Centenários 2016: Emeric Marcier aliou barroco mineiro ao expressionismo europeu

“O Deus de que vos falo/ Não é um Deus de afagos.
É mudo. Está só. E sabe/Da grandeza do homem
(Da vileza também) /E no tempo contempla
O ser que assim se fez./ (…) E podereis amá-Lo
Se eu vos disser serena/Sem cuidados,
Que a comoção divina/Contemplando se faz?” Hilda Hilst

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Embora tenha pintado nus e auto-retratos o grande reconhecimento à obra do romeno Emeric Marcier aconteceu quando ele começou a elaborar, em seus trabalhos, a paisagem mineira das cidades históricas, em especial Ouro Preto, Mariana e Barbacena, tendo esta última como residência em boa parte da vida, e aliou a elas a influência do expressionismo europeu que trazia de sua origem. Logo, Marcier, que fugiu da Segunda Guerra Mundial para Lisboa e depois aportou no Brasil, sendo recebido no Rio de Janeiro por nomes do Modernismo como Mário de Andrade e Jorge de Lima, construiu obra incomum, única, em que se conjuga a temática religiosa a formas e cores preponderantemente emocionais, para além da objetivação descritiva. Foi de Giotto a Pablo Picasso.

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Crítica: Programa “Nasi Noite Adentro” exalta estilo de vida libertário

“Eu vi os expoentes de minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada em busca de uma dose violenta de qualquer coisa.” Allen Ginsberg

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De volta à programação do Canal Brasil, emissora paga vinculada à Rede Globo, toda quinta-feira a partir da meia-noite, o programa “Nasi Noite Adentro” confirma sucesso ao emplacar a sua quarta temporada. A atração comandada pelo histórico vocalista da banda paulistana Ira! explora justamente espaços recônditos da capital, ou nem tanto, pois embora anti-convencionais os lugares visitados recebem número significativo de pessoas, como comprovam os episódios; alguns, inclusive, temáticos – de que são exemplos os bastidores de uma filmagem pornô, um hotel dedicado a gays e o bar com estética punk. O estilo de vida libertário exaltado por Nasi e seus convidados recebe abrigo contundente pela noite que esconde e revela seus tabus e segredos.

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Análise: 70 anos de Maria Bethânia, a abelha-rainha da música brasileira

“tudo me impulsa para o coração do mundo” Wally Salomão

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Não é exagero dizer que Bethânia é música em cada fibra, até por que suas interpretações lancinantes nunca pecaram pelo comedimento, numa tênue linha em que é preciso dominar o instrumento para que a entrega não se torne gratuita. E o instrumento da cantora está além da voz, pois é capaz de transformar um simples gesto numa proporção de palavras prenhes de significado. Aí está, dentre tantos, o legado, é bem possível, de maior relevância desta artista ímpar na música popular brasileira, apelidada de “abelha-rainha” após interpretar canção escrita pelo poeta baiano Wally Salomão e musicada pelo irmão Caetano Veloso, “Mel”. Foi Caetano, aliás, quem batizou Bethânia, em insistência junto à matriarca do clã para que desse à filha o nome da música gravada, à época, com enorme sucesso, por Nelson Gonçalves, composta pelo pernambucano autor de frevos inesquecíveis Lourenço da Fonseca, mais conhecido como Capiba. Idos da década de 1940.

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O Estranho Desaparecimento do Procurado

“Alguma coisa dissolveu meu rosto. Coisa que aliás mal aparece em meio à névoa prateada da luz das velas.” Virginia Woolf

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O véu fulgurante e invisível esfola a planície nítida. A promessa de se voltar a isto. A confissão de que Tudo Não Passou Da Verdade. Um negro forte, sorridente, simples, de adjetivos laicos: dispostos um atrás do outro mais confundem, atrasam: a resignação da ignorância. A cabeça ao pender perpendicular revela a calvície histórica. A mão aperta com firmeza. Tensa, suada, o jeito meigo de impressionar com o tamanho dos dentes, a bravura do sorriso: desarma. Lembra o Negrinho do Pastoreio. Abonado com vestes trançadas e traçadas no próprio corpo ele sorri: um sorriso de gosto. Traças passeiam no paletó cinza-escuro. Baixo, torna-se ainda mais baixo, curva-se.

Roxo de susto: da visão da noite: não mais alado: no exato instante em que esta cor muda: não mais amarelo como a terra batida na qual insistem em bater: sem força, mas o tapa arde: nunca verde como os olhos escuros no friso de Ágata: nem roxo que agora mesmo fora de susto, de azedo, sufoco: sonhos incolores: cremos. A água é servida no copo quebrado na ponta. O negro é um búfalo. Os leões o cercam no mato, o capinzal é áspero. Porque nós outros a não sermos donos do terreno se tantos e ledos enganos foram proferidos à boca pequena que engoliu o trema, a lama, o lema, o limbo, o lodo, o Lundu. Ao som do farfalhar de hortaliças romenas, hinos de amor e medo, a revolver coloniais fantasias, o chifre como uma lápide de gesso, os ossos, as carnes, os pelos, afundam junto a todo resto.

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