Crítica: Eduardo Dussek domina palco e plateia com repertório misto

“Nada acabará, grita o matagal!
Nada ainda começou…” Eduardo Dussek & Luiz Carlos Góes

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Formado pela escola do teatro “besteirol” na década de 1980, Eduardo Dussek recusa-se a revelar a idade, “algo entre os 50 e a morte”, debocha, figura de linguagem com a qual se esbalda e cativa o público que assistiu à apresentação do artista na sala Juvenal Dias, pertencente ao Palácio das Artes, como encerramento do 2º Inverno das Artes, na última segunda-feira. Com a mistura característica de humor e música, e pleno domínio tanto do instrumento, um luxuoso piano de cauda, das obras e até das reações do público, com trajetória calcada na irreverência que lhe aperfeiçoou, inclusive, o dom do improviso, Dussek presenteou os fãs também com um repertório misto, indo com desenvoltura do romantismo ao escracho, ou, como gosta de dizer, as “baixarias”. Em comemoração aos 40 anos de carreira, desfilou sucessos em versões renovadas, como “Rock da Cachorra”, ao estilo bossa nova, e “Cantando no Chuveiro”, interpretada em inglês. Não faltaram piadas e sátiras.

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O Silêncio do Tempo

“É preciso aprender a se movimentar dentro do silêncio e do tempo.” Caio Fernando Abreu

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Não sabia ao certo o nome. Um filete comprido, longo, esverdeado, cuja língua arriscava furos na superfície lenta do ar, com duas bolinhas tão velozes quanto o rabo no lugar dos olhos. Alguns o chamavam lagarto, mas a maioria de calango. Era um bicho arredio, que ao menor sinal de ser cutucado rápido se desvencilhava das possíveis mãos ou pernas ou cabos de vassoura. Mas, ao contrário, se o deixassem de lado, se a mesma indiferença demonstrada fosse recíproca, permanecia coalhando ao sol, lento, lerdo, espreguiçado. Numa tranqüilidade assustadora para quem se remoía e martelava os perigos iminentes do mundo e a inexorabilidade da morte. Afinal aquele lagarto ou calango não devia ter pensamentos muito profundos. No entanto, e bota entanto nisto, era profunda a sua inveja, e, até, pasmem, o seu ciúme. Para o lagarto o mundo, embora menos proveitoso, parecia também não exigir muito.

Era uma imagem engraçada. A maior parte do tempo estática, como uma foto, envelhecida, pela textura corporal do réptil, e mais, pelo ar de constrição que exibia. O estoicismo do lagarto parecia dizer que tudo estava no lugar, e que tudo aconteceria no tempo certo, sendo inúteis e absurdos os esforços para modificar a ordem natural do planeta e suas circunstâncias essenciais, tão arraigadas quanto as raízes de batatas ou cenouras presentes naquele ambiente. As quais ele admirava imóvel e para as quais eventualmente furtava um olhar mais atrevido, mas sempre sereno, inóspito, inteiro. Havia a noção de exatidão no corpo do lagarto, na sua medida, em como se acoplava junto às pedras, com o sol lhe iluminando numa cenografia perfeita para aquele espetáculo, do qual sabia todas as falas, todas as deixas, quando arroubar e quando permanecer quieto, somente por instinto, por ser exatamente aquilo para o que fora concebido, sem indagações, suspeitas, escolhas, diretrizes.

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Caderno H2O – 22/07/2016

“… palavras agrupam-se de súbito como para uma
procissão ou dança sem pedir-me ordem ou conselho.” Marie Noël

PALAVRA

Coloque um preço
Quanto vale esta palavra?
Na soma da matemática
Ou na subtração dos átomos

Quanto vale esta palavra?
O pescoço é de girafa
Nada rápida como uma alga

Quanto vale esta palavra?
Qual o peso, a largura, o tamanho?
Um prédio de Niemeyer ou a cordilheira dos Andes?

Quanto vale,
Vala,
Relva.

Toda arte,
Coma,
Destra.

Na esquerda da política
Ou na conjugação dos verbos

Esta palavra não presta.

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Análise: Crítico, Sábato Magaldi foi além do óbvio

Poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi.” Oswald de Andrade

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Sábato Magaldi pertenceu a uma época em que era permitido e incentivado conciliar rigoroso arcabouço teórico à fluidez e pontualidade do texto jornalístico. Natural de Belo Horizonte cedo migrou para o Rio de Janeiro e logo depois São Paulo, capitais onde praticamente tudo acontecia em termos de inovação estética e criativa, recebendo cantores, escritores, artistas plásticos, cineastas e encenadores de todas as regiões do país. Sua preocupação era especificamente com o teatro, embora nesse meio não se restringisse a nada. Sábato dava pitacos em textos alheios, auxiliava atores em início de carreira e discutia concepções de cenografia com os montadores, mas foi, sempre, e, sobretudo, um crítico que soube enxergar além do óbvio. Que o digam Nelson Rodrigues, Plínio Marcos e Oswald de Andrade, entre inúmeros outros.

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Análise: Guilherme Karan tinha embocadura própria para as personagens

“Eles se habituam logo com o deboche. Basta um pouco de tédio…” Jean Genet

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Fala-se muito no humor da importância da respiração, da pausa, do momento certo de enumerar a piada, ou a deixa, ou a fala. Essencial, tal aspecto, porém, não raramente precisa do acompanhamento de outro, que nem sempre recebe a mesma atenção da crítica e nem dos próprios atores, mas que, em benefício dos que o percebem e utilizam cria para estes a possibilidade de uma “marca”, o que em outros tempos era adquirido pelo “bordão”, capaz de diferenciá-los ainda que confinados a um mesmo espectro de personagem. Com a paulatina desvalorização das intérpretes de um número só, o que se configurava como certo “estilo” para os atores esmaeceu-se em privilégio de certa diversidade.

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