Análise: 80 anos de Agnaldo Timóteo, performance do tamanho da voz

“Ai que vontade de gritar,
Seu nome bem alto e no infinito,
Dizer que o meu amor é grande,
Bem maior do que meu próprio grito” Roberto Carlos & Erasmo Carlos

Cantor Agnaldo Timóteo completa 80 anos em 2016

Agnaldo Timóteo é descendente direto de Nelson Gonçalves, Francisco Alves, Cauby Peixoto, Vicente Celestino, Carlos Galhardo e Silvio Caldas, entre tantos outros, embora nenhum deles tenha nascido no interior das Minas Gerais, em Caratinga. Pertence à linhagem de Altemar Dutra, Nelson Ned, Wando, estes sim seus contemporâneos e conterrâneos de terras mineiras, embora o último sem a força e extensão vocal dos demais, mas listado entre os propagadores da música romântica que, em seu período auge de atuação, provavelmente pelo inconformismo dos que não obtinham os mesmos números de vendagem, foram pejorativamente taxados como “cafonas”, e, mais tarde, “bregas”. A primeira expressão, inclusive, teria sido fortemente divulgada pelo irreverente Carlos Imperial, segundo palavras do próprio Agnaldo Timóteo, cuja voz límpida, clara e potente ainda ecoa. Lá se vão 80 anos de polêmica existência.

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Um abraço para se proteger do frio

“projeto-me num abraço
e gero uma despedida.” Cecília Meireles

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Na terra uma margarida afofa o vaso. A primeira, gorda, acentua a banha ao apertar sobre ela o cafona cinto dourado de tiras alaranjadas. A segunda, magra, espirra em questão de segundos, e para conter a profecia do vírus abana irritada o lenço. Apesar da educação e cultura não sabe que vêm caracterizadas, a dupla: O Gordo e o Magro. Por cima das almofadas como poodles de madames abrem o sorriso largo: as duas têm dentes de ouro. Mas a boca da dupla definha quando abre: qual carniça desprezada por urubus: a revirar no lixo: remexer no lixo: e não se encontra a espinha do peixe cuspido entre frutas, alfafas e alfaces. Tanto falam que não falam nada. No fundo elas formam uma – dentre as muitas serpentes de Medusa uma cobra instaura a suprema fome.

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Crítica: “MY NAME IS NOW” explora impacto imagético da voz de Elza Soares

“O ritual sincopado das gargantas
Tinha o ruído oco de umas águas
Deitadas bem de leve em algum cântaro.
Todo o espaço se enchia desse canto
E atraía umas aves, outras tantas.” Hilda Hilst

My Name Is Now, Elza Soares.

Um dos diferenciais do documentário dirigido por Elizabete Martins Campos em reverência a Elza Soares é que cabe à cantora conduzir a própria história através das palavras, cantadas ou faladas, às quais se acoplam imagens selecionadas pela equipe que tornam ainda mais vigorosos os discursos. Esse é um dos trunfos, mas não é o único. O roteiro, escrito a quatro mãos por Elizabete e Ricardo Alves Jr., longe de ser cronológico, tampouco procura tornar hermética personagem tão popular. E há os recursos cênicos em favor da história. Elza, de frente para um espelho, permite-se captar e absorver na intimidade, ultrapassando formalidades e superfícies, mesmo, e paradoxalmente, quando elabora e oferece uma performance de si, dando ao espectador a possibilidade de apreender características como a vaidade, a carência e a solidão, além das supracitadas força, determinação e coragem.

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Mito do Grilo & da Onça

“Mas, testemunha de seu solo
E testemunha de seu mar,
O grilo é a maior elegia
Que a Natureza me faz.” Emily Dickinson

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Acode a savana. Nas costas o grilo pula. Sorri o tempo todo. Aprecia novela e romances. Não entendeste o insulto, sigamos. O grilo não é nenhum bicho que avoa, de hábeis pernas em verdes arbustos, com o olhar guloso para algumas plantas, vítima da maldade alheia – no caso: aranhas. Grilo é um moço feio: esbanja vitalidade. A peleja dos anos na roça dá-lhe a experiência que pelo tempo de vida falta. Tem a verdade inteira na boca: desce como uma bolacha pelo estômago de Grilo os quitutes à disposição. Aqui a cidadezinha, a pobre cidadezinha, parece relegada à orfandade, destas que não se nota, pois há sempre um grilo para lhe jogar por cima um pano: verde, amarelo, áspero.

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3 imagens marcantes sobre o futebol brasileiro

“Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola.” Nelson Rodrigues

portinari - futebol

Não é de hoje que a expressão “pintura” juntou-se ao esporte mais popular do país. Assim como “gol de placa” que, dizem, teria surgido de mais um lance genial do atleta do século, Pelé, ao anotar tento consagrado com a devida homenagem. Por essas também, e, sobretudo pelo drible, artifício capaz de desconcertar o adversário e provocar êxtase na torcida, o futebol é considerado e aclamado em sua plasticidade, donde se extraíram inovações como a “folha seca”, o “drible da vaca”, o “elástico”, a “caneta”, além das defesas de mão trocada e tantas outras praticadas por aqueles que evitam o momento maior do futebol, de maior alegria, o gol. Assim, o futebol provocou e inspirou imagens marcantes capturadas pelas lentes fotográficas, mas, também por artistas do traço, da pintura, que apresentamos agora com suas peculiares visões do jogo.

Futebol em Brodósqui (pintura, 1935) – Cândido Portinari
Cândido Portinari, um dos mais talentosos e respeitados pintores brasileiros de todos os tempos, no Brasil e no exterior, reverenciado por alguns modernistas, concebeu, em 1935, o quadro “Futebol em Brodósqui”, pintura que remete à infância do artista na cidade do interior onde nasceu e reserva à atividade o espírito lúdico de sua descoberta e dos primeiros anos. Com os traços habituais e característicos do pintor, retrata-se o conhecido futebol de várzea, em que a precariedade de recursos é substituída pela invenção e criatividade. É em meio a vacas, próximas de paus, pedras e cemitérios, que as crianças brasileiras de Portinari improvisam o jogo de expressivo apelo popular cultural.

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