Centenários 2016: Dilermando Reis tocou violão para emocionar

“De afetos imprecisos,/De repente tomados
À lua das vazantes/Num relance possessos
Possuídos/Inflamando o sentir
Recomeçando aquele, o mesmo canto.” Hilda Hilst

Dilermando-Reis

Se o Brasil é tido como o país das cantoras é porque com a força de suas interpretações elas são capazes de tomar para si o protagonismo de composições alheias. Como para os apenas letristas é difícil se destacar nesse cenário, afinal de contas a música atinge seu cume quando se desmancha do papel e torna-se etérea através de sons, tanto mais o é para seus instrumentistas. Portanto não é pouca coisa que Dilermando Reis tenha se tornado, para além do violão, uma referência da música popular brasileira e a todos que admiram o gênero. Em pouco tempo ele deixou de ocupar a estante reservada aos aficionados e especialistas para se juntar a nomes tão populares em seu período áureo como Francisco Alves, Carmen Miranda e Luiz Gonzaga. Terá contribuído para isto o estilo, ou, antes a autenticidade, tão cara ao artista.

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Banda “Cordel e Prosa” encurta distâncias entre música e poesia

“- É tão bonito que voa!” Clarice Lispector

cordel-prosa

Se fores olhar no mapa é possível que percebas que as Minas Gerais e o estado de Pernambucano não são exatamente vizinhos. Porém em outras paragens a relação vai além da cordialidade, ou melhor, alcança o cordel. Essa literatura popular e tradicional praticada, sobretudo, no Recife e em outras cidades ao interior, mas, em especial, no nordeste brasileiro, conta e canta com o apoio da prosa mineira as canções apresentadas pela banda “Cordel e Prosa”. Foi na terra de Drummond, Sabino, Pellegrino, Rosa e outros contadores de nossa rica história inventada que nossos quatro cavaleiros do apocalipse, no caso, cinco, como os mosqueteiros que eram três e, em verdade, quatro, se reuniram. Caio Coutinho e Diego Oliveira tomam conta da percussão e entoam o coro, André Varogh, também percussionista, vale-se, ainda, de violão e voz, tal qual Heitor Negão, para que Marcelo Xeeu entregue todo seu canto e poesia ao público. É um exercício de grupo para o coletivo.

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Análise: Tunga foi ao extremo para tratar a essência

“Nossa memória é frágil
Uma vida é um tempo muito breve.
Tudo acontece tão rápido que não
Dá tempo de entender a relação entre
Os acontecimentos” Isabel Allende

tunga

Sobre o radicalismo na experimentação formal de uma obra específica do escritor argentino Julio Cortázar, um especialista constata que é preciso manter certos pontos nevrálgicos para que a abertura não anule por completo a força do objeto. Já Antonin Artaud, o controvertido poeta, ator e dramaturgo, muitas vezes ligado ao “Teatro do Absurdo”, é mais específico, e afirma que “sentido dado é sentido morto”. É possível assentir que o pernambucano Tunga, artista plástico com obra estabelecida a partir da segunda metade da década de 1970, portanto contemporâneo e que veio à tona em meio ao furor vanguardista do período, pertence mais à categoria representada pelo pensamento do autor de o “Teatro e seu Duplo”. Outra ilação aqui cabível encontra-se no campo da literatura, quando o poeta maranhense Ferreira Gullar pretendeu, em suas palavras, “explodir com a linguagem”, observadamente nas últimas criações do livro “A Luta Corporal”, de 1975. A obra de Tunga se vale de múltiplas relações.

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A Previsão da Cigana

“Ó meu corpo, protege-me da alma o mais que puderes.
Come, bebe, engorda, torna-te espesso para que ela
me seja menos pungente.” Marie Noël

John_William_Waterhouse_-_Magic_Circle

A placa indica o local. O marmanjo parrudo de óculos infantis e postura inconstante assegura: a natureza sobreviverá. Ao progresso e à devastação. Quase chora. A mulher de grampos prendendo os cabelos loiros por tintura da farmácia, mistura de água oxigenada, cai aos pedaços. Tolice estar mal cuidada, afinal o acervo possui exemplares raros. Ali estanques na estante poluída e gasta lembram uns carcereiros empoleirados. Sujos, revoltos, bagunçados, carregam o nome luminoso na capa. “Moby Dick”, de Herman Melville, “A Metamorfose”, de Franz Kafka, “Poesia Completa”, de Fernando Pessoa; sem dúvida, exemplares raros, deixam na boca o amargo por ser impossível tocá-los sem sentir o desprezo de estarem tão mal cuidados.

Silenciosa, sobrancelhas em circunflexo, a inquirir para a bonita dama: morena de seios fartos, curvas salientes nos quadros, boca polpuda, polpa de fruta escoa em íris característica: donzela de verdes olhos, Ágata. Ao ler a mão dispensa ensaios: estará presente nos fatídicos acontecimentos, corre perigo, sacrifícios e mortes presenciadas, animais jogados à vala, homens julgados, e o crepuscular engolir do mundo a rir qual hiena desdentada. Marina repele a doida com o descaso a repercutir na sombra maior ao pequeno porte distribuído numa mulher de idade há anos sabor de desejo e paparicos.

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