A Noite Da Revolta

“se eu estiver em fugas e
uma língua de vulcão
extrair de meus ossos
minhas carnes eu vos rogo
jamais preencham minha
carcaça com gesso ou com
outras substâncias
moldáveis

Jamais, vos suplico
aprisionem meu medo
num rosto apavorado de
estátua.” Simone Teodoro

"Ronda Noturna", obra de Rembrandt

A senhora é um buldogue. Ora morde: outra ladra. Tem aromas clandestinos da planta de almíscar. O enxoval bravio da seriema grávida. Pisa nas superfícies traiçoeiras, móveis e crepitantes. Os jeans amortalhados brilham pela agulha que lhes fere o âmago. Flores de plástico sobem ao alto por ventiladores que destinam voo aos incapazes. A falta de pano para a calça resolve-se com o excesso da saia. Inexistem asas e os papelões debatem-se: os instrumentos de madeira velha, as poesias de palavra reciclada, as agonias de antigas almas, as esperanças de verde lápis, as mentiras de quem diz a verdade. As novas e as idosas, as de cabelos brancos e as de ainda ralos, os desdentados por motivos vários. Tremulam como as bandeiras das ruínas gregas. Uma overdose de açúcar, um decomposto estado, um vazio existencial, um corpo, um cosmos: a Via Láctea. Mais do que é possível dar: entorna o leite, derruba o líquido. Apesar das desavenças, leve senhora.

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Análise: 80 anos de Agnaldo Timóteo, performance do tamanho da voz

“Ai que vontade de gritar,
Seu nome bem alto e no infinito,
Dizer que o meu amor é grande,
Bem maior do que meu próprio grito” Roberto Carlos & Erasmo Carlos

Cantor Agnaldo Timóteo completa 80 anos em 2016

Agnaldo Timóteo é descendente direto de Nelson Gonçalves, Francisco Alves, Cauby Peixoto, Vicente Celestino, Carlos Galhardo e Silvio Caldas, entre tantos outros, embora nenhum deles tenha nascido no interior das Minas Gerais, em Caratinga. Pertence à linhagem de Altemar Dutra, Nelson Ned, Wando, estes sim seus contemporâneos e conterrâneos de terras mineiras, embora o último sem a força e extensão vocal dos demais, mas listado entre os propagadores da música romântica que, em seu período auge de atuação, provavelmente pelo inconformismo dos que não obtinham os mesmos números de vendagem, foram pejorativamente taxados como “cafonas”, e, mais tarde, “bregas”. A primeira expressão, inclusive, teria sido fortemente divulgada pelo irreverente Carlos Imperial, segundo palavras do próprio Agnaldo Timóteo, cuja voz límpida, clara e potente ainda ecoa. Lá se vão 80 anos de polêmica existência.

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Um abraço para se proteger do frio

“projeto-me num abraço
e gero uma despedida.” Cecília Meireles

Egon_Schiele_-_Zwei_sich_umarmende_Frauen_-_1911

Na terra uma margarida afofa o vaso. A primeira, gorda, acentua a banha ao apertar sobre ela o cafona cinto dourado de tiras alaranjadas. A segunda, magra, espirra em questão de segundos, e para conter a profecia do vírus abana irritada o lenço. Apesar da educação e cultura não sabe que vêm caracterizadas, a dupla: O Gordo e o Magro. Por cima das almofadas como poodles de madames abrem o sorriso largo: as duas têm dentes de ouro. Mas a boca da dupla definha quando abre: qual carniça desprezada por urubus: a revirar no lixo: remexer no lixo: e não se encontra a espinha do peixe cuspido entre frutas, alfafas e alfaces. Tanto falam que não falam nada. No fundo elas formam uma – dentre as muitas serpentes de Medusa uma cobra instaura a suprema fome.

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Crítica: “MY NAME IS NOW” explora impacto imagético da voz de Elza Soares

“O ritual sincopado das gargantas
Tinha o ruído oco de umas águas
Deitadas bem de leve em algum cântaro.
Todo o espaço se enchia desse canto
E atraía umas aves, outras tantas.” Hilda Hilst

My Name Is Now, Elza Soares.

Um dos diferenciais do documentário dirigido por Elizabete Martins Campos em reverência a Elza Soares é que cabe à cantora conduzir a própria história através das palavras, cantadas ou faladas, às quais se acoplam imagens selecionadas pela equipe que tornam ainda mais vigorosos os discursos. Esse é um dos trunfos, mas não é o único. O roteiro, escrito a quatro mãos por Elizabete e Ricardo Alves Jr., longe de ser cronológico, tampouco procura tornar hermética personagem tão popular. E há os recursos cênicos em favor da história. Elza, de frente para um espelho, permite-se captar e absorver na intimidade, ultrapassando formalidades e superfícies, mesmo, e paradoxalmente, quando elabora e oferece uma performance de si, dando ao espectador a possibilidade de apreender características como a vaidade, a carência e a solidão, além das supracitadas força, determinação e coragem.

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Mito do Grilo & da Onça

“Mas, testemunha de seu solo
E testemunha de seu mar,
O grilo é a maior elegia
Que a Natureza me faz.” Emily Dickinson

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Acode a savana. Nas costas o grilo pula. Sorri o tempo todo. Aprecia novela e romances. Não entendeste o insulto, sigamos. O grilo não é nenhum bicho que avoa, de hábeis pernas em verdes arbustos, com o olhar guloso para algumas plantas, vítima da maldade alheia – no caso: aranhas. Grilo é um moço feio: esbanja vitalidade. A peleja dos anos na roça dá-lhe a experiência que pelo tempo de vida falta. Tem a verdade inteira na boca: desce como uma bolacha pelo estômago de Grilo os quitutes à disposição. Aqui a cidadezinha, a pobre cidadezinha, parece relegada à orfandade, destas que não se nota, pois há sempre um grilo para lhe jogar por cima um pano: verde, amarelo, áspero.

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