23 músicas brasileiras com nomes de mulher

“O olhar singular de galante mulher
Que rumo a nós desliza como um branco raio
Que a lua vibrante envia ao lago a tremer,
Quando nele mergulha a beleza em desmaio” Charles Baudelaire

A expressão musa nasceu com a mitologia grega, e se refere às nove filhas do casal formado por Zeus e Memória. Posteriormente, o termo passou a ser empregado pelos poetas românticos para louvar aquelas que lhes despertavam os mais nobres sentimentos. As musas inspiradoras também pululam no que diz respeito à canção popular brasileira. Desde que o samba é samba a ala feminina passou a batizar inúmeras obras do cancioneiro nacional. Pautada pela diversidade, a prática não nega visto a nenhum ritmo, dando a nota certa tanto no axé quanto no rock, marcando o compasso do funk e da valsa. De Milton Nascimento a Chico Buarque, Cazuza, Nando Reis, Fausto Fawcett e Dorival Caymmi não há Janaína, Beatriz ou Eva que não fosse contemplada.

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A reflexão feminista e autobiográfica de Agnès Varda

“A aranha traz uma bola de prata/ Nas mãos que não se vêem / E ao dançar, leve e sozinha,
Desata seu perolado novelo./ Com artes imateriais,/ De nada em nada vai tecendo;
Sua trama supera as nossas,/ Na metade do tempo./ Rapidamente levanta/ Territórios luzidios,
Pendentes depois de uma vassoura –/ Seus limites, esquecidos.” Emily Dickinson

O diagnóstico de câncer atemoriza a personagem principal. A espera pelo resultado do exame é o mote para o filme “Cléo das 5 às 7”, que catapultou o nome da diretora Agnès Varda (1928-2019) ao estrelato em 1962. Mas essa história de fundo nada teria de especial se a diretora belga não seguisse os princípios da Nouvelle Vague francesa, da qual muitos a acusam de ter sido a principal artífice. Fato é que a paternidade desse movimento revolucionário no cinema recaiu sobre os ombros de Jean-Luc Godard e François Truffaut (1932-1984), mais um indício do machismo vigente naqueles tempos idos que insiste em perdurar. Formada em fotografia, Varda era a única mulher da turma.

Além de brincar com o tempo da narrativa nesse longa-metragem protagonizado por uma hipnotizante Corinne Marchand, a também roteirista Varda literalmente inventa com as imagens e, com isto, consegue extrair planos e quadros fascinantes, onde o gestual mais simples dá conta de expressar toda uma angústia humana. Existencialista no sentido da relação com a passagem do tempo, tema, por si só, atemporal, não se pode deixar passar em branco outra característica menos apontada da produção: a trama gira em torno de uma mulher, a cantora que, para atenuar a fricção dessa agonia procura se distrair com as frivolidades do dia a dia numa cidade como Paris. Mas é ao se encontrar com o seu semelhante que ela experimenta breves momentos de alívio.

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Silva: “O Brasil já foi muito mais relevante musicalmente do que é hoje”

“Não se deve tocar nos ídolos: o dourado acaba por ficar agarrado em nossas mãos.” Gustave Flaubert

Em 2015, o cantor Silva iniciou bem-sucedida turnê com o repertório de Marisa Monte. O carioca Qinho fez a mesma aposta com “Fullgás” (2018), calcado na obra de Marina Lima. No disco de estreia, “Galanga Livre” (2017), o rapper Rincon Sapiência convidou o veterano Sidney Magal. E mesmo aqueles com mais chão percorrido têm adotado a prática. Para 2019, Nando Reis prometeu um disco só com músicas de Roberto Carlos. Abaixo, Silva responde algumas das nossas curiosidades.

1 – O que o aproximou do repertório da cantora Marisa Monte? Quem era o seu grande ídolo musical na infância e qual a sua primeira lembrança musical?
Meus irmãos, que são um pouco mais velhos do que eu, me apresentaram Marisa. Lembro que fiquei apaixonado pelo (disco) “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor” (2000) e depois disso comecei a ouvir tudo dela. Hoje, tenho o prazer de ser amigo de alguém que sempre admirei. Meu ídolo musical da infância eu diria que era Tom Jobim, ouvi o álbum “Passarim” (1987) até furar. Minha primeira lembrança musical é de meu tio, que é um pianista que admiro muito, me colocando para tocar um pedaço de um concerto de (Robert) Schumann (compositor erudito alemão) que ele estava estudando. Eu era muito novo e é claro que tocava tudo errado, mas nunca me esqueço disso.

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Zeca Baleiro: “O cenário artístico brasileiro é tomado de muita injustiça”

“Acabe com o apetite, e a geração atual não
Viveria um mês, e nenhuma geração futura existiria” Ezra Pound

No interior do Maranhão, em Arari, Zeca Baleiro ouvia discos de Martinho da Vila, Luiz Gonzaga e Mercedes Sosa. Antes mesmo de ser conhecido ele já tinha um ídolo: Fagner. O encontro dos músicos aconteceu quando o cearense foi levado pelo poeta Sergio Natureza a um show de Baleiro. “O que mais me instigou foi o fato de sermos de gerações diferentes”, afirma Baleiro. Juntos, os dois compuseram quase 20 canções, gravaram disco e DVD. “Até o conceito de geração está confuso. No passado, isso era uma afirmação de identidade estética e ideológica. Hoje, a ideologia é o mercado e a ideia de sucesso se antepôs a tudo”, lamenta Baleiro.

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“Anitta e Nego do Borel são defensores da periferia ou reaças?”, questiona jornalista

“E nada como um tempo após um contratempo (…)
E como já dizia Jorge Maravilha prenhe de razão
Mais vale uma filha na mão, do que dois pais voando
Você não gosta de mim, mas sua filha gosta” Chico Buarque

Representante da Era de Ouro do rádio, que consagrou os cantores de “dó de peito”, aqueles que cantavam até sem microfone, Nelson Gonçalves lançou, em 1962, “Seresta Moderna”, música de Adelino Moreira que dava um recado direto para João Gilberto, papa da bossa nova: “Um gaiato cantando sem voz/ Um samba sem graça/ Desafinado que só vendo”. Em 1966, foi a vez de Adoniran Barbosa se lamentar diante do sucesso da jovem guarda, com “Já Fui uma Brasa”: “Mas lembro que o rádio que hoje toca iê-iê-iê o dia inteiro/ Tocava ‘Saudosa Maloca’”, cantava o autor da clássica “Trem das Onze”.

Um ano depois, em 1967, a Passeata contra a Guitarra Elétrica precedeu o álbum “Tropicália ou Panis et Circencis”, que concretizava musicalmente as bases do movimento capitaneado por Caetano Veloso e Gilberto Gil. E, quando a Blitz invadiu as paradas de sucesso no ano de 1982, o discurso combativo e politizado da MPB começou a ser substituído por histórias cotidianas, de amores e dores, que se voltavam para os próprios umbigos daquela juventude imersa nos acordes do rock.

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