Centenários 2016: Marino Pinto criou as letras de sucessos inesquecíveis

“Você vem de um palacete,/Eu nasci num barracão,
Sapo namorando a lua/Numa noite de verão
Eu vou fazer serenata,/Eu vou matar minha dor,
Meu samba vai, diz a ela,/Que o coração não tem cor” Wilson Batista & Marino Pinto

Marino com Dalva de Oliveira

É compreensível que num ofício predominantemente sonoro como a música o autor da palavra não receba a mesma atenção, sobretudo, de seus intérpretes, mas também dos instrumentistas. É desse mal que sofreu Marino Pinto, carioca nascido no interior do estado, então capital federal, embora tenha acumulado inúmeros sucessos quase sempre sob a égide do anonimato, por ser ele jornalista e responsável pelas letras, sendo que nunca se atreveu a cantar ou tocar algum instrumento em público. A saída prematura de cena, com apenas 48 anos de idade, ainda na década de 1960, provavelmente contribuiu ainda mais para que sua identidade se apagasse aos poucos da memória dos mais aficionados por música. A força de sua obra reside em que as composições continuaram a ser gravadas, por nomes como Ney Matogrosso, João Gilberto, Luiz Melodia, Elza Soares, Maria Bethânia, Alaíde Costa e até Norma Bengell.

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Análise: 70 anos de Wanderléa, símbolo da música jovem e romântica

“Mas a minha linguagem é mais clara. Eu poderia te dizer aonde se entrecruza a lenta gramática e o teu sexo de gatas” Ana Cristina Cesar

wanderlea

Não deixa de ser espantoso que Wanderléa chegue aos 70 anos ainda como símbolo da música jovem e romântica. Mas muitos também irão se surpreender ao descobrir, a essa altura, que a musa da “Jovem Guarda” nasceu em Governador Valadares, no interior das Minas Gerais. Conservando até hoje o epíteto de “Ternurinha”, a artista se mudou cedo, aos nove anos de idade para o Rio de Janeiro, onde tudo acontecia culturalmente, mas não foi a única mudança ao longo de sua trajetória. Talvez Wanderléa tenha permanecido justamente pelo paroxismo que permite aos clássicos o cotejo da imobilidade. Intérprete, sobretudo, de ritmos e gêneros altamente populares, a cantora soube conciliar aspectos de forte apelo emocional a uma elegância ao mesmo tempo comedida e ingênua. Sucessos como “Pare o Casamento” e “Foi Assim” poderiam facilmente sucumbir à banalidade se não recebessem o seu canto.

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Entrevista: Dulce Quental lança disco de inéditas com músicas antigas

“Todo mundo é parecido, quando sente dor
Mas nu e só ao meio-dia, só quem está pronto pro amor” Dulce Quental

Dulce-Quental

Dulce Quental prepara uma surpresa. Um disco de músicas inéditas com gravações antigas. Habituada ao paroxismo, a cantora de carreira espaçada retorna ao mercado fonográfico em grande estilo. Um dos motivos da ausência sentida encontra-se na incursão por outras áreas do conhecimento artístico, em especial a literatura.  “Eu gosto de escrever a beça. E acho que no futuro quando estiver cansada dos palcos irei só escrever. Tenho um livro de crônicas publicado e um romance (na ordem ‘Caleidoscópicas’ e ‘Memória Inventada’). Tudo feito de forma independente. Está por aí. Na ‘Amazon’ (empresa de vendas online). Fiquei cinco anos trabalhando nele. Mas foi muito sofrido o processo. É difícil demais escrever bem. Difícil ser simples. Ora dessas, eu volto. Estou de férias da literatura. Agora quero colocar a boca no trombone e cantar pra subir”, avisa. Como de costume, é bom não duvidar de Dulce.

Música e Maresia” compila 11 gravações realizadas entre 1991 e 1994, período em que Quental não lançou disco, mas que mesmo assim apareceu como a compositora de sucessos da banda “Barão Vermelho”, “Cidade Negra” e de Leila Pinheiro, Simone, Anna Carolina, Roberto Frejat e outros artistas. A artista explica porque só agora a cria verá a luz do dia. “Eu sempre tive o desejo de lançar um disco com essas gravações. Estava esperando o momento certo. Mas foi preciso um empurrão de amigos e colaboradores para acontecer. A gente não faz nada sozinho. Acho também que só estou conseguindo por causa do momento da indústria. A volta do vinil. A possibilidade de um artista independente lançar seu próprio selo e distribuir diretamente através de uma plataforma digital sem o intermédio de uma gravadora”, justifica. Muitas dessas canções permanecem inéditas apenas na voz de Dulce, já tendo sido lançadas por alguns dos nomes citados acima.

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Conto do prefeito que virou cavalo

“Ela fitou-o com seus olhos brilhantes, irracionais, exatamente como os olhos de uma criatura não-humana.” D. H. Lawrence

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O cheiro de leite leva ao chafariz. De pestana baixa: como bode espia o sujeito dos olhares fáceis e cavanhaque. Visto na chegada: despercebido, abobalhado. Camuflagem dos fatos não sabe nem enxerga o cargo no rapaz sem modos. Mal acaso torna os homens bobos figuras poderosas. Ou seriam figuras poderosas a elegerem os bobos? Toda forma, anda distraído, despista, no entanto, o trevo de quatro folhas no bolso do paletó xadrez-quadriculado. Hipérbole e pleonasmo mastigam como luta inteira no pasto, como vaca, as vestes, o capim, de lado imita cigarro. O bordel da dor é a saudade. Sanha do animal bisonho e estranhamente lerdo, ao subir ao palco, de improviso um palanque, intenções de inveja cercam as leitosas tetas, a escorrer.

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Caderno H2O – 10/06/2016

“Porque sim
Vale tudo na selva dos sentidos” Luhli & Lucina

Tempo1

Tempo
Escrevo hoje um português arcaico.
Sem arabesco.
Mas um mosaico.
Um português de ultimato, de fim de tarde.
Um português de Fernando.
E de Ricardo.
Um português que é de Campos. E de caiado.
Um português mal passado.
E fedorento.
Peço perdão aos monarcas.
Da língua pátria.
Sou hoje um refugiado.
Um sanfoneiro.

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