Caderno H2O – 22/07/2016

“… palavras agrupam-se de súbito como para uma
procissão ou dança sem pedir-me ordem ou conselho.” Marie Noël

PALAVRA

Coloque um preço
Quanto vale esta palavra?
Na soma da matemática
Ou na subtração dos átomos

Quanto vale esta palavra?
O pescoço é de girafa
Nada rápida como uma alga

Quanto vale esta palavra?
Qual o peso, a largura, o tamanho?
Um prédio de Niemeyer ou a cordilheira dos Andes?

Quanto vale,
Vala,
Relva.

Toda arte,
Coma,
Destra.

Na esquerda da política
Ou na conjugação dos verbos

Esta palavra não presta.

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Análise: Crítico, Sábato Magaldi foi além do óbvio

Poesia é a descoberta das coisas que eu nunca vi.” Oswald de Andrade

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Sábato Magaldi pertenceu a uma época em que era permitido e incentivado conciliar rigoroso arcabouço teórico à fluidez e pontualidade do texto jornalístico. Natural de Belo Horizonte cedo migrou para o Rio de Janeiro e logo depois São Paulo, capitais onde praticamente tudo acontecia em termos de inovação estética e criativa, recebendo cantores, escritores, artistas plásticos, cineastas e encenadores de todas as regiões do país. Sua preocupação era especificamente com o teatro, embora nesse meio não se restringisse a nada. Sábato dava pitacos em textos alheios, auxiliava atores em início de carreira e discutia concepções de cenografia com os montadores, mas foi, sempre, e, sobretudo, um crítico que soube enxergar além do óbvio. Que o digam Nelson Rodrigues, Plínio Marcos e Oswald de Andrade, entre inúmeros outros.

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Análise: Guilherme Karan tinha embocadura própria para as personagens

“Eles se habituam logo com o deboche. Basta um pouco de tédio…” Jean Genet

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Fala-se muito no humor da importância da respiração, da pausa, do momento certo de enumerar a piada, ou a deixa, ou a fala. Essencial, tal aspecto, porém, não raramente precisa do acompanhamento de outro, que nem sempre recebe a mesma atenção da crítica e nem dos próprios atores, mas que, em benefício dos que o percebem e utilizam cria para estes a possibilidade de uma “marca”, o que em outros tempos era adquirido pelo “bordão”, capaz de diferenciá-los ainda que confinados a um mesmo espectro de personagem. Com a paulatina desvalorização das intérpretes de um número só, o que se configurava como certo “estilo” para os atores esmaeceu-se em privilégio de certa diversidade.

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Análise: Hector Babenco produziu cinema voltado a temas marginais

“sonhos de poeta
que terminam numa fábrica
um em um milhão despercebidos
compram sonhos vendidos em bares…” Miguel Piñero

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Freqüentemente o cinema produzido pelo diretor Hector Babenco é adjetivado como áspero, cru, direto, e, sobretudo, pessoalíssimo. Não há dúvidas de que a condição de estrangeiro emprestou às películas do argentino naturalizado brasileiro todos os tons descritos acima e que o caracterizavam assim como sua visão e posição frente a um mundo diversas vezes injusto, excludente e reacionário. Portanto não é de se espantar que Babenco escolhesse olhar para seu semelhante, com o qual tinha hábil poder de dialogar pela imediata identificação, proveniente do conhecimento de causa. O semelhante era ele mesmo, refletido pelo espelho do cinema. Dentre os filmes de maior impacto, “O Beijo da Mulher Aranha”, “Pixote” e “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”.

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Lamento muito que a gente tenha se separado

“E ela se contorce toda
presa em minha teia:
Era pétala amputada
Tornou-se flor inteira.” Simone Teodoro

fragonard

Dizem dessa história há muito tempo, mas é tudo mentira, nunca passou por aqui. Alto, magricela, delicado como uma pluma de boneca da menina a pairar por sobre os porcos do chiqueiro, serve e insiste para que se repita: cachaça. Fina no gargalo e rechonchuda no espalho dos quadris largos imprime à garrafa uma força espirituosa na rolha. O aroma da cana de açúcar é unânime em sua graça. Copos aproximam corpos e esbaldam. Quiquito é só alegria e cortesia irritante. Insiste a um gole mais e mais e mais outro. Como se necessário fosse. Com a espontaneidade e devoção de soldados de guerra após o abate dos inexperientes carrascos o álcool molha os vitoriosos.

A magreza de vacas, vielas e ruas interrompe as falas, lacrimejantes. Sondam com rigor e astúcia os mosquitos: sangue. Nem só rotura e vergalhões nesta paisagem seca. Os bípedes trazem aos trancos e barrancos ossos secos. Muitos se prendem às tocas como a cutia ao buraco. Não adianta oferecer o sol áspero. Preferem a treva da luz. E quem disse dela beleza não há? Velhas superfícies gastas, ranzinzas e rugosas não almejam tocar o ouro, nelas cresceram ramos por sobre elas para cultivar raízes por sobre os ossos e desprende-las todos sabemos é um trabalho de flores. Movidas pela inércia de ali nascidas, criadas e só desejam sair mortas.

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