Mito do Grilo & da Onça

“Mas, testemunha de seu solo
E testemunha de seu mar,
O grilo é a maior elegia
Que a Natureza me faz.” Emily Dickinson

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Acode a savana. Nas costas o grilo pula. Sorri o tempo todo. Aprecia novela e romances. Não entendeste o insulto, sigamos. O grilo não é nenhum bicho que avoa, de hábeis pernas em verdes arbustos, com o olhar guloso para algumas plantas, vítima da maldade alheia – no caso: aranhas. Grilo é um moço feio: esbanja vitalidade. A peleja dos anos na roça dá-lhe a experiência que pelo tempo de vida falta. Tem a verdade inteira na boca: desce como uma bolacha pelo estômago de Grilo os quitutes à disposição. Aqui a cidadezinha, a pobre cidadezinha, parece relegada à orfandade, destas que não se nota, pois há sempre um grilo para lhe jogar por cima um pano: verde, amarelo, áspero.

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3 imagens marcantes sobre o futebol brasileiro

“Em futebol, o pior cego é o que só vê a bola.” Nelson Rodrigues

portinari - futebol

Não é de hoje que a expressão “pintura” juntou-se ao esporte mais popular do país. Assim como “gol de placa” que, dizem, teria surgido de mais um lance genial do atleta do século, Pelé, ao anotar tento consagrado com a devida homenagem. Por essas também, e, sobretudo pelo drible, artifício capaz de desconcertar o adversário e provocar êxtase na torcida, o futebol é considerado e aclamado em sua plasticidade, donde se extraíram inovações como a “folha seca”, o “drible da vaca”, o “elástico”, a “caneta”, além das defesas de mão trocada e tantas outras praticadas por aqueles que evitam o momento maior do futebol, de maior alegria, o gol. Assim, o futebol provocou e inspirou imagens marcantes capturadas pelas lentes fotográficas, mas, também por artistas do traço, da pintura, que apresentamos agora com suas peculiares visões do jogo.

Futebol em Brodósqui (pintura, 1935) – Cândido Portinari
Cândido Portinari, um dos mais talentosos e respeitados pintores brasileiros de todos os tempos, no Brasil e no exterior, reverenciado por alguns modernistas, concebeu, em 1935, o quadro “Futebol em Brodósqui”, pintura que remete à infância do artista na cidade do interior onde nasceu e reserva à atividade o espírito lúdico de sua descoberta e dos primeiros anos. Com os traços habituais e característicos do pintor, retrata-se o conhecido futebol de várzea, em que a precariedade de recursos é substituída pela invenção e criatividade. É em meio a vacas, próximas de paus, pedras e cemitérios, que as crianças brasileiras de Portinari improvisam o jogo de expressivo apelo popular cultural.

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Crítica: exposição sobre Mondrian reitera força da arte feita para interferir no mundo

“Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:

então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;

onde foi palavra
(potros ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.” João Cabral de Melo Neto

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Embora tenha se destacado de seus pares o holandês Piet Mondrian foi um artista de grupo, de movimento e estilo. Primeiro porque acreditava no público em detrimento do privado e no coletivo em detrimento da esfera individual. Munido de concepções advindas da teologia, filosóficas e políticas, concebeu, através dos anos, o que viria a se denominar como “Neoplasticismo”, aonde a arte adquiria um novo domínio, pois ao abandonar as convicções realistas não apenas deixava de ser mera captadora do ambiente como emergia frente a uma nova e reveladora ambição, a de interferir, objetivamente, sobre a percepção humana e, com isto, modificar os seus atos, por conseqüência direta. Eram os anos que precederiam a Primeira Guerra Mundial, e mesmo durante e um pouco depois as relações humanas pareciam tão ou mais absurdas do que estruturas geométricas se estipularem como a modernidade.

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Crítica: Eduardo Dussek domina palco e plateia com repertório misto

“Nada acabará, grita o matagal!
Nada ainda começou…” Eduardo Dussek & Luiz Carlos Góes

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Formado pela escola do teatro “besteirol” na década de 1980, Eduardo Dussek recusa-se a revelar a idade, “algo entre os 50 e a morte”, debocha, figura de linguagem com a qual se esbalda e cativa o público que assistiu à apresentação do artista na sala Juvenal Dias, pertencente ao Palácio das Artes, como encerramento do 2º Inverno das Artes, na última segunda-feira. Com a mistura característica de humor e música, e pleno domínio tanto do instrumento, um luxuoso piano de cauda, das obras e até das reações do público, com trajetória calcada na irreverência que lhe aperfeiçoou, inclusive, o dom do improviso, Dussek presenteou os fãs também com um repertório misto, indo com desenvoltura do romantismo ao escracho, ou, como gosta de dizer, as “baixarias”. Em comemoração aos 40 anos de carreira, desfilou sucessos em versões renovadas, como “Rock da Cachorra”, ao estilo bossa nova, e “Cantando no Chuveiro”, interpretada em inglês. Não faltaram piadas e sátiras.

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O Silêncio do Tempo

“É preciso aprender a se movimentar dentro do silêncio e do tempo.” Caio Fernando Abreu

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Não sabia ao certo o nome. Um filete comprido, longo, esverdeado, cuja língua arriscava furos na superfície lenta do ar, com duas bolinhas tão velozes quanto o rabo no lugar dos olhos. Alguns o chamavam lagarto, mas a maioria de calango. Era um bicho arredio, que ao menor sinal de ser cutucado rápido se desvencilhava das possíveis mãos ou pernas ou cabos de vassoura. Mas, ao contrário, se o deixassem de lado, se a mesma indiferença demonstrada fosse recíproca, permanecia coalhando ao sol, lento, lerdo, espreguiçado. Numa tranqüilidade assustadora para quem se remoía e martelava os perigos iminentes do mundo e a inexorabilidade da morte. Afinal aquele lagarto ou calango não devia ter pensamentos muito profundos. No entanto, e bota entanto nisto, era profunda a sua inveja, e, até, pasmem, o seu ciúme. Para o lagarto o mundo, embora menos proveitoso, parecia também não exigir muito.

Era uma imagem engraçada. A maior parte do tempo estática, como uma foto, envelhecida, pela textura corporal do réptil, e mais, pelo ar de constrição que exibia. O estoicismo do lagarto parecia dizer que tudo estava no lugar, e que tudo aconteceria no tempo certo, sendo inúteis e absurdos os esforços para modificar a ordem natural do planeta e suas circunstâncias essenciais, tão arraigadas quanto as raízes de batatas ou cenouras presentes naquele ambiente. As quais ele admirava imóvel e para as quais eventualmente furtava um olhar mais atrevido, mas sempre sereno, inóspito, inteiro. Havia a noção de exatidão no corpo do lagarto, na sua medida, em como se acoplava junto às pedras, com o sol lhe iluminando numa cenografia perfeita para aquele espetáculo, do qual sabia todas as falas, todas as deixas, quando arroubar e quando permanecer quieto, somente por instinto, por ser exatamente aquilo para o que fora concebido, sem indagações, suspeitas, escolhas, diretrizes.

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