Cinema: James Dean

“Não é a violência que eu procuro mas uma força ainda não classificada que nem por isso deixará de existir no mínimo silêncio que se locomove.” Clarice Lispector

Juventude Transviada

James Dean me abordou na rua, pediu dinheiro, sacou o canivete, colocou-o rente à minha goela. Parecia galinha em dia de abate. O escritor não deve ter vaidade, pudor nem vergonha. Virou as costas e começou a meter. Sinto falta de porrada. Inspiração de resíduos.

Os cabelos despenteados, loiros e rebeldes. Em seguida, entrou no carro e acelerou. Naquele acidente de percurso, ele morreria. Numa explosão grandiosa. Nunca mais o vi. Deixei cair um lenço na visagem. Seus olhos intermitentes ainda acenaram a agonia.

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Teatro: Dona Flor e seus dois maridos

“É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar” Dorival Caymmi

clássico de Jorge Amado

Atrevo-me despudorado à definição fácil e inflamada de personagens criados por Jorge Amado. Insatisfeito com esse texto, sigo, pois ele não alcançará o torcer das emoções, a roupa molhada estendida no varal ao sol, para secar. Ao que o temporal impele o desfeito. E ela segue lá, roupa, molhada, centrífuga, estendida no varal.

Eu estou fraco, tácito. Nunca vi nada que me fragilizasse tanto, abrisse rachaduras e jorrasse sangue dos meus cilindros para todos os lados. Deu vontade de crispar, morrer ali mesmo estendido e debruçado nos braços de Vadinho (Marcelo Faria – o demônio), dona Flor (Fernanda Vasconcellos – a santa) e Doutor Teodoro (Duda Ribeiro – o santo).

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Bee Gees (Cantores internacionais)

“Vezenquando baixa uma saudade, quase sempre clara como tem sido o ar verde-azulado deste verão, e fico sentindo falta do teu jeito lento de chegar pisando em nuvens, sempre azul.” Caio Fernando Abreu

cantores internacionais

Crápula das minhas aliterações, eu mesmo um pobre ponto mal costurado. Rio e o riso é grosso. Massivo maciço maço de cigarros estonteantes, puxo o primeiro: é Barry Gibb, homem bonito, robusto, alce dos Andes. Nele se sustentam os ases do baralho embaralhado por Eros.

O segundo cigarro de que me sirvo é Robin Gibb, esguio, raquítico, trágico. Uma tesoura cega tentando entrar num ambiente de malhas, rangedoras, qual máquinas em horário de trabalho. Insiste com a especiaria dum ramo duma espiga de milho. Chamam-lhe o espantalho, ele treme, mas não reage.

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Dança: Circo Moscou

“que todo o amor assim como todo o conhecimento é lembrança” Kierkegaard

espetáculo no gelo

Passaram-se dias desde que esmiuçou coração gelado. Duas perninhas desinibidas, assanhadas o suficiente para patinar no gelo, brotaram de dentro mim noite. Rufos nos tambores, palhaços, moedinhas douradas, tudo claro como a luz de Sininho, noite.

Havia uma comoção no ar, gárgulas esperavam na fila, para entrar, aconchegar-se em seu lugar, com a paciência de moscovitas. Acostumados à guerra, ao frio, eles agüentam firmes, duros, gélidos. De dentro de suas bocas um bafo seco conduz sorrisos elétricos ligados na ignição.

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Teatro: Palácio do Fim

“Casca oca:
a cigarra
cantou-se toda.” Bashô

Camila Morgado

Toma conta a emoção como sola de sapato gasta, essa expressão milenar. Mas é a verdade. Num trabalho convicto, construtivo, gentileza de artesão. Casinha de João de Barro, inspeciona dos gravetos ao pôr do sol (vermelho rubro a chatear).

Os discursos costurados, linha de algodão, plumas de flores brancas, soltas, Deus desunindo todo num só chavão: ‘humano, demasiadamente humano’, pego emprestado o livro empoeirado de Nietzsche, na biblioteca das minhas obsessões. Pesado texto, num pesar Cristo.

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