, Manoel de Barros atingiu em sua obra o estado que Clarice Lispector usou para se referir a pintores como Joan Miró e Pablo Picasso, “tornar-se puro”. Para ele a poesia era a “infância da língua”, o que o levou a constatar os absurdos e contradições da existência sem o obscurantismo e desilusão de um Franz Kafka ou de Samuel Beckett, mas a partir da curiosidade de quem descobre e sente através do susto uma grande excitação. A aparente ingenuidade que emana de suas criações emerge de uma complexa percepção inerente à tenra idade, desfeita de conceitos, tabus, morais, certezas e aberta para a dúvida e o espanto, universo onde tudo é possível e nada se proíbe, nem o sórdido nem o sublime.

Veja mais

Crítica: “Bipolar Show” atesta irreverência criativa de Michel Melamed

“Mergulha, sem limites, no espanto e na estupefação; deste modo podes ser sem limites, assim podes ser infinitamente.” Eugène Ionesco

bipolar-show

Não deixa de ser elucidativo que no primeiro trabalho a dar dimensão nacional a Michel Melamed, o espetáculo “Regurgitofagia”, o ator recebesse descargas elétricas vindas da plateia. Assim o múltiplo artista transforma pensamentos elaborados em linguagens abusivas e escrachadas. Desde então, soube dar a esse processo as mais diversas formas, com trânsito por diferentes veículos e o mérito de sempre usar o suporte a favor do conteúdo. Melamed tem como intrínseca característica em seus projetos aliar ao máximo possível certo aspecto escandaloso, de imediata assimilação, sem com isto diluir a complexidade do que propõe. Em “Bipolar Show”, apresentado no Canal Brasil e que estreia sua segunda temporada, toda terça às 21h30, não é diferente. Michel mantém intactas as bases de seu estilo, dentre elas, a livre diversidade.

Veja mais